quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Núcleo de Estudos von Franz

Iniciamos as atividades do núcleo de estudos Von Franz como um passo inicial e preparatório para, posteriormente, criarmos uma instituição de ensino e pesquisa em Psicologia Junguiana em Fortaleza.

Mesmo tendo começado há pouco tempo, o núcleo Von Franz já vem realizando atividades relevantes, como o grupo de pesquisas sobre o animus (a psicologia feminina), que começou com o estudo dos livros de Barbara Hannah sobre a temática e pretendemos que evolua para o estudo de obras literárias e, por fim, a publicação de uma série de ensaios sobre a temática. 

Também estamos realizando uma série de vídeos sobre temáticas diversas que podem ser acessados pelo youtube, com atenção especial para os fundamentos filosóficos da Psicologia de Jung. Já temos 2 vídeos sobre a temática enfocando Kant e James, dois dos principais filósofos que formam a base epistêmica de Jung. Segue abaixo o link para o canal do núcleo.


Nossos objetivos principais são o de fomentar a pesquisa em Psicologia Junguiana e a formação de pesquisadores e analistas, facilitar o acesso à Psicologia a pessoas interessadas de qualquer outra área,  bem como estabelecer um diálogo com outros campos do saber como a Literatura, Mitologia Comparada, Hermenêutica, História, Cinema e Filosofia. 

Temos muitos planos para o futuro e diversos colaboradores nas mais variadas áreas. Esperamos poder oferecer um espaço para o dialogo que seja não sectário, mas, ao mesmo tempo, pautado pela seriedade e rigor epistêmico. 

Segue abaixo o link para a nossa fanpage no Facebook. Esperamos contar com o seu apoio e entusiasmo, bem como sugestões e críticas.

domingo, 9 de outubro de 2016

William James e sua influência sobre a Psicologia de Jung


Durante o final do século XIX e o início do século XX, William James foi amplamente reconhecido como o principal psicólogo dos Estados Unidos, sua reputação ultrapassava as fronteiras de seu país, sendo considerado, na Europa, como o papa da Psicologia norte americana.
James era filho de uma família irlandesa rica e culta. Ele nasceu em 1842, no Astor House, o hotel mais luxuoso e badalado de Nova York. Já em 1843, fez sua primeira viagem à Europa. Durante sua juventude frequentou escolas nos Estados Unidos, Inglaterra, França e Suíça. James falava francês, alemão e italiano fluentemente e sentia-se muito a vontade em qualquer lugar da Europa.
Ainda jovem, em virtude da posição social e influência de sua família, conheceu grandes nomes do seu tempo como: John Stuart Mill e Lord Tennyson. James tinha três irmãos e uma irmã, Alice. Sua irmã era uma mulher brilhante, com dotes literários, mas que foi pressionada pela família a abdicar de suas ambições e casar. Ela teve uma série de doenças com sintomas neurastêmicos e morreu em 1892 aos 44 anos. Sua morte teve um profundo impacto em James.
James nunca teve uma ideia precisa do que desejava fazer profissionalmente, ele estudou arte, mas apesar de demonstrar grande talento como pintor, abandonou a carreira nas belas artes, provavelmente por seu pai não aprovar essa escolha. Em 1861, James se inscreveu na Lawrence Scientific School, em Harvard. Ele primeiro estudou química, mas odiou o assunto e mudou para o programa geral de história natural onde conheceu Louis Agassiz com quem foi em uma expedição à Amazônia brasileira, mas a viagem foi particularmente difícil para ele devido a complicações de saúde e ao clima debilitante, por isso abandonou a expedição e percebeu que seus interesses eram mais especulativos, e que a vida de coletor sistemático de dados não lhe agradava. Em seu retorno a Harvard resolveu estudar medicina, mas sem nenhum entusiasmo. Em sua opinião havia muita tapeação na medicina e, para além da cirurgia, o médico fazia muito pouca coisa pelos seus pacientes além de tirar dinheiro deles.
Em 1867 e 1868, James interrompeu os estudos de medicina e viajou para a Europa onde visitou os laboratórios de Fechner, Von Helmholtz, Wundt e Du Bois-Raymond. Recebeu o diploma de mestre em 1869 e resolveu jamais praticar a medicina – promessa que manteve pelo resto da vida.
Em 1872, James recebeu a oferta de um cargo como instrutor de fisiologia e anatomia em Harvard, por um salário anual de US$ 600, mas adiou por um ano a decisão de aceitar a oferta e apenas em 1874 ofereceu o primeiro seu primeiro curso em Harvard a respeito da relação entre fisiologia e Psicologia. Em 1882, ele tirou uma licença de Harvad e viajou pela Europa para renovar seus contatos com psicólogos, filósofos e fisiologistas europeus.
Em 1876, aos 34 anos, o seu pai lhe informou que havia encontrado sua futura esposa, Alice Howe Gibbons, professora de uma escola de Boston, e cabia a James cortejá-la. Obedientemente ele o fez e eles se casaram e foram muitos felizes juntos. Alice compartilhava muitos de seus interesses e era incansavelmente dedicada a ele. James, por seu turno, a adorava, uma correspondência de mais de 1400 cartas dele para a esposa foi publicada, testemunhando o afeto que devotava a ela.  Em 1878, James assinou contrato com o editor Henry Holt para escrever um livro de Psicologia. Ele esperava concluir o livro em dois anos, mas levou 12 anos para concluí-lo e tinha a opinião de que livro era excepcionalmente ruim, porém ele estava enganada, era uma obra prima.
Publicado em 1890, os dois volumes do Principles of Psychology, de 1393 páginas, foi um sucesso instantâneo. Escrito de maneira brilhante e fluente, como tudo o que James escreveu, o livro foi lido mesmo por pessoas que não estavam envolvidas com Psicologia em virtude da qualidade de sua prosa, seu estilo elegante e agradável. Em 1892, Henry Holt publicou uma versão resumida do livro de James, Psychology: a brief course, de 478 páginas que também foi um enorme sucesso. Eram os livros padrão utilizados em cursos de Psicologia no mundo inteiro, tendo sido traduzidos até para o russo. Os dois livros eram conhecidos como “James” (Principles) e o “Jimmy” (Brief Course). James nunca se deixou fisgar realmente por nenhuma ciência e possuía interesses ecléticos que incluíam fenômenos paranormais e religiosidade, que ele abordava com um interessante misto de abertura de espírito e agudo senso crítico.
James definiu a Psicologia como “a ciência da vida mental, tanto seus fenômenos como suas condições”. Entre esses fenômenos incluía: sentimentos, desejos, cognições, hábitos, lembranças, raciocínios e decisões. Ele se opunha a abordagem estruturalista de Wundt-Titchener, pois acreditava que ela era desnecessariamente restritiva, estéril e artificial. Sua posição pode ser exemplificada pela afirmação de Henri Poincare “Uma casa é um amontoado de pedras, mas um amontoado de pedras não é uma casa”. James estava mais interessado em descobrir como a mente funciona do que em desvendar a sua estrutura. Para ele a característica mais marcante da Consciência é que ela se adapta, permite que nos adaptemos ao ambiente e possui as seguintes características: 1 – ela é pessoal, 2 – é um fluxo contínuo, está sempre mudando, 3 – ela é seletiva.
James usava uma interessante alegoria para exemplificar a característica seletiva da consciência, pois o mundo é “uma confusão exuberante e barulhenta” na qual “os sons, as visões, os toques, as dores provavelmente formam uma exuberante confusão não analisada”. Se a consciência analisa essa confusão ela torna-se seletiva. Podemos ver uma influência direta na maneira como Jung encara o fenômeno da consciência, para Jung um conteúdo está consciente quando associado ao complexo do eu que, em suas palavras é “altamente compósito e variado”. O eu é o centro do campo da consciência, que é um fenômeno momentâneo de adaptação, se caracteriza por sua intermitência e por outras características como direção, seleção e exclusão, tendendo, pois sempre a unilateralidade. Assim como James, Jung estava interessado na maneira como a consciência funciona e, apoiado igualmente em Kant, afirmava que a “natureza da consciência é um mistério insolúvel”, assim, utilizando o método fenomenológico, poderia ao menos descrever seu funcionamento. Nessa descrição era importante não sobrecarregar a observação com pressupostos teóricos se atendo o mais possível ao fenômeno em questão, entretanto levando em conta que a equação pessoal do pesquisador sempre iria influenciar a sua forma de enxergar.
Outra contribuição de James a Psicologia foi a sua teoria da emoção, que acabou sendo chamada de teoria James-Lange, pois o fisiologista Dinamarquês Carl Lange formulou uma hipótese muito semelhante simultaneamente. James publicou sua hipótese pela primeira vez em um ensaio na revista Mind em 1884. De acordo com sua teoria, o sistema nervoso faz certos ajustes inatos ou reflexos aos estímulos externos e é a percepção dessas mudanças que constitui a emoção. As mudanças fisiológicas são a matéria mental que constitui a emoção. Aqui é possível ver outra espantosa similaridade, resultante da poderosa influência de James sobre o espírito de Jung, basta recordar da noção junguiana de afeto/emoção que possui a característica de produzir enervações somáticas, e a sua distinção de sentimento (Fühlen) como uma das funções racionais ou abstrativas da consciência, sendo, grosso modo, a capacidade de estabelecer uma escala de valores, porém, um sentimento muito forte pode, ao gerar uma enervação somática, transformar-se numa emoção. Apesar de ser notável a influência, nesse aspecto em particular, Jung também foi influenciado pela teoria dos afetos de seu professor e chefe no hospital psiquiátrico Joseph Bleuler.
No Principles, o capítulo mais frequentemente citado é o IV do volume 1, a respeito dos hábitos. Nesse capítulo, James assevera que o sistema nervoso tem a propriedade da plasticidade e pode ser modificado pela experiência. Ele acreditava que os hábitos, ou ao menos a maior parte deles, é formado pela cultura no início da vida e que, até os 30 anos de idade “fixam-se como gesso”. Quando adquirimos novos hábitos chegamos até eles com um estoque de velhos hábitos que podem bloquear ou facilitar os novos. James expressou as consequências políticas e morais de sua teoria da formação dos hábitos em São Francisco em 1910, no aclamado discurso The Moral Equivalent of War. Nessa ocasião ele argumentou que o conhecimento de como se formam os hábitos poderia ser utilizado para construir uma sociedade melhor, livre da guerra, da fome e da indignidade. No Principles, James também considerou como um hábito é retido ou lembrado – o problema da memória. Ele acreditava que os acontecimentos deixam caminhos, rastros entre os centros nervosos do cérebro. Quando esses caminhos são excitados, resulta numa lembrança específica.
Apesar do enorme renome mundial como psicólogo, James nunca se comprometeu com a Psicologia. Em uma carta a seu irmão Henry James (renomado escritor) ele expressou o desejo de ser reconhecido como filósofo e não como psicólogo. Quando em 1901 recebeu em Harvard o título honorífico de Doctor of Laws, James temia que pudessem apresentá-lo como “William James, psicólogo”, e ficou aliviado ao ser apresentado como filósofo.
A filosofia de James é o pragmatismo, e ele foi um dos mais conhecidos e influentes filósofos de sua época, se não o mais famoso e influente. Em uma carta a Flornoy ele definiu sua doutrina como “uma filosofia sem tapeação” o que, de fato, é uma excelente descrição do pragmatismo. Não é ocioso destacar novamente, que a prosa de William James é absolutamente deslumbrante, fluente, elegante, eivada de poderosas metáforas e alegorias, além de anedotas que causam um tremendo impacto no leitor. Seus livros, aulas, discursos e palestras são à base de sua reputação.
Na primeira das conferências publicadas em seu livro Pragmatism, James faz uma afirmação simples, mas de considerável alcance. Ele assevera “A história da Filosofia é, em larga medida, um choque entre diferentes temperamentos humanos” (tradução minha). Para James, o filósofo acredita em seu temperamento e quer um universo que se ajuste a ele, e acredita em qualquer representação do universo que se ajuste ao seu temperamento. Tal filósofo considera homens de temperamento oposto fora de sintonia com o universo, e incompetentes em filosofia, mesmo que eles em muito o superem em habilidade dialética. Isso faz surgir uma certa insinceridade nas discussões filosóficas, pois a mais potente de nossas premissas jamais é mencionada. Os dois temperamentos apontados por James são o racionalista e o empirista. O empirista é um amante de fatos em toda a sua crua variedade, enquanto o racionalista se devota a princípios abstratos e eternos. Na realidade, ninguém pode viver sem os dois, fatos e princípios, trata-se mais de uma diferença de ênfase, mas que mesmo assim gesta antipatia. James também denomina o racionalista de Tender-Minded e o empirista de Tough-Minded (mente tenra e mente dura), com as seguintes características marcantes. Tender-Minded: racionalista (segue princípios), intelectualista, idealista, otimista, religioso, acredita no livre arbítrio, monista, dogmático. Tough-Minded: empirista (segue os fatos), sensualista, materialista, pessimista, irreligioso, fatalista, pluralista, cético.
As duas perspectivas, racionalismo e empirismo, apresentam problemas, pois, ele assevera, o otimismo dos racionalistas soa tão raso quanto o amor por fatos dos empiristas. Na ótica de James, o universo é algo imenso e em aberto, porém o racionalismo constrói sistemas e os sistemas devem ser fechados. A solução para resolver essa disputa entre pontos de vista logicamente irreconciliáveis é a filosofia do pragmatismo, assim, pode-se permanecer religioso como os racionalistas sem perder a rica intimidade com os fatos. Na segunda de suas conferências publicada no Pragmatism, James expõe o método pragmático. Sua “Filosofia sem tapeação” é um método para resolver disputas metafísicas que, de outra maneira, permaneceriam eternamente insolúveis. O pragmatismo não espera nenhum resultado especial, trata-se primeiramente de um método e, em segundo lugar, de uma teoria genética da verdade. O pragmatismo nunca está confortável distante dos fatos, e fala de verdades no plural, sobre sua utilidade, sobre o sucesso com que elas trabalham. O pragmatista se prende a fatos e coisas concretas, observa a verdade e como ela trabalha em casos particulares e generaliza, a verdade se torna uma classe de categorias para valores de trabalho definidos na experiência. Todavia o pragmatismo não é mera empiria nem trabalha influenciado por preconceitos materialistas como os empiristas, não é anti-intelectualista e tampouco faz objeções a formulação de abstrações desde que elas levem a algum lugar. Uma ideia é verdadeira desde que prove seu valor concreto na vida e das suas relações com outras ideias também admitidas como verdade. Nesse sentido, o pragmatismo entende a verdade como algo instrumental, uma ideia verdadeira deve nos ajudar a nos mover em meio ao caos dos fatos, ligando satisfatoriamente os elementos da experiência, simplificando, economizando trabalho, nesse sentido essa ideia será instrumentalmente verdadeira. É digno de nota, que para James, assim como para Jung, as ideias são parte integrante da experiência, não sustentando a ideia de um empirismo puro. Assim, uma Idea é verdadeira desde que nos auxilie a ter uma relação satisfatória com outras partes de nossa experiência. A teoria passa a ser um instrumento e não uma resposta nela mesma.
No capítulo VIII do seu Tipos Psicológicos, Jung trata da concepção tipológica de James. Em sua perspectiva, trata-se de um problema tão antigo quanto à filosofia, mas coube a James esclarecer a existência de tipos e sua influência no âmbito estritamente filosófico, mas nesse ponto de vista, de uma vinculação não histórica, mas de fundo irracional e de raiz psíquica, ele aponta que o tender-minded tem certos traços comuns com o realista e o tough-minded ao nominalista. O realista corresponde ao princípio da introversão e o nominalismo da introversão. A controvérsia histórica sobre os universais faz parte do conflito de temperamentos apontado por James. Ele vai mais fundo do que Abelardo o fez ao tentar sanar o problema dos universais no medievo, pois abarca a oposição dos tipos psicologicamente e tenta uma solução pragmática correspondente, mas Jung considera a saída pragmática apenas uma solução temporária. Além disso, Jung critica a unilateralidade de James ao observar apenas a qualidade do pensamento dos dois tipos, mas também pondera que num tratado filosófico essa atitude é natural e até esperada. Jung considera o ponto de vista pragmático imprescindível, se quisermos fazer justiça aos dois pontos de vista, mas o ponto de vista pragmático pressupõe resignação em demasia e se liga a uma falta de realização criadora, assim, Jung assevera.
A oposição das duas “verdades” exige uma atitude pragmática, se quisermos fazer alguma justiça ao outro ponto de vista. Por mais imprescindível que seja o método pragmático, pressupõe resignação demais e se liga quase inseparavelmente a uma falta de realização criadora. A solução do conflito dos opostos não se dá nem por compromisso lógico-intelectualista, como no conceptualismo, nem pela medição pragmática do valor prático de concepções logicamente inconciliáveis, mas exclusivamente por criação ou ação positiva que assume os opostos como elementos necessários de coordenação, assim como um movimento muscular coordenado implica sempre a inervação dos músculos antagônicos. Portanto, o pragmatismo não pode ser outra coisa do que uma atitude transitória que prepara o caminho do ato criado afastando os preconceitos. (Jung, 2013, p.605).
Aberlado é superado por James assim como este, de acordo com Jung, foi superado por Nietsche em sua resposta ao problema dos opostos. Ainda assim, há uma exigência de uma atitude pragmática para se poder fazer jus as duas possibilidades humanas representadas pela introversão e extroversão. A adoção de uma atitude pragmática, além de livrar o caminho de preconceitos inconvenientes, evita as tapeações que têm se tornado lugar comum no debate Junguiano, desde o mau uso da teoria dos tipos, até o pseudomisticismo bobo que tem sido um grande obstáculo ao debate sério, e, por fim, a profunda incompreensão do método utilizado por Jung. Uma atitude pragmática, se adotada com rigor, nos livra dessas disputas ociosas. James concordava com um decano da faculdade de medicina de Harvard que costumava dizer que se toda a matéria médica, menos o ópio e o éter da maneira coo vem sendo usados, cair no fundo do oceano seria ótimo para a humanidade e péssimo para os peixes. Parafraseando esse decano, se todos esses pseudoproblemas junguianos que eu citei, caíssem no mar, seria ótimo para a humanidade e péssimo para os peixes, que em pouco tempo estariam colorindo mandalas...

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Individuação




https://youtu.be/iY_bGgAz4to

O processo de individuação é uma problemática que surge quase sempre nos estágios finais de um processo analítico. Jung compreende por “analítico” todo processo que se confronta com a existência do inconsciente. Ele utiliza individuação no sentido do processo que gera um individuum psicológico. O processo de individuação só tem sentido diante da hipótese, calcada em observações empíricas especialmente no campo da psiquiatria, de que o inconsciente possui um caráter objetivo e autônomo. Essa autonomia é uma característica geral e normal que se encontra exacerbada no caso patológico, especialmente no campo das psicoses. Em certo sentido, para Jung, o inconsciente pode ser entendido como “realidade in potentia”, onde se podem descobrir qualidades desconhecidas de caráter e possibilidades futuras de desenvolvimento. O inconsciente é como o Janus bifronte, por um lado olha para o passado, por outro antecipa potencialmente o futuro, como Jung assevera em seu Psicologia e Alquimia, todo conteúdo genuinamente anímico é ambivalente. 


https://youtu.be/iY_bGgAz4to

A individuação é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto da psicologia coletiva, que se caracteriza pela identidade e projeção, é um processo de diferenciação, que tem por meta o desenvolvimento da personalidade individual. Essa meta é completamente diferente do “individualismo”, que não passa de uma “acrobacia da vontade”. O processo de individuação não leva a um isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso e abrangente. Paradoxalmente, a individuação pressupõe um mínimo de adaptação à norma coletiva ao mesmo tempo em que está sempre em maior ou menor oposição a ela, pois é uma separação e diferenciação do geral.  É preciso que fique claro que a individuação não vai contra a norma coletiva, mas se constitui em um outro modo, se fosse uma simples oposição seria não um caminho individual, mas uma norma antagônica, e o caminho individual nunca é norma. Para Jung, a individuação nunca é algo simplesmente procurado pelo sujeito, mas já se encontra fundamentada a priori na sua disposição natural.

O inconsciente se manifesta por meio dos sonhos, a “via régia de acesso ao inconsciente”, como Freud o chamou, e se observados por longo período de tempo em grandes séries, é possível perceber uma ampla teia de fatores psicológicos que obedecem a uma determinada configuração ou esquema. Este esquema ou configuração é justamente o que Jung denominou de processo de individuação. Há entre o inconsciente e a consciência uma tendência reguladora que gera um processo de crescimento psíquico, e que pode ser percebida no exame das imagens oníricas. O processo de individuação, que é esse crescimento ou separação da psicologia coletiva e consecução do indivíduo, não pode ser efetuado pela vontade consciente sozinha, mas se trata de um fenômeno involuntário, autônomo, objetivo e natural. Por esse motivo não se trata de individualismo, dos objetivos e planos egoístas da consciência, ao contrário, muitas vezes, no processo de individuação é forçoso abrir mão desses objetivos e planos.  

A individuação é um impulso interior de crescimento ao qual o complexo do eu deve dar ouvidos e prestar grande atenção, e entregar-se a ele sem qualquer outro propósito ou objetivo. Pela observação dos sonhos, ao se perceber essa complicada configuração de imagens psíquicas, percebe-se com clareza uma tendência à ordem e uma orientação finalística, em virtude disso, bem como de certos símbolos específicos de caráter mitológico que aparecem no decorrer do processo, Jung teorizou a existência de um centro regulador do psiquismo que ele chamou de Selbst em alemão. Ele pode ser entendido como um fator de orientação íntima, que por meio dos sonhos provoca um constante desenvolvimento e amadurecimento da personalidade. Até onde vai esse desenvolvimento vai depender do quanto à personalidade consciente vai estar disposta a ouvir as mensagem do Selbst e abrir mão de seus próprios planos e desejos em prol da meta do desenvolvimento da personalidade. O verdadeiro processo de individuação é a harmonização do consciente com o centro interior, o Selbst. Como se pode ver, em geral, o início desse processo causa uma lesão ao eu e isso acarreta sofrimento, pois ele se sente tolhido nas suas vontades e desejos. Nesse sentido, como é sobejamente mostrado nos mitologemas que envolvem jornadas heroicas, a consecução da personalidade é eivada de dores e perigos e nem todos estão à altura da tarefa de tornarem-se quem realmente são.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Desabafo, ou, "meu credo epistemológico"



Há um certo tempo, que eu tenho algo meio engasgado pra dizer, um desabafo. Na verdade, sempre me esquivei de fazê-lo, apesar de não parecer, sou uma pessoa reservada. Muitos conhecem meus posicionamentos políticos e intelectuais, mas apenas um número muito reduzido de pessoas pode dizer o mesmo acerca dos meus sentimentos, mas creio que já é chegado a hora de fazê-lo. O motivo de fazer algo que, no fundo, me desagrada tanto, é a reação de duas pessoas queridas ao se aproximarem um pouco mais de mim, e sua expressão de um certo receio no que concerne a mim, o que me entristeceu profundamente. A primeira foi uma reação a uma frase banal pra mim, quando afirmei desconhecer algo e tive, dessa pessoa querida, a seguinte resposta “então você admite que não sabe de tudo?”. O intuito das palavras não foi o de ferir, mas esse foi o resultado, e me senti na obrigação de me explicar. Certa feita, meu amigo Filipe, me disse que quando eu estou falando, lecionando ou proferindo uma conferência eu sempre mostro o melhor, não titubeio, não duvido, sempre tenho uma resposta rápida e sagaz, e que isso é algo um tanto demoníaco e assustador, pois o tropeço é justamente o que desperta a nossa compaixão, ou, para usar a expressão de outra pessoa querida, sou “assertivo”. Levei a sério essa admoestação, e acrescentei uma dose maior do humor judaico ao meu repertório, mas creio que a impressão causada foi duradoura. Quando me expliquei a essa amiga, lhe expus algumas das minhas mais caras convicções, o que lhes faço agora.
Eu não creio que qualquer teoria seja capaz de dar conta do mundo, assim como Popper, creio que nosso conhecimento é finito enquanto nosso desconhecimento é infinito, e que a postura intelectual e moral adequada ao cientista é aquela expressa pelo racionalismo crítico “eu posso estar errado e você estar certo”, tenho fé na minha razão, mas maior é a minha fé na razão dos outros. Acredito na tolerância, que deve ser dada aos outros a oportunidade de expor seus pontos de vista mesmo que sejam opostos aos meus, e, o mais importante dessa postura, acredito firmemente que, mesmo alguém culto e inteligente, ou bem preparado ou o que seja, deve rejeitar qualquer pretensão de autoridade, ninguém deve ser o seu próprio juiz. Nenhum conhecimento genuíno vem da autoridade e todo ele é conjectura. Assim como Aristóteles expos em sua retórica, eu creio firmemente que o papel do professor não é convencer, mas ensinar. Assim como William James, um dos meus heróis intelectuais, não creio na existência da “Verdade”, única e com v maiúsculo, não penso que o universo seja um enigma que possui uma resposta, uma palavra de poder que ao ser encontrada me permite descansar, os “nomes dos demônios” que Salomão possuía. Ao contrário, acredito em verdades operacionais que servem até o momento em que puderem ser veículos para me levarem mais longe, como atalhos conceituais que organizam o caos da experiência e geram mais trabalho. Assim como Jung, de quem sou discípulo póstumo, creio que há um limite existencial, e inalienável a toda e qualquer pretensão de saber, que há coisas que ignoramos e ignoraremos (e essa postura ele retira, em parte, de Kant), que por melhor que seja o meu ponto de vista, as minhas teorias, ele depende, em larga medida, da minha equação pessoal, logo, é necessariamente limitado. O que me anima como professor, especialmente de Psicologia Junguiana, é saber que há coisas que eu jamais seria capaz de formular e que apenas outras equações pessoais, poderão. Assim, me anima a esperança de ver meus alunos, ao descobrirem quem são, serem capazes de formular sua verdade a partir de sua individualidade, dizendo coisas novas para mim e ampliando, assim, o meu horizonte. Muitos são os fatores que me limitam, eu sou um homem, falo da perspectiva do logos, e, há coisas que eu não vejo e nem sinto, e que devem ser ditas e formuladas não por mim, mas pela alma das mulheres, pelo eros. Assim como acreditava outro dos meus heróis, Marc Bloch, também creio que só posso afirmar aquilo que o tempo em que vivo me permite, sou limitado por uma mentalidade coletiva, e dela posso escapar apenas sutilmente. Mas, fundamentalmente, eu acredito nos outros, que sentido haveria em ensinar se assim não fosse? Há na vida um aspecto artístico, as grandes verdades devem ser ditas novamente a cada geração, de uma maneira adequada a essa geração, nas palavras que eles possam compreender, assim, o trabalho da cultura é um que jamais cessa. Creio, assim como Jung, que se eu tento formular uma grande verdade, mas finjo que não sou atingido por ela, que ninguém está a falar eu falho miseravelmente, mas que se falo a partir da maneira como um problema que atinge a todos, também me atingem, estando visceralmente implicado nisso eu posso enunciar uma verdade, que é minha, mas é uma experiência comunicável que pode traduzir a experiência dos meus semelhantes.
Aprendi poucas coisas úteis com o meu pai, uma delas foi a postura de educador. Há muitos anos, o governo do estado fez um curso para velhas professoras, para que tivessem o diploma de curso superior, e meu pai lecionava para elas, mas era muito atarefado. Como tinha muitas ocupações, vira e mexe mandava o filho, estudante de história lecionar para elas, e ele (eu) se esforçava para falar tudo o que podia e dar uma ótima aula, e, invariavelmente tinha uma resposta plácida das senhorinhas, que diziam que eu falava coisas bonitas e interessantes, porém entendiam pouco ou nada. Nunca me queixei disso ao meu pai, mas um dia, depois de uma dessas aulas, meu pai se queixou, não das alunas, mas de um colega professor. Esse colega, sempre falava mal delas, e não tinha pudores em considerá-las um caso perdido, ao me narrar isso, ele se virou pra mim e disse que retrucou ao tal colega desdenhoso “falar mal delas é fácil, o difícil mesmo é trazê-las para o seu nível”. Desde esse dia, eu tomei como regra jamais subestimar meus alunos ou meus ouvintes, evitar pedantismos, mas, igualmente evitar me colocar num patamar de superioridade, sempre que eu falo, sou animado pela crença na inteligência do meu público. Ainda mais novo, meninote, vi o meu pai lecionando nas salas vazias da UFC da década de oitenta. Havia 5 alunos, duas o ouviam com atenção falar sobre a Grécia, uma se sentava mais distante e alheia, e um outro lia um jornal. Ao final da aula eu perguntei a ele o motivo de não ter ralhado com o sujeito do jornal, achava a atitude acintosa, sem pestanejar, ele disse “é problema dele, assiste aula quem quer”. Nenhum de nós pode ser coagido, fundamentalmente somos livres, e isso implica a liberdade de não querer estar ali, ou não ouvir, por mais que seja o meu dever tentar tornar as coisas o mais interessante possível.
Por fim, ainda com Jung, tenho descoberto de novo e de novo, a verdade de que tudo o que julgamos saber sobre nossos semelhantes é um preconceito ou uma projeção. As pessoas são muito mais do que julgamos, nosso julgamento é limitado e só podemos ver nos outros o que medra em nosso coração, dependemos da trave em nosso olho para ver o cisco no olho do nosso próximo. Eu tenho tido, sempre, a grata surpresa de me espantar com as pessoas que me cercam, ou com aqueles que só via ao longe, há ali tanto que desconheço, que seria uma pretensão genuinamente diabólica crer que meu preconceito sobre alguém pode ser a verdade daquele sujeito. Cada ser humano com que me deparo, por melhor que seja a minha intuição ou percepção é um grande mistério, e, igualmente, um milagre irrepetível. Sim, minha querida, eu não sei de tudo e nem pretendo saber, apesar de saber bastante, paradoxalmente, quanto mais eu sei, mais devo compreender que não sei. O mundo pode não ser um enigma, mas, certamente, é um mistério.
O outro motivo desse pequeno desabafo, dessa confissão subjetiva dos valores que me animam, do meu “credo epistemológico”, é que outra pessoa muito querida, ao se avizinhar mais de mim e do meu coração, disse do receio de que a minha postura arrogante ser a base para uma atitude grosseira ou desrespeitosa, e isso me feriu ainda mais. Não é à toa que escrevi um livro sobre Naruto, todos os meus heróis empalidecem diante dele. O garoto idiota, sem talento e odiado, não reconhecido e que, contra tudo e contra todos afirmou sua individualidade, não para se vingar desses que o desprezavam, mas para ser o maior bastião para defendê-los (o hokage). Poucas imagens poderiam descrever melhor aquilo em que acredito quanto à narrativa de Naruto, a pistis, a fé confiante em si mesmo, necessária a consecução de quem se é. Eu posso ser assertivo, muitas vezes duro, pois quem quer ser professor deve abrir mão da necessidade de agradar sempre, mas jamais teria coragem de desencorajar ou humilhar. Por anos e anos minha maior luta foi para alcançar algum grau de Ahimsa (não violência), justamente para que minhas palavras pudessem encorajar e não desencorajar. Eu já traí o meu herói, e, como se trata de expor os meus sentimentos, que eu exponha também esse fato insólito da minha vida. Eu estudava com o Wilson, Psicologia Analítica, há época era um dos únicos que o fazia devido a sua antipatia (que ele mesmo admitia) e a minha proverbial teimosia em não ser desencorajado por nada nem ninguém, mas um dia eu me calei. Estava justamente falando sobre Naruto e o usando como metáfora, e ele me dizia como já estávamos derrotados de antemão, como a psicologia analítica estava morta e ninguém era capaz de compreendê-la e aceitá-la. Eu retruquei “que dizer que eu não posso ser hokage?”, sua resposta foi um sonoro não, seguido da poesia de Augusto dos Anjos “Vês, Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera, somente a ingratidão – essa pantera – foi tua companheira inseparável”. E eu me calei, nos afastamos depois, mas, fosse eu fiel a mim mesmo, teria dito, como Naruto diria que “esse é o meu jeito ninja, e ninguém vai me dizer que eu não posso ser hokage”. Minha postura é a antípoda dessa, sou um incorrigível otimista, e espero muito dos meus alunos, espero que eles sejam muito melhores do que eu, se assim não fosse, qual o sentido de ensinar? Não minha querida, eu jamais seria grosseiro de maneira gratuita, ou pedante e pernóstico, saber de algo não lhe faz melhor ou pior do que alguém, são nossas decisões e posicionamentos morais que nos fazem melhores do que nós mesmos. Jung, disse, acertadamente, que inteligência em gente ruim é defeito e não qualidade, eu preferia abrir mão da minha a ser alguém que trata mal as pessoas ou se sente superior. Minha vida é uma sucessão de erros e fracassos, não estou em posição de julgar ninguém, e, mesmo que estivesse, esse julgamento pertence apenas ao altíssimo e não a qualquer homem de carne e sangue.
Tenho ouvido, das pessoas que se aproximam de mim (tenho me tornado menos reservado), a rapidez com que essas quimeras que rodeiam a minha imagem se dissolvem, ou, como me disse uma pessoa, como isso se desfaz de maneira “espetacular”, mas ainda me dói um pouco que haja isso, e, me dói ainda mais saber que, por um longo tempo, a minha postura fomentou essa desconfiança. Eis um pedaço da minha alma exposta à luz do dia, um pouco da minha verdade, não fossem essas duas feridas, jamais teria tido estímulo para deitar a pena ao papel para deixar transparecer tanto assim de mim, mas aqui está, esse é o meu jeito ninja.