segunda-feira, 21 de maio de 2018

Os Amantes, Magritte


Os Amantes, Magritte

O quadro de René Magritte, sugestivamente intitulado “os amantes”, mostra duas pessoas com os rostos cobertos com panos brancos no ato de se beijar. Meu intuito aqui é analisar psicologicamente o quadro, sem enveredar por debates estéticos ou históricos, nem mesmo fazer remissão ao solo de onde à obra brotou o seu contexto, o que, a rigor, seria importante. Como meu estilo é franca e abertamente impressionista, creio que posso me dar ao luxo de deixar essas coisas em suspenso neste ensaio.
O quadro parece representar, em um instante, uma característica comum do enlace amoroso, os dois se beijam, um gesto íntimo que antecede o ato sexual, porém não são capazes de se enxergar, nem mesmo de se tocar, pois suas cabeças se encontram envolta em um tecido branco. O branco em termos simbólicos possui uma conotação de pureza, de algo imaculado, sendo igualmente na China o no Japão a cor do luto e não o preto. A pureza extrema representada pelo branco também possui a tendência de atrair o seu oposto, justamente aquilo que deseja maculá-la, como nas diversas fábulas do encontro do cordeirinho com o lobo, pois a pureza é uma situação irreal e raramente sustentável por um período prolongado. Assim, me parece que há uma ausência de contato que não seja mediado pelo tecido que os encobre, uma ingenuidade acerca do outro, uma cegueira mais ou menos proposital, ainda mais, pois as bocas mal se roçam, o que eu beijo, na verdade é o tecido diante dos meus lábios, aquilo que está diante dos meus olhos de maneira imediata e que entra em contato direto e íntimo com a minha pele não é a pele do outro, mas o pano alvo. Não se trata sequer de uma máscara que busca esconder, ou dissimular, com o rosto totalmente cobertos, ambos estão às escuras, são duas pessoas que se tornaram cegas em virtude do estranho “véu” que lhes impede o contato, e, mesmo que um deles pudesse remover o tecido que lhe cobre toda a cabeça, restaria aquele que recai sobre o outro. Porém, qual dos dois nos é dada a possibilidade de remover, o nosso pano ou o que está sobre o objeto amado?
A cabeça também possui um curioso simbolismo, especialmente na alquimia, pois é redonda, a forma perfeita e assemelhada assim no microcosmos a abóboda celeste. A cabeça é igualmente a sede do pensar, da ponderação e o local onde se localizam os órgãos dos sentidos, sendo importantes aqui os olhos e a boca, creio eu. Os olhos por seu formato redondo são igualmente comparados na simbologia as esferas celestes, na mitologia japonesa dos olhos de Izanami nasceram os espíritos do sol e da lua, tendo eles uma clara vinculação com a luz. Com a cabeça coberta completamente, não podem ver, e sua capacidade de pensar se encontra reduzida, são cegos em relação um ao outro e com relação a si mesmos, aquilo que os conecta ao infinito, ao se pensar nos chacras indianos que se localizam na cabeça, sendo o último fora dela e que conectam o humano a experiência mística mais elevada também se encontram bloqueados, não permitindo a união apenas em seu plano físico, mas igualmente espiritual. Não me enxergo e também não enxergo o outro.
Jung ao tratar do enlace erótico salientou a possibilidade de existir uma relação apenas entre indivíduos. Um indivíduo é alguém que conseguiu em alguma medida não ser tão dividido no que concerne a si mesmo e seus instintos mais básicos e saudáveis, mas igualmente alguém que se diferenciou da multidão, tarefa ingrata e difícil. Como ele mesmo afiançou, cada uma de nossas ideias e opiniões é determinada historicamente em seus mínimos detalhes, somos em larga medida aquilo que nossa família é e nem suspeita ser, aquilo que nossos amigos são e nem sequer sabem que são, aquilo que nossa escola é e que em nós penetra insidiosamente por meio de nossas inferioridades psíquicas. Somos aquilo que medra no coração das pessoas de nossa sociedade, mas que eles silenciosamente desconhecem, mas que ainda assim age com suprema força sobre suas vidas e seus destinos. Somente entre indivíduos, que em primeiro lugar conhecem a trave em seus próprios olhos, é que essa mortalha pode ser levantada, ao menos um pouco. Nossa equação pessoal, nossa constelação subjetiva de complexos é algo inalienável e inescapável, não há objetividade possível, pois tudo o que percebemos é filtrado pelo que somos, quer saibamos ou não. Como Jung salientou em seu Tipos, só podemos ver o cisco no olho de nosso próximo devido a trave no nosso, mas se não conhecemos a trave em nosso olho fatalmente pensaremos que todos os ciscos são traves. Dito de outra forma, só podemos compreender e perceber nos outros aquilo que existe em nosso psiquismo, assim, a possibilidade de algum grau de objetividade só vem por meio do autoconhecimento. O que Jung compreende por autoconhecimento não é o conhecimento do eu e de seus conteúdos, mas do inconsciente, é justamente aí que somos idênticos a todos os demais e que urge reconhecer e se diferenciar, sem conhecer sua própria equação pessoal não é possível distinguir entre si mesmos e todos os demais.
Aqui entram diversas sutilezas a se considerar, se quisermos compreender a mensagem do quadro de Magritte no que concerne aos descaminhos eróticos. Nossa vida em sociedade nos impele a fazermos uma série de compromissos com a sociedade e suas exigências, algo que fazemos ao custo de nós mesmos, sendo uma identidade total com as expectativas sociais impossível, surge uma estrutura coletiva de um compromisso que assumimos com a sociedade que Jung denominou de persona, uma máscara, que existem em nítido contraste com a atitude inconsciente de nossa alma e é compensada por ela. Em muitos casos a máscara e o rosto se confundem, e passamos a crer que possuímos de forma pessoal a dignidade que nos vem de fora pela participação, mais ou menos voluntária na sociedade, isso leva a uma revolta por parte da alma inconsciente que tende a se personificar e a se projetar. Noutros casos, nos identificamos com a natureza luminosa e clara, porém unilateral de nossa atitude consciente, bem como da função psíquica que a caracteriza, desprezando tudo aquilo que não condiz e é excluído pela ação selecionadora da atitude. Tudo aquilo que é real produz uma sombra, somente coisas bidimensionais e irreais não projetam uma sombra, e a qualidade dessa sombra vai depender da qualidade daquilo que a produz.
A maioria de nós vai viver acreditando possuir qualidades ilusórias e que determinadas coisas negativas não acontecem e nem podem acontecer conosco ou nosso meio mais imediato, somos movidos por renhidos preconceitos afetivos e quimeras de toda sorte. Assim, ao não reconhecermos aquilo que julgamos não ser, mas secretamente o somos, encontramos sempre e de novo isso no outro, em nosso semelhante por meio da projeção. Não raro em mitos de contos de fadas a projeção, positiva ou negativa, é compreendida e simbolizada como um tecido ou rede jogado sobre alguém. Como no conto de fadas em que a princesa precisava trançar um tecido de flores para cobrir seus irmãos transformados em cisnes e assim os libertar. Nem toda projeção é ruim, a projeção passiva representa o princípio do Eros, que secretamente une e enlaça, sem ela não haveria interesse por nenhum objeto. Só podemos compreender algo ao projetarmos sobre ele, mesma a empatia e a compreensão seria impossível sem isso. Todavia, tudo o que é genuinamente anímico é ambivalente, e há um lado terrivelmente negativo da projeção. No caso da sombra, como afiança Jung, se não a conhecemos o mundo passa a ser um construto subjetivo, porém desconhecido, não somos capazes de lidar com o mundo e as pessoas, mas apenas a nossa própria inferioridade projetada. Von Franz, ao se referir a função inferior, aquela que vive aparentemente, apenas aparentemente, adormecida nas trevas da inconsciência, nos lembra que muitas vezes a escolha amorosa se pauta por isso, procuramos aquilo que nos falta e nos compensa, mas ao preço de permanecermos inconscientes, ao preço de termos para sempre nossas cabeças cobertas por um espesso véu. Não ter uma boa relação com a função inferior causa igualmente um problema erótico e um social, pois sem isso enxergaremos projetivamente essa inferioridade, onde somos lentos, infantis, negativos e arcaicos nas camadas inferiores da pirâmide social, secretamente odiando neles aquilo que medra em nossos próprios corações. Ali onde há essa inferioridade nos tornamos inseguros e, por isso, melindrosos e tirânicos, propensos a explosões emocionais que caracterizam tantos relacionamentos amorosos.
No que concerne especificamente ao enlace amoroso, os dois grandes demônios em nós que são o fator criador de projeções são a anima e o animus. A anima é uma fantasia de relacionamento erótico, uma espécie de sistemas de expectativas do homem em relação à mulher. O Animus é o logos inconsciente feminino, o espírito masculino que compensa no inconsciente a feminilidade consciente, e produz opiniões irrefletidas assim como a anima produz nos homens humores e melindres. Ambos podem causar, quando extrovertidos, ou seja, projetados, o que Jung chamou de ofuscamento animoso, uma escalada de emoções irracionais e cada vez mais intensas que impedem uma real comunicação e relacionamento. O lugar desses espíritos é o de psicopompo, não entre a consciência e as pessoas amadas, mas regulando a relação daquela com o inconsciente. A anima é a proverbial Maia, que recobre tudo com mil véus de ilusão, mas é igualmente o arquétipo da vida. O animus aprisiona a mulher com certezas e pensamentos vingativos e rancorosos, a confinando num casulo de opiniões e cortando as relações mais vitais que ela possuir, mas em seu aspecto positivo é o espírito da verdade interior. Esses elementos estruturais numinosos da psique, desde tempos imemoriais lançam seus teias sobre o mundo, cobrindo nossos rostos e nos impedindo de ter contato intimo real, nos cegando para o outro e nos impedindo de realmente amar. O véu, que recobre o rosto de nossos amantes foi colocado aí por algo em nós que nos ultrapassa, mas que podemos ao menos nos relacionar e que por eras sem fim foram compreendidos, com justiça, como deuses e demônios.
O véu não passa de um encanto, que nos enleva, mas nos prende em algo autoerótico e narcísico, e nos priva daquilo que nos é tão importante para sermos capazes de perceber nossos próprios sentimentos: o outro. Para Jung o amor é uma atividade, ele só acontece quando somos senhores de nossos sentimentos, ou seja, quando temos consciência deles, ao termos consciência de nossas sombra, de nossa inferioridade, somos devolvidos ao seio da humanidade, não permanecemos inflados com pretensões impossíveis e quiméricas sobre nós mesmos, somos tornados humildes. Somente quando conscientizamos nossos sentimentos podemos avaliar o que nos acontece, podemos saber o quanto os eventos de nossa vida são importantes subjetivamente para nós, e isso além de dar colorido ao mundo, nos torna humanos. Como podemos nos tornar conscientes de nossos sentimentos? Apenas na tentativa de remover de nós mesmos esse tecido que recobre o rosto dos amantes de Magritte, esse esforço, repleto de erros, de tropeços e sofrimento profundo é o que nos torna quem somos, é o que lentamente nos devolve a nossa humanidade. Não se enganem, haverão tropeços, e haverão lamentáveis mal entendidos, e, nesse caso, a única coisa a fazer é assumir a responsabilidade por esses tropeços, o que significa assumir plena responsabilidade pela nossa sombra e as nossas inferioridades, e assim carregar o peso do compromisso moral com nossos sentimentos e com o outro.
O quadro de Magritte traz dois amantes inconscientes, que amam apenas a si mesmos no outro, amam o capuz que colocaram em seu objeto de amor, ali revelado de maneira plástica, como é do feitio dos surrealistas está o inconsciente a nos encarar, ali vemos o abismo no qual estamos em queda livre, mas nem o percebemos. Os amantes serão amantes apenas quando chegar o momento de remover o véu e ver, pela primeira vez o rosto resplandecente do ser amado.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Sobre Eros


Os seres humanos são extremamente diversificados, nossas condições e acidentes de nosso nascimento, bem como nossa genética e constituição psíquica tendem a apresentar uma estonteante diversidade, em tudo e por tudo somos diferentes, apesar de restar nessa diferença uma semelhança fundamental que nos permite enxergar algo de nós mesmos nos outros, e de tentarmos o esforço, muitas vezes vão, de compreender outros seres humanos, apesar de sabermos que, em última instancia, aquele outro ser permanecerá um mistério. Tanto é maior esse mistério quanto menos for nossa compreensão de quem realmente somos, num nível profundo. Quanto mais inconscientes nós formos de nossa própria equação pessoal, menor será nosso poder de enxergar a diferença, e, de maneira imperceptível, tenderemos a supor sempre uma semelhança insidiosa, abolindo à diferença em nome das trevas de inconsciência em que nos achamos mergulhados, e supondo sempre encontrar no outro a nós mesmos.
Assim como somos diferentes, nossas emoções tendem a ser diferentes e individuais, dentre essas poderosas forças que nos movem desde tempos imemoriais, nenhuma parece ser tão terrível, poderosa, misteriosa e diversa quanto o amor. Sócrates acreditava que em toda a Grécia apenas a sábia Diotima realmente compreendia o amor, ela não era um filósofa, mas poetisa. Diotima acreditava que Eros, o amor, era um grande daimon, um espírito poderoso ou deus que serve de mensageiro entre deuses e mortais, e refuta a ideia de Sócrates de que se o amor deseja o bom e o belo ele não deve possuir nenhuma dessas qualidades, mas como poderia um deus não possuir as qualidades da beleza e da bondade?
Para Diotima o amor nasce da união entre a abundância e a pobreza, como filho dessas duas entidades o amor possui suas qualidades. Ele é sempre pobre, severo, e difícil, descalço e sem morada certa. Mas ao mesmo tempo ele é bom e belo e responsável por aquilo que é bom e belo, que encontra no ser amado. Assim, para a poetisa de Lesbos, o amor se movimenta sempre entre os polos opostos representados por seus pais e caminha entre satisfação e desejo, sem jamais se deter em um deles apenas, pois essa é a sua herança. Para Diotima, o amor, Eros, é um filósofo que deseja a sabedoria, algo que soa estranho a filósofos acostumados a lógica fria e implacável do pensar, mas como ensinou Jung, apenas ao sofrermos o fogo dos afetos que nos queima até que resta apenas aquilo que não pode ser queimado, nenhuma mudança genuína pode surgir, apenas o amor nos permite a busca pela sabedoria. O amor, ela acrescenta busca a beleza, e a união da beleza do corpo e da alma.
Sócrates o mais sábio dentre os gregos não compreendia o amor, que esperança podemos ter? Em outro mito, Eros, esse grande demônio, é filho de Afrodite a deusa do amor e da beleza e Áries o deus da guerra. Assim como na fábula de Diotima, ele carrega as qualidades de seus pais a beleza e a discórdia, pois ao tratar-se da ligação entre pessoas diferentes, mesmo o mais belo dos amores não está isento da guerra, e se assim não fosse, não permitiria a busca pela sabedoria, como nos ensinou o velho Heráclito a guerra é o “pai” de tudo. Uma harmonia tépida não nos leva além de nos mesmos, não nos transforma, só a guerra transforma, mas ela sozinha não passa de violência e estupidez, apenas o amor consegue unir esses pares tão díspares e fazer de nós filósofos.
Entre aqueles que seguem a religião de Vishnu, uma religião do amor, há a crença na existência de 5 tipos diferentes de amor. Na verdade 5 diferentes estágios ou graus do amor, e por esses graus pode-se atingir a iluminação. O primeiro é o amor do servo pelo seu senhor, o caminho da obediência, o grau mais baixo, o caminho da religião da lei e seus mandamentos, como ensina Campbell, aqui não se despertou ainda para a presença divina.
O segundo grau é o do relacionamento entre amigos, aqui já existe o que no ocidente chamaríamos de amor, onde se abandona a lei e se pensa mais no amigo, e há a experiência do amor como ato espontâneo e não como obediência a uma ordem. Montaigne ao refletir sobre a perda de seu querido amigo Etiene de la Boétie nos legou uma das mais tocantes reflexões sobre a amizade,
Na verdadeira amizade, em que sou experimentado, dou-me mais ao meu amigo que o puxo para mim. Não só prefiro fazer-lhe bem a que ele mo faça, mas ainda que ele o faça a si próprio a que mo faça; faz-me ele, então, o maior bem possível quando a si o faz. E se a sua ausência lhe for quer prazenteira quer útil, torna-se-me ela bem mais agradável que a sua presença; e de resto não é propriamente ausência se há meios de comunicarmos um com o outro. Tirei outrora partido e proveito do nosso afastamento. Em nos separando, melhor e mais amplamente entrávamos em posse da vida: ele vivia, fruía e via para mim, e eu para ele, mais plenamente que se ele estivesse presente. Uma parte de cada um de nós permanecia desocupada quando estávamos juntos: fundíamo-nos num só. A separação espacial tornava mais rica a união das nossas vontades. A insaciável fome da presença física denuncia uma certa fraqueza na fruição mútua das almas.
Ao explicar as razões de amar seu amigo Etiene, ele nos presenteia com a bela resposta possível: “Porque era ele, porque era eu”.
O terceiro estágio é do pai ou mãe para com seus filhos, mais intimo e poderoso do que o amor entre amigos. Em japonês a palavras gostar (usada normalmente como amar) é formada por dois outros caracteres: o caractere para mulher o de criança.No cristianismo vemos o nascimento do bebê Jesus e suas representações no colo de Maria, a chegada dessa criança divina simboliza o despertar em nós a consciência de que o poder divino reside em nós, aqui há o despertar da verdadeira vida religiosa.
O quarto estágio do amor na religião de Vishnu é o que existe entre os casais, aqui cria-se o andrógino, a identificação com o outro. Depois de descobrir deus em seu coração, e nunca antes, você pode agora descobrir deus no coração de outra pessoa. Aqui há a reunião dos poderes divinos primordiais, anteriores a consciência do eu, quando macho e fêmea não estavam separado, quando logos e Eros viviam em um abraço amoroso, indiferenciados, onde toda a potência de vida pulsava ainda intocada e o mundo estava repleto de vida e vida em abundância. Com essa reunião, podemos experimentar conscientemente, esse estado místico, a união alquímica, que, por isso mesmo é entendida como eterna.
A mais elevada ordem do amor é aquele da paixão compulsiva e incontrolável, nada existe senão o amor, neste estágio tudo se esvai e só nos resta o amor. Como nos ensinou Campbell, estamos aqui diante do amor cortês, do coração gentil, onde o homem fica alucinado, capaz de feitos incríveis, mas percorre uma trilha estreita, pois ao seguir a sua paixão você está sozinho e não conta mais com o apoio da sociedade. Trata-se de algo divino, sem relação com as agruras da vida, mas é preciso sempre retornar a vida e redescobrir o valor que nela existe. Essa experiência maravilhosa em algum momento precisa ser interrompida e deve-se descobrir qual o tipo de relacionamento possível.
O casamento é antes de tudo um ordálio, pois o entrelaçamento de duas psiques deve levar em conta sempre o que surge dessa relação como algo mais importante do que as minhas tendências egoístas. Se você serve ao outro ainda está no primeiro estágio, mas se segue a transformação que esse contato entre duas almas gesta, mesmo que algumas vezes seja doloroso, então tem-se o casamento alquímico, uma experiência religiosa, um sacramento, onde algo de belo e terrível acontece a ambos, juntos. Uma experiência de transformação, que como nos mistérios dos Eleusis, queima-se no fogo tudo o que há de mortal e supérfluo. Algo que vai além do mero casamento biológico, ou seja, uma instituição sancionada pela sociedade para se ter filhos. No casamento que se afigura como um sacramento, não há um programa a ser seguido, ele é sempre algo de original, uma obra de arte que nasce da conjunção de dois corpos e duas almas, como nas lendas do Graal, onde os cavaleiros em busca de aventura adentram na floresta escura lá onde não há trilha. Sempre que você segue uma trilha trata-se do caminho de outra pessoa. Temos aqui a ideia medieval do coração gentil, de que antes da consumação carnal é preciso haver a comunhão espiritual.
Em Jung encontramos uma psicologia do amor ao pensarmos na problemática da Anima do homem e do Animus na mulher. A masculinidade consciente do homem é compensada pelo feminino em seu inconsciente e na mulher acontece o inverso. A masculinidade é regida pelo princípio do logos, que é discriminador e analítico e a tudo separa e divide, e, em termos psicológicos, masculinidade é saber o que se quer e como alcançar isso. O problema amoroso do homem, representado pela anima, uma imagem coletiva do feminino e da mulher que permite a ele se relacionar com as mulheres, é o de saber o que ele realmente sente. Nas mulheres, cuja consciência é regida pelo grande daimon Eros, que a tudo une e conecta, o problema que o seu espírito, o animus lhe propõe é: o que você realmente pensa? Qual é a sua cosmovisão? A anima, quando personificada envia ao homem humores terríveis, e o animus, quando personificado produz opiniões insensatas e bombásticas de tipo salvacionista que isolam a mulher dos objetos realmente amados num “casulo de opiniões”. Quando as projeções criadas por esses dois demônios são recolhidas, e eles não mais se interpõem entre os homens e mulheres e sua relação com o mundo, passam a agir como daimons, mensageiros divinos, pois a real função da anima é ser uma função de relação entre a consciência e o inconsciente e a do animus ser uma função de diferenciação entre a consciência e o inconsciente. Nada disso pode ser alcançado sem o fascínio e os problemas causados pelos dois daimons, que nos lançam a vida, a anima é o arquétipo da vida e faz o homem sentir a plenitude de sua vida como uma aventura, e nos enredam nas relações que nos libertarão desse mesmo fascínio e nos abrirão ao verdadeiro amor.
Para Jung, e isso foi algo que demorei quase duas décadas para entender, O amor é diferente do fascínio, ele é uma atividade, é algo consciente, depende de termos consciência de nossos verdadeiros sentimentos. O fascínio é algo que acontece devido ao inconsciente, e só terar um valor se eu puder extrair conscientemente disso o ouro alquímico, ou seja, descobrir por trás desse fascínio o pedaço da minha alma que se afastou de mim e foi passear pelo mundo, como a sombra de Peter Pan, não é à toa que quem costura ela de volta no lugar é Wendy. Se eu não consigo ampliar a minha consciência o fascínio não passa de um logro moral, já amor é algo que depende da consciência, de termos a posse de nossos sentimentos, e como vocês sabem, nada perturba mais o pensamento do que os sentimentos, e nada perturba mais os sentimentos do que o pensar. Todavia o amor, consciente e não mero fascínio, deve suportar esses opostos sem contradição e agir com o intelecto e a compaixão, para cavalgar as ondas de um relacionamento amoroso genuíno. Sendo uma atividade, algo consciente, o amor pode ser cultivado, crescer e se modificar, florescer.
Todas essas belas descrições de homens tão sábios falham sempre me capturar a essência do amor, nenhuma descrição intelectual e meramente racional poderia, pois o amor é razão e desrazão em igual medida. No fundo, a compaixão é um guia, especialmente quando entendemos que aquilo que é um valor para nós, pode ser um desvalor para o outro, que somos diversos, e que amar, amar genuinamente, pode se manifestar de diversas formas criativas e jamais pode ser confinado as experiências passadas que tivemos, as ideias que formamos sobre ele, aquilo que nos diz a sociedade, a igreja e a família sobre o amor. O amor é um menino de asas, brincalhão, irrequieto e que não tem a menor consideração pelo que os mortais acham justo ou correto, suas setas envenenadas uma vez lançadas são irrevogáveis.

domingo, 29 de abril de 2018

Um dos meus fracassos como professor


Eu comecei a dar aulas em 2004, e por um período de 6 longos anos, lecionei numa escola particular, algo que, espero, jamais volte a fazer. Por essa época eu era jovem e tolo (muita coisa mudou, hoje eu sou velho e tolo) e depois de algum tempo nessa escola, outro professor teve que abandonar no meio do ano letivo uma turma de quinta série (hoje seria de sexto ano). Há época eu lecionava história do Brasil e história do Ceará, mas tinha um grande desejo de ensinar história antiga. Acontece que me convidaram para substituir esse professor e nessa turma eu poderia, finalmente, falar sobre Grécia, Roma e todas as coisas legais que eu sempre gostei de estudar, então eu aceitei de imediato. Esse talvez tenha sido o meu maior fiasco como professor, e eu fiz com essa turma as mesmas coisas que faço normalmente e me dão a reputação de ser um excelente professor, mas como todo fracasso, ele me ensinou muito mais do que os meus sucessos. Jung gostava de dizer a seus alunos que tinham feito algo digno de nota “então você sofreu um sucesso?”, não se tratava de ironia, pois ele acreditava que ao sermos bem sucedidos apenas temos confirmação para continuar fazendo o que sempre fizemos, enquanto o fracasso coloca em xeque nossas certezas e nos obriga a rever coisas até então tidas como certas. Mas o que eu aprendi com essa experiência de fracassar ao lecionar para um bando de garotos?

Em primeiro lugar, como eu disse antes, era jovem e tolo, pois bem, a coordenadora me entregou o livro didático e me disse que teria de fazer uma prova e indicou o capítulo: Grécia. Eu tinha falado antes com o professor, um exemplar bem típico de sua curiosa espécie, com todos os cacoetes que se espera de alguém forçado a lecionar para crianças em um ambiente tão adverso quanto uma escola particular de elite. Ele me disse que já havia ministrado a prova sobre essa matéria, mas como a coordenadora – que por sinal não tinha dado nenhuma aula a essa turma, ou aplicado nenhuma prova, corrigido uma prova sequer e, creio eu, sequer saberia dizer o nome de um só dos tais alunos – me disse que eu elaborasse a tal prova sobre Grécia eu obedeci. Eu fiz a prova enviei por email no prazo correto, pois bem, dias depois ela me chamou até a sua sala, munida de um outro funcionário, para me dizer que eu não enviara a prova no prazo. Confuso, eu disse que havia enviado assim como me fora pedido, ao que ela retrucou “mas você elaborou uma prova sobre a Grécia, essa não era a matéria dessa avaliação”. Eu assisti então, chocado, a ela me dizer que devido a isso eu deveria assinar um documento que iria me “multar”, aqui cabe uma explicação, por essa época minha hora aula eram ridículos 5 reais, mas eles me davam um abono que era um tipo de fraude contábil que fazia eu receber 10, mas podia ser revogado se eu não obedecesse os prazos. Silenciosamente eu assinei e vi o meu salário de fome cair pela metade, e a cara da tal coordenadora impassível, e o olhar cínico dela. Essa experiência me deixou com um saudável respeito pela desobediência e impertinência, que carrego comigo até hoje.

Depois desse começo promissor, mais experiências ruins começaram a se acumular. Bem, eu estava empolgado em finalmente lecionar o que eu realmente queria, empolgado em demasia eu diria. Vinha acumulando leituras sobre isso, e tinha um interesse especial pelo período turbulento e fascinante do fim da república romana. Minha primeira aula não se baseou em quase nada que estava no livro didático, e eu levei informações sobre a língua, cultura, estratégias militares, e coisas que achei que capturariam a imaginação dessas crianças, mas toda a resposta que obtive deles foi “onde isso está no livro?” ou “isso vai cair na prova?”. Aqui vale uma outra explicação, as questões das provas deviam indicar exatamente de que página e parágrafo do livro didático estavam sendo tiradas, para que as mães não reclamassem e os alunos soubessem responder exatamente de acordo com o livro e tirassem boas notas. Notem que, o objetivo era a prova e as notas, aprender alguma coisa não era nem de longe um objetivo a ser alcançado.

A coordenação nunca precisou me repreender, ou me forçar a seguir o roteiro pré-estabelecido para que de parte a parte não existissem problemas, os próprios alunos se encarregaram de fazer isso. Com exceção de uma garota e um rapazinho, todos os demais estranhavam a minha aula e detestavam o fato de não poderem localizar no livro em tempo real aquilo que eu estava lhes falando. Eu não encarei bem essa situação, havia passado a minha infância inteira lendo sobre civilizações antigas, mitologia, arqueologia e eu seria exatamente o tipo de professor que eu teria adorado ter. Meus alunos não estavam exatamente adorando, havia um pacto que garantia uma ordem e conformidade, não havia surpresas e tudo seguia sempre o mesmo roteiro enfadonho, e era isso que meus alunos desejavam. A maioria deles havia estudado nessa escola desde bem pequenos e sempre fora assim, previsível e esquemático.

Nada do que eu fazia parecia surtir o menor efeito, bom fazia um efeito, mas era exatamente o contrário do que eu esperava. Depois de algum tempo, eu só me resignei e passei a pateticamente ler o livro em sala, e meus alunos ficaram mais satisfeitos, e eu mais miserável. Ao final do ano, eu deixei aliviado essa turma e jamais fui convidado novamente a lecionar para as séries iniciais. Eu aprendi da maneira mais amarga que nesse tipo de educação aprender não era um objetivo a ser almejado, tirar boas notas e manter os alunos satisfeitos sim.

Nem imagino que fim levaram meus alunos, já devem ser adultos, espero que estejam bem, mas imagino que devam ter tido dificuldades para lidar com o mundo real que nem sempre se conforma as nossas expectativas, porém, mais frequentemente eu penso que devem ter sido bem sucedidos, de uma maneira mais simples e fácil do que eu jamais poderia sonhar, pois certamente eles sempre estavam ansiosos para corresponder às expectativas e não ser mais do que o que os niveladores sociais ditavam que fossem. Eu poderia ter arruinado suas boas chances de serem apenas o que se esperava deles. Barbara Hannah escreveu que se uma ovelha caminha a frente do rebanho ela é vista pelas demais como lobo. Desde essa experiência eu venho mais e mais percebendo que sou um lobo, e prefiro ser, mas um que aprendeu vez ou outra não mostrar os dentes e nem rosnar desnecessariamente, mas tudo o que tenho a ensinar aos meus alunos é o que eu sou, e sempre espero deles, ao menos dos melhores entre eles, desobediência e impertinência. É preferível fracassar como lobo a ser uma ovelha bem sucedida.

O Tempo


O tempo é um dos conceitos mais importantes em História, temos muitas maneiras de encará-lo, Braudel falava no tempo rápido dos acontecimentos e na longa duração – um tempo quase geológico. Fala-se de múltiplas temporalidades, Michel de Certeau ao comparar História e Psicanálise mostrava que o tempo da Psicanálise se presentifica a todo instante, é um passado, mas igualmente um agora, Kant explicava o tempo, e ele provavelmente estava correto, como um dado que pertence ao sujeito e não objetivo, uma intuição a priori. Os marxistas falam de um tempo do relógio e da fábrica a regular e marcar a vida da sociedade industrial. Einstein brilhantemente demonstrou que o tempo, esse que consideramos objetivo e unificado, é influenciado pela gravidade e pela velocidade. Em termos míticos, o tempo é Cronos de curvo pensar, que devora os próprios filhos, é o crocodilo com um relógio no estômago que tenta incessantemente devorar o capitão Gancho, é a imagem que Krishna revela a Arjuna antes da batalha crucial contra seus parentes, dele mesmo a devorara a todos os mortais, eles já estão mortos Arjuna, apenas cumpra o seu darma. Para o budismo, o futuro não existe e o passado é uma ilusão.

O tempo, ao menos para mim, é um perpétuo enigma, desde que me recordo, tenho uma enorme dificuldade em registrar o passar do tempo, mesmo em intervalos curtos. O meu próprio passado sempre parece estar envolto em uma bruma cinzenta que o esconde de mim, o torna impreciso e vago em termos de tempo, para piorar, minha personalidade epimeteica tem uma infalível tendência a não fazer cálculos e planos, tendo assim uma inclinação natural para viver o momento e não pensar no futuro. Como não tenho inclinações para arrependimentos e amargura, minha falta de interesse no futuro não me causa dissabores, apesar de me causar transtornos.

Curiosamente sou historiador, alguém que tem por dever de ofício ser profundamente interessado no tempo, mas o que realmente me atrai é o que existe de eterno, as invariantes da alma em suas múltiplas manifestações: os mitos. Talvez pela minha intrínseca dificuldade em dar conta daquilo que é transitório, o meu espírito se volta alegremente para o eterno, as grandes e imorredouras narrativas que expressam as verdades eternas e inefáveis daquilo que é a nossa realidade mais profunda, aquilo que nos conecta a todos os demais e nos recorda sempre e de novo da maravilha e do horror de estar vivo.

Nos últimos tempos, premido pela necessidade, mas muito a contragosto, tenho tido de dar conta dos acontecimentos efêmeros, mas que formam a tecitura sutil da nossa vida, desde dar conta de varrer a casa, até lidar com problemas comerciais enfadonhos, a lançar notas na data correta (minha profunda admiração pelas pessoas que se desincumbem dessa tarefa sem embaraços), atualizar meu currículo, bater ponto... Se eu pudesse, viveria apenas nas alturas do espírito eterno e imóvel, a contemplar a beleza daquilo que nossa raça de macacos pelados beligerantes e sensuais produziu de mais elevado: nossa filosofia, arte, mitologia. Porém, como ensinou Confúcio, o homem que se afasta demais da natureza e se apropria apenas da cultura não se torna um sábio, mas um pedante. No frigir dos ovos, pode parecer ao observador incauto que sou um homem profundamente espiritualizado, interessado nas intrincadas ideias do budismo mahayana sobre a natureza da realidade, praticante de yoga e Zen budismo, estudioso de culturas exóticas e da alma humana, mas ledo engano! Não, não o sou, nossos estereótipos e niveladores sociais nos impedem de ver aquilo que está diante de nossos narizes, isso tudo que resplandece como espiritual e belo é justamente o que alheia de mim e do meu caminho espiritual, são descaminhos e não caminhos. Faz muito tempo, perdoem-me não sei quanto, tive um sonho em que eu era ordenado a lavar louças – coisa que detesto – há época eu já estudava Jung (lá se vão 18 anos de estudos... Comecei em 2000, ano que entrei na faculdade de história, disso eu lembro), e sabia da importância vital daquela mensagem, mas falhei em segui-la, com consequências nefastas... Desde essa época, porém, sei que meu caminho espiritual é algo tão banal e humilde quanto varrer a minha casa, pagar minhas contas em dia, cozinhar, lançar notas e fazer provas, todas essas banalidades que pessoas normais fazem num piscar de olhos e que para mim são tão difíceis e penosas. Aí se encontra a minha alma e o meu caminho, em meio ao pó e as coisas sem graça da vida, não na torre de marfim dos filósofos e todas essas miudezas são regidas pelo tempo implacável, de curvo pensar, e me consomem um tempo enorme apenas para engendrar em meu espírito a gana necessária para agir.

Certamente essa não é a melhor propaganda profissional que posso fazer de mim, mas infelizmente do escritor é exigida essa sinceridade, não há nada pior do que um escritor dissimulado, que usa as palavras para dissimular ao invés de desvelar. Hoje, nesse instante, medito sobre o tempo, pois gostaria que ele retrocedesse, ou passasse mais rápido, quisera a gravidade fosse maior, ou, ao menos, a minha fortaleza interior fosse o bastante para suportar as agruras que o implacável crocodilo traz a alguém tão miseravelmente despreparado como eu para lidar com coisas bobas, mas de importância vital... Quase duas décadas estudando as pessoas e como elas funcionam e ainda sou incapaz de agir algumas vezes, paralisado por não mais querer intelectualizar a minha ação e não ter qualquer outra ferramenta adequada para guiar o meu agir, neste tempo, me resta o desamparo e perceber que por pior que seja, é dele que eu preciso.

domingo, 21 de maio de 2017

Che Guevara e o debate público no Brasil - Palestra proferida no seminário Caminhos Junguianos




Jung em seu Tipos Psicológicos asseverou que assim como existia uma teoria sexual das neuroses se poderia elaborar uma teoria política da neurose – pois seu tempo era abalado por graves crises políticas. No mesmo livro, ele insinua que da mesma maneira que propôs tipos gerais de atitude e tipos funcionais, existiam igualmente tipos sociais – lembrando que um tipo é um modelo geral de atitude, o conceito de atitude (Einstellung) é uma disposição da psique de agir ou reagir em certa direção. Ter atitude é o mesmo que direção apriorística para algo determinado, quer ele seja representado ou não, e consiste sempre na presença de uma determinada constelação subjetiva que determina o agir nesta ou naquela direção prefixada. Atitude significa uma expectativa – e a expectativa sempre atua selecionando ou direcionando.

Voltando aos tipos sociais, podemos encontrar algo similar quando, por exemplo, falamos em liberais, neo-liberais e comunistas ou coxinhas e petralhas. Por detrás desses tipos sociais, é possível perceber os mesmo tipos gerais de atitude Introversão/extroversão, mas voltarei a isso posteriormente. Por certo vivemos em “tempos interessantes”, como na velha maldição chinesa, e por mais que seja uma era de angústias e incertezas há muito a ser feito e pensado. O que me faz recordar das palavras de outro comunista (como eu) Zizek que diante de tempos tão peculiares contesta a ideia de Marx em A Miséria da Filosofia de que precisamos agir e não pensar. Para Zizek estamos tão perdidos e desnorteados, que precisamos, agora mais do que nunca, pensar. E o que vou propor aqui, é uma reflexão psicológica sobre um evento micro, mas que eu considero exemplar para compreender essas atitudes opostas que se entrechocam e que nos ajudará – assim espero – a compreender um pouco melhor o espírito de nosso tempo.

Antes de começar propriamente, desculpem-me o excesso de prolegômenos, devo fazer algumas considerações que nos pouparão tempo e evitarão debates ociosos. Se eu fosse filósofo, com certeza seria um pragmático nos moldes de James – perdoem a minha pretensão – e é invocando o espírito da obra de James que teço esses comentários iniciais. A primeira coisa se ter em mente, é a advertência feita por Jung de que a psicologia “não trata das coisas como elas realmente são, mas apenas da maneira como são imaginadas”. Digo isso, pois espero que lembrem de que sou historiador e essa admoestação cala fundo em meu coração de historiador, pois a história é imaginação sobre aquilo que foi imaginado. Se alguém acreditar que ao tecer considerações históricas sobre Che estaríamos falando do homem real Che, eu teria que lhe repreender por sua ingenuidade. Da mesma maneira, ao tratarmos psicologicamente de Guevara, tratamos da maneira como ele é imaginado. Estando isso claro, restam duas coisas a serem ditas a guisa de exortação: o único critério de validez de uma hipótese em psicologia analítica é o seu valor heurístico, logo, se ao final da minha fala nossa compreensão não se ampliar, eu só terei usado a Psicologia de Jung como racionalismo aplicado, o que é algo que pode ser interessante, mas ocioso. Outra coisa, diante de nossa polarização, é importante a advertência de Marc Bloc, de que o historiador não é um juiz dos mortos passando vãos julgamentos, e que no afã de julgar perdemos a oportunidade de compreender – alguém deveria ter dito o mesmo aos psicólogos. Obrigado pela paciência, e agora passemos ao caso.

Os dois personagens desse bizarro debate público que me chamou a atenção nas redes sociais são Kim Katagiri e Jean Willys. O deputado do Psol tinha publicado em suas redes sociais uma foto, vestido como Che Guevara – de um ensaio na revista Rolling Stones. Katagiri aproveitou para alfinetar Willys e toda a esquerda ao apontar uma contradição. O deputado é o único gay assumido em todo o congresso nacional e a defesa dos direitos dos LGBT é uma de suas principais bandeiras. O ataque do “menino prodígio” da direita liberal foi acusar Che de homofóbico. Isso foi o estopim do debate entre os dois. O deputado não é ingênuo quanto às contradições da imagem de Che e afirmou depois em entrevista:

“Escolhi o Che pela intenção do jornalista de abordar meu mandato como uma cruzada, uma revolução, e também por ser um ícone pop que foi monopolizado por uma mentalidade machista. A própria revolução cubana sacrificou os homossexuais, mandou os homossexuais para o paredão, considerava-os antirrevolucionários - a revolução promoveu isso. Da mesma maneira que o Luiz Mott chamou a atenção para a sexualidade de Zumbi dos Palmares provocando a ira do movimento negro, eu quis provocar a esquerda brasileira posando de Che Guevara. Sem falar que o Che é uma figura pop mundial, fácil de identificar. O Harvey Milk, não. Ele é uma figura muito nossa, da comunidade LGBT.

Pareceu-me tão óbvio que ali o objetivo era o de provocar as “esquerdas” brasileiras no momento que a gente está para instalar a comissão da verdade e recuperar aquele passado da ditadura militar. O Che teve um papel fundamental no fortalecimento das esquerdas na clandestinidade. Por que não recuperar também a atuação dos gays naquele período, que está uma coisa silenciada? Como os aparelhos de resistência se comportaram em relação aos homossexuais? Será que eles herdaram a postura da revolução cubana de achar que homossexuais eram antirrevolucionários, como aconteceu, por exemplo, na Argentina, onde os aparelhos de resistência não queriam filiar homossexuais porque achavam que eles cediam facilmente à tortura.”

Katagiri aproveitou a contradição histórica de Che para desqualificar Jean, e toda a esquerda demonizando Guevara. Quero lembrar aqui de uma passagem em que Campbell falava das mitologias vivas usou o exemplo de Lincon, presidente americano durante a guerra de secessão, pois ele era um ótimo piadista e muito bem humorado. Depois de sua morte, toda boa piada era imediatamente associada a ele, porque essa característica marcante de sua personalidade funcionava como uma espécie de imã para agregar a sua imagem coisas relacionadas ao humor e a ironia, ampliando em muito aquilo que ele foi em vida. Tratamos aqui da imagem de Che, em que, por certo, importa o homem que ele foi e sua vida, mas a essa vida são atraídos elementos fantásticos que ampliam aquilo que ele foi e reverberam socialmente. Che é um ícone, literalmente falando, seu rosto está estampado em camisetas pelo mundo a fora, ele representa os ideias da revolução, e, para utilizar a definição de Zizek de comunismo: a ideia universal de uma liberdade humana radical. Mas para o quê aponta a crítica de Kataguiri? Para seu exato oposto, Guevara era um opressor, que usou da força e da coerção para excluir, matar e humilhar pessoas como Jean Willys, as mesmas que ele defende. Gostaria de lembrar novamente aos senhores, que estamos falando de uma imagem anímica, e que, como ensina Jung, tudo genuinamente anímico é como o rosto do deus Janus que olha simultaneamente para a direita e a esquerda, ou seja, é ambivalente.

Kataguiri se julga, ele mesmo, um defensor da liberdade. Ele é um liberal, como um conhecido meu, certa feita, disse sobre si mesmo e seus pares liberais “são amigos da razão e da liberdade”. O curioso é que, a se levar a sério a posição dos dois lados dessa contenda, não temos uma luta do bem contra o mal, mas uma luta do “bem VS bem”. Claramente, Jean acredita em seus ideais e se vê como alguém em uma cruzada com uma causa justa. Talvez o mesmo possa ser dito de Kataguiri – para a finalidade de nosso estudo eu vou partir dessa hipótese, de que ele também realmente crê no que defende. Ao menos no discurso, ambos defendem a liberdade – mas liberdade aqui significa coisas bem diversas, não sejamos ingênuos.

Percebam que a cada um dos dois corresponde uma atitude diversa em relação a Che, lembrem-se de que a atitude consiste sempre na presença de uma determinada constelação subjetiva que determina o agir nesta ou naquela direção prefixada, que representa uma expectativa que age selecionando. Kataguiri, como um bom anarco-capitalista, considera tudo o que a esquerda significa como algo ruim, errado a priori e negativo, sua atitude o leva a selecionar da imagem de Che justamente seu lado de homofobia e preconceito. O oposto pode ser dito de Jean, que percebe com clareza os aspectos negativos de Che, apesar dele se fixar em determinados aspectos, positivos – pois Guevara lutou contra a opressão, ele não ignora ou reprime completamente o outro lado da imagem de seu herói. A atitude ao selecionar também exclui uma parte do fenômeno e a consciência consegue abarcar apenas uma fração dele, tudo o mais se torna inconsciente. Quem quiser perceber como isso funciona, basta procurar na internet algum vídeo intitulado “fulano destrói sicrano”. Em ambas as atitudes, ou ao menos em seu aspecto de discurso, há elementos que poderiam ser acrescentados tanto a Kim quanto a Jean, mas aparentemente não o são. Perceba que ambos são vozes públicas representativas de dois grandes grupos opostos, isso é crucial.

Há uma clara oposição entre os dois atores desse drama peculiar, tanto na maneira como encaram o mundo e a si mesmos, quanto na ótica particular, nas lentes com as quais enxergam um ao outro. Determinados fatos psicológicos não são simplesmente um problema individual, mas ao contrário representam um grave problema para todos. Vejam que esse debate foi público e Jean, que já é corriqueiramente difamado, foi atacado de todos os lados por seus opositores que se utilizaram do argumento de Kataguiri. O mais curioso disso tudo, ao menos a mim me parece, é que em nada ajudou a sanar a miopia de ambos os lados – por favor, tenham em mente que eu possuo um viés, sou de esquerda e sempre tenho a impressão de que Kataguiri é mais estúpido do que Jean.

Jean é o diabo de Kataguiri, seu inimigo de estimação. A direita raivosa vê nele alguém que não luta por igualdade, mas que advoga por privilégios para os gays, alguém que deseja ardentemente acabar com os valores tradicionais e, por mais ridículo que pareça, há pessoas que realmente acreditam – especialmente pessoas ligadas a cultos neo-pentecostais – que Jean Willys é a ponta de lança de um movimento que pretende instalar uma “ditadura gayzista”. Jean enxerga no Liberal Kataguiri – o ideário liberal defende o livre mercado, a diminuição do estado, e as liberdades individuais e o individualismo burguês, bem como a democracia burguesa – como um proto-fascista de discurso violento e autoritário que faz tabula rasa da homofobia e do racismo – que o jovem Kim entende como vitimismo – e que defende que o feminismo é algo inútil, violento, que oprime os homens, vítimas do cruel feminismo.

O debate que se engendra entre os dois e seus respectivos seguidores é quase sempre raivoso e afetado, o que em geral significa a manifestação de uma inferioridade psíquica, e esse dado para nós é muito significativo. Parece haver nesse debate a manifestação de algo relativamente autônomo e de natureza emocional. Essa característica, da erupção descontrolada dos afetos leva a uma incapacidade de julgamento moral. Em geral, a manifestação explosiva das emoções é o sinal quase inequívoco de se ter tocado um desses traços obscuros de caráter que constitui as inferioridades do indivíduo. Esses traços obscuros são sempre projetados. No início de seu Reflexos da Alma, von Franz afiança que a projeção é um problema social premente, e que os esclarecimentos de nossas projeções ajudaria em muito a sociedade como um todo. Lembrando que a projeção é um fenômeno inconsciente e automático, que todo inconsciente é projetado, e ao ser projetado, apenas encontramos aqueles conteúdo subjetivos no objeto da projeção e acreditamos piamente que essas qualidades pertencem realmente ao objeto.

A causa da emoção parece provir de fora e não do próprio indivíduo. Essa percepção obstinada, que muitas vezes é obvia projeção para um observador externo, constitui um obstáculo que, via de regra, supera em muito a capacidade moral e intelectual do sujeito em questão. Como se pode perceber com clareza, a projeção é um isolamento do sujeito em relação ao mundo exterior, ao invés de uma relação real o que existe é uma relação ilusória. A percepção desse aspecto projetivo mostra a irracionalidade desse debate, o que significa que ele é imune à razão, por estar sob a influência de fatores obscuros emocionais autônomos inconscientes. Jung afirmou que a razão não é um bem inalienável dos homens, basta aumentar a temperatura dos afetos para que ela desapareça. Representa uma tarefa moral, todavia, para os que conseguem manter a racionalidade, fazer um contraponto a esse estado de coisas.

Assim, podemos supor, como hipótese de trabalho, que as explosões de emoção que emergem desse estranho debate, bem como o conteúdo selecionado pelas atitudes claramente opostas, indica a manifestação projetiva de partes inferiores da personalidade de ambas as partes. Podemos supor que ocorre aí uma projeção de sombra, e como Jung escreveu em seu Aion, quando não nos confrontamos com a sombra em nós mesmos, a realidade se torna um construto subjetivo, porém desconhecido, tratando-se de um problema social de extrema importância.

Estamos diante, todavia, de um problema mais grave do que parece a princípio, pois nossos dois antagonistas são representantes de grupos opostos que ilustram essas atitudes sociais de cunho político a que Jung aludiu em seu Tipos. A imagem de Che Guevara no debate político funciona como as palavras do teste de associação pensadas para gerar respostas emocionais, e por isso, permite que o pano de fundo psíquico inexpresso neste debate se manifeste de maneira mais flagrante. A sombra é um problema simultaneamente e de maneira flagrantemente paradoxal individual e coletivo. É preciso um espectador para se perceber a própria sombra, vivendo sozinho é praticamente impossível notar a própria sombra. Civilizações e nações possuem sombras, pois existem atitudes coletivas como as que aludi antes, os liberais no veem, a nós de esquerda, como iludidos e ingênuos, que acreditam em quimeras anacrônicas que jamais funcionaram em parte alguma e defensores de uma rebeldia juvenil, entretanto não é assim que nos vemos.  Sobre esse fato, von Franz nos diz:

[..] a sombra coletiva é particularmente ruim porque cada um apoia o outro em sua cegueira – é somente nas guerras e nos ódios entre nações que se revela algum aspecto da sombra coletiva. (2002, p.15).

Além das qualidades negativas ou incompatíveis que o indivíduo reprime em si mesmo, ele também leva consigo qualidades negativas do grupo a que pertence e das quais não tem consciência. Há que nos lembrarmos igualmente da psicologia de massas, no fundo é justamente disso que trato aqui, pois em pequenos grupos ou sozinhos certas características nossas se reduzem ou mesmo desaparecem, crescem repentinamente, porém, quando nos encontramos em grupos maiores. Jung costumava dizer que cem cabeças brilhantes juntas formavam uma só cabeça de bagre. Como diferenciar a sombra coletiva da sombra individual? De acordo com von Franz, se você só se sente ambicioso, por exemplo, quando está em um grupo, trata-se aí da sombra coletiva. Isso significa que, a pessoa cordada que numa manifestação pública é tomada de ódio ficando um pouco perturbada e isso acontece apenas quando está nessa situação, foi dominada mais pela sombra coletiva do que pela pessoal – tenho a impressão que o mesmo se dá nas redes sociais. Nosso noticiário político nos dá sobejos exemplos. Devemos no recordar de que o mal coletivo é personificado nos sistemas religiosos como demônio ou espíritos das trevas, não é debalde que a tradição nos ensina que o diabo pode nos possuir, pois, em termos práticos quando partes de nossa sombra não estão suficientemente integradas, essa é a porta aberta para a sombra coletiva, para o diabo (seja ele um demônio capitalista ou comunista).

Temos que nos lembrar de que uma apercepção ativa só é possível quando temos uma atitude, dessa maneira a atitude atua de forma selecionadora, nos permitindo apreender apenas uma parte do fenômeno – isso deveria nos deixar mais humildes. É por isso que um grupo olha para Che e vê um assassino homofóbico e o outro um revolucionário heroico. Por detrás dessas atitudes sociais que esbocei, permanece em ação os tipos gerais de atitude: introverssão/extroverssão. Eu tenho uma impressão que vou compartilhar com vocês, é menos do que uma hipótese: a esquerda possui uma atitude coletiva de extroversão e a direita de introversão. É claro que uma ideia de caráter tão geral é difícil de se comprovar, mas creio ter um certo valor heurístico, como quando Jung falava do caráter nacional francês como sentimental e dos alemães como intelectuais. Vejam, o caso do debate sobre o bolsa família, a esquerda se foca não no programa em si, ou na sua forma de execução, mas nas pessoas beneficiadas, em uma atitude empática, em que importam as pessoas. O debate levado a cabo pela direita é claramente, ao meu ver, abstrativo, a ideia é ruim e se discute os problemas abstratos do programa e se trata o mais rápido possível de anular os objetos e removê-los da equação, nesse caso, justamente as pessoas. Percebam o caráter abstrativo dos liberais quando toda a sua discussão pode ser reduzida a uma ideia revestida de enorme valor afetivo e que, por ela mesma, é capaz de sanar tudo: o livre mercado. O problema disso tudo, senhoras e senhores, é que como bem sabemos o que é valor para o introvertido é desvalor para o extrovertido e vice-versa. 

Assim, de um lado Che não passa de um representante da ideia nefasta do comunismo que se opõe ao livre mercado, logo é um vilão capaz de atrocidades, ele deve ser rapidamente destruído e tirado da equação, numa atitude abstrativa. De outro lado, ele é cultuado, sua vida é vista como corajosa e exemplar, suas aventuras e seu desejo de ajudar as pessoas são fonte de inspiração e estão em primeiro plano e não propriamente os ideais que ele defendia.

Em termos práticos o que nos ensina toda essa celeuma? Primeiro que o risco de contágio psíquico é diretamente proporcional ao nosso grau de inconsciência. Segundo que as paixões coletivas e políticas que agitam nossa era de incertezas e tristezas possuem um pano de fundo irracional que é tanto mais poderoso quanto mais ele for negado, e que, como certa feita asseverou Jung “se é aquilo que se combate”. Quando vemos apenas projetados nossas inferioridades elas agem sobre nós de maneira compulsiva, os homens e mulheres de esquerda agem de maneira autoritária e moralista enquanto apontam o dedo em riste para acusar seus oponentes. O homofóbico e machista Kataguiri aponta o dedo para acusar Che de ser homofóbico e machista. Quem busca opressores em tudo, em geral, possui um tirano vivendo em seu peito. De maneira humilde, esse debate psicológico nos leva a reconhecer que temos apenas uma parte da verdade, a parte que nos cabe e não toda ela. Recordando da filosofia de James, o racionalista acredita que existe uma verdade única, e que o universo é um enigma cuja resposta é essa verdade imutável: deus, a energia, o mercado. A postura proposta por James propõe a existência de verdades no plural, que ele chamava de verdades operacionais, que servem para gerar mais trabalho, que funcionam como atalhos que favorecem que nos movamos de um fato ao outro com maior desenvoltura. O racionalista gosta de ideias e se afasta sempre que pode dos fatos, o pragmático só se sente a vontade quando próximo dos fatos.

Determinadas verdades são estéreis e esterelizantes, pois não nos dizem nada e nos fazem parar de pensar, nos transmitem apenas a ilusão de conhecimento. Che foi um homem complexo, repleto de qualidades e defeitos. Como todo ser humano, foi alguém contraditório e incoerente. Se aferrar a uma verdade apenas sobre ele e seu valor é algo tolo. Sua imagem persiste e ainda causa polêmica e admiração, pois o homem Che foi capturado pelas eternas dominantes que, em certa medida, determinam o comportamento humano e ao olharmos para sua figura icônica, sem o saber miramos nas profundezas de nossa própria alma. Obrigado.

terça-feira, 14 de março de 2017

Refluxo



Eu tenho uma condição médica, que acredito seja um defeito de nascença, chamada hérnia de hiato, isso causa algo chamado refluxo, que é um tipo muito forte e incômodo de azia. O caso é que, por muito, muito tempo, eu acreditei que jamais havia sentido azia. Quando fui fazer exames para determinar se eu estava ou não com refluxo, um desses exames era um tubo enfiado pelo meu nariz e que descia pela minha garganta esôfago abaixo até o estômago e uma caixinha com algum aparelho eletrônico que, pelas próximas 24 horas iria monitorar objetivamente cada um dos episódios de refluxo que eu tivesse. Eles também me deram uma espécie de controle remoto, com botões, cada vez que eu sentisse os efeitos do refluxo bastava registrar apertando o botão. A máquina registrou uns 15 episódios de refluxo, e eu apertei os botões umas dez vezes e, adivinhem, não acertei nenhuma das vezes em que estava realmente tendo ácido corroendo meu esôfago e a minha garganta.

Pelo visto, eu sempre tivera azia, só não me dava conta disso. Não tinha qualquer consciência do que se passava comigo, algo físico que envolvia ácido subindo pelo interior do meu pescoço. Eu gosto de contar essa história para exemplificar o quanto podemos ser inconscientes, mesmo de coisas tão grosseiras e materiais. Depois passei a notar a sensação causada pelo refluxo, além de um monte de outras sensações oriundas do meu corpo.

Uma coisa muito similar aconteceu com algo bem mais sutil. Por anos, eu jamais havia me dado conta dos efeitos dos meus sentimentos sobre mim. Assim como eu acreditava que jamais tivera azia, tinha a viva impressão de que meus sentimentos não me perturbavam nem um pouco. Acontece que mesmo não percebendo a azia, o ácido estava lá, me deixando rouco, causando um estranho pigarro e corroendo o meu esôfago, eu só não o notava, o que não anulava os seus efeitos daninhos. Só é possível se defender de um inimigo que você sabe que existe. Eu conseguia agir de maneira imensamente fria, direta e impiedosa ou simplesmente ignorar coisas ruins feitas comigo e que deveriam ter tido o efeito de me irritar, entristecer ou indignar, porque não notava qualquer efeito dessas ações sobre mim. Isso me dava uma impressão muito, mas muito equivocada mesmo a meu respeito.  Além de eu ter uma ideia bem esquisita sobre mim, essa minha inconsciência, passava uma imagem bem estranha para as pessoas.

Assim como aconteceu com a minha azia crônica, depois de alguns eventos da minha vida, passei a perceber, a ter consciência, do quanto meus sentimentos me afetavam. Isso me deixou menos durão e objetivo, mas também me humanizou bastante, me deixou menos idiota e ampliou consideravelmente o escopo da minha experiência e, por cosequência, da minha vida. A coisa é que, eu ainda não sei muito bem o que fazer com essas impressões que eu percebo. Sei exatamente o que fazer com os meus pensamentos, com a minha criatividade e poder analítico. Com esses afetos que vem e vão quando querem, ou que são desencadeados por algum evento ou pessoa, eu sou mais vítima deles do que seu criador.  No começo, tentei fazer a coisa budista de apenas observar como eles apareciam e depois seguiam seu curso e sumiam, ou tentar me familiarizar com eles e entender como funcionavam. Talvez essas realmente sejam boas estratégias, mas, com o tempo, percebi que precisava me deixar afetar por tudo isso, e viver essas emoções, especialmente as negativas.

Isso me permite ter uma visão mais ampla e colorida do mundo e das pessoas, além de me dar elementos de avaliação que eu não dispunha antes. Não tem sido nada fácil, abdicar da minha postura, na aparência, inatingível e ser ferido por essas coisas. Afinal, elas sempre me feriram, eu é que não notava. Sentimentos são pontes, que nos conectam as pessoas, que aquecem o mundo frio do pensamento. Os afetos são a chama sem a qual os elementos de nossa personalidade jamais irão se amalgamar.

No meu caso, continuo a ser bem bocó no que concerne ao mundo dos sentimentos, mas, ao menos, já não sou cego e surdo.