sábado, 21 de janeiro de 2012

Mais uma Parábola Zen

Venho estudando e praticando o Budismo desde os meus quinze anos, já se vão um bom par de anos, começo a ficar velho e somente depois de todos esses anos de prática e reflexão começo a ter algum vislumbre sobre o significado de algumas das historietas zen que tanto me fascinaram em minha juventude. Essa que vou tentar esclarecer, em particular, sempre me pareceu um enigma insondável e apenas no mês de Dezembro do ano passado, alguns fatos da minha vida me levaram a ter um lampejo de compreensão. Não é ocioso afirmar uma vez mais, como sempre faço ao tratar dessas singelas parábolas, que eu não possuo qualquer mérito espiritual, ou passei pelos rigores do treinamento a que os mestres do Dharma normalmente são submetidos, no máximo, posso argumentar ao meu favor minha sincera dedicação a esse tema por longos anos e o estudo com muitos mestres realizados. Mesmo assim, meu ponto de vista deve ser encarado com desconfiança e, uma interpretação criativa e única deve ser o objetivo daqueles que se aproximam dessas histórias, ou ao menos, um coração aberto para ser genuinamente tocado por sua simplicidade e beleza. Passo a história propriamente dita e depois a sua interpretação.

Uma velha construiu uma cabana e por vinte anos ajudou um monge em seu aperfeiçoamento pessoal. Todos os dias, uma bela jovem lhe levava as suas refeições. Um dia, a velha senhora resolveu testar o resultado dos esforços encetados pelo monge e ordenou a jovem que levava a comida “quando você for lá, vamos ver como anda seu aperfeiçoamento pessoal. Abrace-o e veja como ele reage”. A bela jovem deixou a comida para o monge e, em seguida, o abraçou ternamente e perguntou “como se sente?”, “Como uma árvore seca num penhasco; de um dia gelado de inverno...” foi a resposta que obteve. Ao ouvir o que o monge dissera, a velha ficou furiosa e ateou fogo a cabana. “Vinte anos perdidos com um idiota!” Vociferou a velha ao ver a cabana arder.

Essa curta parábola versa sobre aquilo que é o coração do budismo Mahayana, do qual o Zen é uma das muitas vertentes: a Compaixão. O budismo Mahayana se caracteriza pelo voto do Bodhisattva, alguém que não busca a iluminação para si próprio, mas em benefício de todos os seres, pois é capaz de enxergar claramente através da ilusão da separatividade e da dualidade, e com essa visão clara e precisa, percebe que não há diferença entre ele mesmo e todos os demais seres, que toda a diferença faz parte do véu de Maya. Campbell refletiu longamente sobre a venerável sabedoria do dito sânscrito Tat Tvam Asi, “tu és isto”. O budismo Mahayana baseia-se nessa premissa, e, o Bodhisattva, é aquele que escolheu viver em júbilo em meio às tristezas do mundo. Ele não o abandona em definitivo ao entrar no Nirvana, ao invés disso, ele faz o voto de renascer em incontáveis vidas para beneficiar todos os seres “até que o último talo de grama alcance o estado de bem aventurança”. Podemos perceber essa verdade singela na bela prece dita pelos budistas tibetanos ao dedicar os méritos espirituais de suas práticas:

“Ao longo de minhas muitas vidas e até este momento, todas as virtudes que tenha alcançado, inclusive o mérito gerado por essa prática, ofereço para o bem-estar dos seres sencientes.
Possam a doença, a fome, guerra e sofrimento diminuir para todos os seres, enquanto sua sabedoria e compaixão aumentam nesta e em vidas futuras.
Possa eu claramente perceber todas as experiências como sendo tão insubstanciais quanto o tecido do sonho durante a noite e imediatamente despertar para perceber a manifestação de sabedoria pura ao surgir de cada fenômeno.
Possa eu rapidamente alcançar iluminação para trabalhar sem cessar pela liberação de todos os seres”.

Todos os méritos, toda a busca, todo o caminho espiritual é dedicado a toda forma de vida senciente. A prática da compaixão é o coração do Mahayana, em virtude disso é que se pode perceber que a atitude seca e distante do monge de nossa história é profundamente equivocada, ainda presa a ilusão da dualidade. Certa feita, após um longo e cansativo dia de estudos e ensinamentos, em que atuei como tradutor, minha professora se reuniu com alguns alunos mais antigos para lhes transmitir alguns ensinamentos de Tara Verde. Outra pessoa estava atuando como tradutor e eu permaneci por perto por apenas alguns instantes e entreouvi uma pergunta interessante sobre a prece acima “mas se eu dedicar todos os méritos da minha prática a todos os seres sencientes, como é que eu fico?” a resposta de minha mestra foi bastante inspiradora e um tanto engraçada “todos” disse ela “inclui você também”.

Não me espanta que eu tenha levado tanto tempo para ter esse pequeno vislumbre sobre essa historieta, pois, a despeito de meu esforço e sinceridade no caminho budista, a compaixão é algo que costumeiramente me escapa. A compaixão está intimamente associada a Ahimsa, a não violência, e, talvez, minha disposição excessivamente combativa me leve a ter dificuldades com esses temas tão importantes. Eu também tinha grande dificuldade para compreender a diferença que normalmente se faz no budismo entre “compreender o ensinamento e realizar o ensinamento”. Paradoxalmente, a minha grande dificuldade em compreender a compaixão me levou a entender melhor essa sutil diferenciação. Para compreender um ensinamento tudo o que se precisa é de inteligência mediana, ter prestado atenção e ser capaz de se recordar dele. Quase qualquer pessoa que conheça o Prajna Paramita, o sutra do coração da sabedoria, é capaz de recitar de cor seu conceito de vacuidade “vazio é forma, forma é vazio”. Realizar o ensinamento, todavia, significa algo bem diferente, significa que esse ensinamento foi capaz de alterar a sua visão e, em decorrência disso, alterou para sempre suas ações e passa a orientar a forma como você passa a reagir a certos estímulos internos e externos. Significa igualmente, que algum véu de ignorância, algum obscurecimento, foi removido de seus olhos, que sua consciência se expandiu. Tal expansão de consciência significa igualmente uma responsabilidade, um fardo. “ignorance is bliss” dizem os ingleses, quando deixamos para trás algum grau de ignorância, somos igualmente obrigados a nos confrontarmos conosco mesmos. Não é mais o vizinho que é um sovina, ou a colega de trabalho que é chata e fofoqueira, o foco se desloca para nós mesmos, pois nos tornarmos responsáveis por coisas que não encarávamos como pesos a carregar devido ao fato de os vermos apenas nos outros. A realização do ensinamento demanda um posicionamento moral diante da vida e de nossas próprias atitudes, do contrário, ele permanece apenas no reino das idéias abstratas, sem carne nem sangue, sem vida. Apenas algo com o qual entretemos o nosso intelecto e que, muitas vezes, o samsara se apropria dessas idéias e nos enreda ainda mais em nossa infantilidade e irresponsabilidade, nos tornando ainda mais obstinadamente ignorantes, mas inflados com uma falsa sabedoria que dificulta ainda mais a verdadeira realização. Supomos termos descoberto as chaves da sabedoria, mas elas permanecem empoeirando em um canto de nosso intelecto e as portas da realização permanecem fechadas como sempre.

A atitude de usar essas chaves, realizar o ensinamento, demanda coragem e esforço, e um empenho em mudar a nós mesmos, um esforço em enxergar com clareza e precisão, o que significa abandonar muitos comportamentos e atitudes habituais, e deixar de lado a preguiça e a estase espirituais. Decorar palavras bonitas, vestir roupas rituais coloridas, raspar a cabeça, ou conversar frivolamente sobre os ensinamentos, não adianta de nada se nosso coração não participar desse processo, Campbell gostava de citar um dito espirituoso de um renomado mestre indiano “não procure a iluminação a menos que a procure como um homem que tem os cabelos em chamas procura por uma lagoa”. O valor dos ensinamentos deve nos levar a ação, ou ao menos a reflexão sincera, deve existir um sentido de urgência e necessidade, do contrário, são um passatempo que podem, até mesmo, nos desviar de nossa verdadeira natureza. Sem atribuirmos a eles esse valor, se não vemos essa premente necessidade, pois estamos todos enredados em emoções aflitivas e hábitos mentais que nos levam a ver de maneira distorcida e que criam as causas e condições de nosso próprio sofrimento, nada nunca muda. Sempre será culpa de alguém, sou infeliz por que não tenho muito dinheiro, ou meu chefe torna a minha existência miserável, minha esposa me chateia, numa lista interminável de mentiras piedosas que estão sempre envolvidas com o desejo e a aversão.

No meu caso, me debato até hoje para ser alguém mais compassivo, ou, ao menos, para compreender melhor o que seja a compaixão. Algo que suspeito, deve me tomar ainda muitos anos de reflexão e dedicação, antes que possa me considerar alguém genuinamente compassivo. Espero sinceramente, pelo bem de todos os seres sencientes, conseguir isso ainda nesta vida.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Psicólogos e o Facebook

Estive meditando sobre uma mensagem passada por psicólogos em seus murais no Facebook, que basicamente versa sobre preconceitos filosóficos e pseudocientíficos-racionais, lugares comuns e chavões que estão associados na mentalidade dita “mediana” acerca do psicólogo e de seu ofício, estultices e platitudes do tipo “psicólogos não são telepatas”, ou “psicólogos também sofrem por amor”. Convém salientar que, apesar de estudioso de psicologia, não sou psicólogo, o que não me impede de trazer um ponto de vista psicológico a essa temática – visto ser um estudioso de psicologia e devido ao fato dos psicólogos estarem mais preocupados em repassar essa mensagem (tenho a impressão que isso não vai ajudar a minha popularidade...). Essa empreitada é temerária, visto que é igualmente uma estultice opor ao chavão e ao slogan qualquer tipo de argumento, mesmo que seja pouco mais do que bom senso, e, não estivesse eu sofrendo da mais atroz insônia, nem me atreveria a iniciar tal empreitada inútil, mas... Estou com insônia. Contra o slogan e os desejos quiméricos, a razão só possui força até certo ponto, e claudica dependendo da temperatura dos afetos, quando estes ultrapassam certo ponto crítico a razão perde sua eficácia. Além disso, a disseminação desse tipo de chavão só demonstra que estamos lidando com a psicologia de massa, e Jung afirmou certa vez que cem cabeças brilhantes juntas formam uma só cabeça de bagre. Logo, não é à toa que tais chavões se disseminem com tal rapidez e de maneira acrítica. Não que, in totum, sejam falsos, na realidade são banalidades tão simples que, como disse certa vez Von Franz, até um carneiro poderia tê-las proferido, algo do tipo “psicólogos também são seres humanos”, ora seria de se espantar é se não fossem, isso não passa de uma obviedade e a crítica não visa negar a verdade simplória desses argumentos (a bem pensar, em qualquer profissão, são seres humanos que atuam), mas tentar discernir o que subjaz a elas, esse é o ponto.

Certa feita, Jung afirmou que “O homem reconhece que toda grande verdade é simples. Aquele cujo instinto está atrofiado, imagina, por isso, que ela se encontre em simplificações baratas e trivialidades, ou, por outro lado, em razão de seu desapontamento, incorre no erro oposto de imaginar a verdade como algo infinitamente complicado e obscuro”. Convém indagar a razão de justamente os psicólogos se deixarem enredar por simplificações baratas (não todos, é claro, mas a tal mensagem se dirige a eles e através deles se espalha). Que necessidade há de lembrar que psicólogos são humanos? Ou de que eles não são “psicólogos” em festinhas e batizados? Se pensarmos com Jung, e levarmos em conta sua teoria mais basilar acerca do psiquismo e sua relação paradoxal entre consciente/inconsciente que se dá de maneira compensatória e/ou complementar, convém nos perguntarmos a quem realmente se dirige a mensagem óbvia de que psicólogos são seres humanos.

A essa altura, é importante nos lembrarmos em que tipo de sociedade vivemos, ou seja, que tipo de sociedade gera os psicólogos (uma sociedade apinhada de imposições coletivas, slogans, idéias, filosofias e informações, que possuem uma tendência, ou sempre podem conter o perigo de esmagar o sujeito), vivemos numa sociedade em que nossos grandes símbolos, nossa herança mais preciosa, encontra-se num lamentável estado de esvaziamento, como mera curiosidades históricas, ou abertamente aviltados, quando não, fanaticamente defendidos, e todo fanatismo é compensação de secreta dúvida interior. Esses grandes sistemas simbólicos – nossos mitos e religiões – indicaram para a humanidade o caminho do espírito e de nós mesmos por milênios, mas estamos todos, como gostava de afirmar Campbell, “em queda livre em direção ao futuro”, os grandes mitos perderam a força. O que isso diz respeito aos nossos psicólogos? Você pode estar se perguntando, se é que ainda continua lendo e não simplesmente relegou, aborrecido, esse curto ensaio e voltou a divulgar slogans pela rede mundial de computadores... Pois bem, Jung possuía uma teoria das mais interessantes para explicar o surgimento da psicologia científica no último quartel do século dezenove, esse surgimento estaria intimamente ligado a perda de eficácia, especialmente naquela pretensiosa península do continente asiático chamada Europa, do descrédito coletivo dos dogmas e religiões instituídas, especialmente a Igreja católica, Jung costumava adjetivar de “catástrofe espiritual” o advento do protestantismo, que despedaçou o dogma católico e sua unidade. O ocaso desses grandes e majestosos símbolos coincide com o surgimento da psicologia.

Ora, o psicólogo, e a psicologia assumem assim um papel destacado. Von Franz, com sua grande lucidez, afirmou certa feita que, no fundo, nossa psicologia científica não passa de “mitologemas explicativos” para as realidades inconscientes, e que para nossa era, são adequados devido a nossa mentalidade “científica”. O psicólogo, esse, desculpem-me a obviedade, “ser humano”, torna-se mutatis mutandis, esquálido sucedâneo para o clérigo e o Xamã. Acontece que esse lugar, pode ser facilmente confundido com a idéia arquetípica do salvador, aquele que tem as chaves para as portas do inconsciente. Certa vez, de maneira jocosa Jung proferiu conselho aos analistas “se é que existe um deus, lembre-se sempre, que ele não é você”. O lugar que ocupa o analista o torna presa fácil de inflação psíquica. Há ainda outro fator a ser levado em conta, para ser um analista, é preciso não apenas estudo (não me entendam mal, estudo é essencial e indispensável) é necessário igualmente um larga dose de coragem, compaixão, e, ter passado pelo processo de desenvolvimento da personalidade ele mesmo, ter queimado nas chamas dos afetos e do sofrimento que levam a mudança genuína, pois o analista só leva o paciente até onde ele mesmo foi. E existem casos, infelizmente não são raros, daquilo que Jung chamava de “neurose de identificação com a persona”, ao invés de uma personalidade madura, bem desenvolvida e relativamente estável, há apenas uma máscara, atrás da qual existe apenas sujeitos mesquinhos e pusilânimes, que são apenas “psicólogos”, ou seja, crêem ser portadores da dignidade que na verdade é algo coletivo.

O sol já raiou e estou aqui ainda acordado pensando sobre essa mensagem de facebook, bem mais curta, concisa e fácil do que esse modesto ensaio, que apesar de modesto, dificilmente terá o mesmo efeito que teve a tal mensagem, nem espero que tenha, do contrário terei fracassado em meu intento. Finalizo com a passagem que me animou a escrever, de M. L. Von Franz, e que, creio eu, os psicólogos deveriam ter em mente: “Quase sempre encontramos nas pessoas de hoje uma coleção de preconceitos filosóficos e pseudocientíficos-racionais oriundos do século XIX que, na verdade, já foram desacreditados pelos principais cientistas da nossa época. Elas assimilaram essas idéias na época do colégio e lendo relatos jornalísticos baratos: os sonhos não têm significado, ou são expressões do desejo sexual ; não existem fantasmas; já se ouviu falar no inconsciente, mas não é realmente verdadeiro; não existe nenhum efeito sem causa racional e palpável; basta que a pessoa seja razoável e tudo ficará bem; se a sociedade fosse concertada , tudo seria corrigido etc. Depois dessa variedade de preconceitos, o pior  e o mais difuso  é o pensamento estatístico aberto ou implícito: “O que eu faço não faz a menor diferença; sou apenas um grão de areia entre milhões de pessoas; minha existência é um acidente insignificante”. Essa estrutura mental é um veneno direto e mortal para a alma.

Se, os psicólogos sofrem tanto as imposições coletivas a ponto de se esquecerem dos fatos citados por Von Franz, e de não possuírem a força interior para resistirem subjetivamente a esse tipo de imposição, fortaleza essa que só vem do contato com o numinoso e do elemento religioso da alma, sem o qual realmente sucumbimos a massa ao sermos dominados pelos afetos, todos os que sofrem e precisam de psicólogos estão com sérios problemas...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

TRINTA E TRÊS

Esse mês completo trinta e três anos, nasci no ano de nosso senhor de 1978 no mês de dezembro às oito horas da manhã, ou no ano de 5739 no dia 17 de Kisvet, pelo calendário judaico, ou ainda no ano do cavalo de madeira, no mês do rato e na hora do dragão, pelo calendário chinês. Em todos os casos, faz trinta e três anos que por algum motivo, ou motivo nenhum, eu nasci.

Resolvi, por já estar vivo há um tempinho, escrever um balanço da minha vida, o que fiz de bom e ruim, e o que mudou e permaneceu desde o fatídico dia em que uma série quase infinita de causas e condições me colocou nesse mundo. Nada ambicioso como uma autobiografia, não, longe disso, no máximo uma “autocrônica”, se é que isso existe, se não, considerem o neologismo criado.

Talvez seja interessante falar primeiro um pouco do presente, afinal, eu me recordo bem melhor dele... Pois bem, fui casado – a rigor não fui casado, mas “amancebado” ou “junto” como minha ex sempre me lembrava com desgosto – foram, ao todo 14 anos de relacionamento, dos 16 aos 30, até ela me dar um “pé na bunda”, justo por sinal. Tive um filho, a melhor coisa que já me aconteceu, ele nasceu no mês seguinte ao que eu nasci, janeiro e se parece comigo fisicamente, quase um clone, e também psicologicamente, é um moleque inteligente e que gosta de livros. Seu nome é Ícaro, um nome grego, como o meu. Fazia questão que seu nome fosse grego, e, das duas listas que fizemos de nomes esse era a única coincidência. Muitos acreditam que meu nome, Heráclito, se deve ao fato de meu pai ser um historiador, ledo engano. Se dependesse dele me chamaria Domingos sina terrível que coube ao meu meio irmão Iago Domingos.

A história do meu nome é deverás interessante, é o nome do meu bisavô. Um dia eu estava sentado à mesa lendo enquanto almoçava e minha avó se dirigiu a mim nos seguintes “seu Heráclito, deixe para ler depois de comer seu Heráclito”, o que eu achei estranho pelo tom de subserviência e respeito, antes mesmo que eu formulasse qualquer pergunta ela disse “igual ao pai do seu avô, ele também só comia lendo”. Pois o fato é que, eu nasci num dia 17 de dezembro, quis o destino que fosse o aniversário de morte de meu bisavô, o pai do meu avô materno. Um italiano chamado Heráclito Limonge, de cabelos pretos e olhos muito azuis, bem apessoado e de ombros largos, que ao chegar ao Brasil junto da família, mudou seu sobrenome para Aragão. Ele era um homem de livros, sério e grave, comerciante de posses que viajava muito e falava vários idiomas. Meu avô, graças a deus, não permitiu a tal história do Domingos e me deu o nome de Heráclito em honra à memória de seu pai, pelo que lhe sou muito grato, pois o nome me cai bem.

Lembro que meu tio Nilo, irmão do meu avô, e que era um homem viajado, tendo sido da marinha de guerra – como o meu avô – e depois da marinha mercante, sempre utilizava imprecações em italiano, e ambos, ele e meu avô eram ferrenhamente anti-clericais, meu avô nutria um desprezo profundo pela igreja católica o que me rendeu ótimos momentos. Minha avó, apesar de ser de família marrana e benenucin (Carvalho), ela é tão católica quanto alguém pode ser, e nos fazia ir à missa aos domingos, eu passava a maior parte do tempo do lado de fora com o meu avô, que se recusava a entrar tomando picolé ou comendo pipoca, depois havia uma quermesse e algumas senhoras vendiam uma salada que me intrigou por anos a fio! Ao invés de ser feita de pedaços cortados retangulares de frutas, eram pedaços esféricos, e aquilo aguçava a minha curiosidade, nem podia imaginar como conseguiam fazer aquilo! Creio que toda a minha curiosidade científica deriva desse meu espanto diante dessa salada de frutas tão inusitada, e saborosa.

Tenho ainda outras lembranças interessantes da minha infância, eu aprendi a ler aos 4 anos, antes de ir para a escola, e a primeira coisa que li sozinho foi uma revista dupla do Tarzan e , virando-a ao contrário, era do seu filho barzan eu acho. Eu a sabia de cor e, mesmo hoje, se fechar os olhos consigo folheá-la em meu espírito. A história do Tarzan dizia respeito a um castelo medieval na selva, feito de madeira e não de pedras, e a outra, era sobre trabalhadores escravizados numa mina que eram salvo pelo filho do Tarzan. Mesmo sabendo ler, eu gostava que minha mãe lesse para mim e pedia que ela o fizesse, me recordo dela deitada numa rede, lendo com má vontade e pulando certas partes, e, como eu sabia a revista de cor, pedia que ela lesse também essas passagens “acidentalmente” omitidas. Minha mãe era professora e um dia, nas minhas férias, eu devia ter sete ou oito anos, ela me trouxe uma caixa de papelão, quase do meu tamanho, cheia de livros. Essa caixa ficou em um quartinho na parte de trás da casa dela, e eu passei as minhas férias inteira sentado ao lado dela, assim que terminava um livro eu pegava outro, li todos os Xistos no espaço e similares, lembro de uma história com duendes parecidos com os smurfs, e de uma história sobre peixes, pedras e plantas de um rio lutando contra uma fábrica poluidora.

Quiseram os deuses que, em minha casa houvesse um exemplar, que tenho até hoje, parecido com uma bíblia, com todos os livros infantis de Monteiro Lobato. Dos 8 aos 9 anos eu li tudo o que ele escreveu. Esse livro permanecia aberto no sofá da sala, na página em que eu havia parado e, assim que chegava da escola, largava minhas coisas em qualquer canto e me deitava e ia ler, os doze trabalhos de Hércules, o Minotauro, meu primeiro contato com mitologia, história e filosofia se deu graças a esse livro, graças a Monteiro Lobato, um dos poucos ídolos que tenho. Quando terminei de ler pela segunda vez, achei na minha casa uma versão ilustrada da bíblia, chamada bíblia para os jovens, ela era ilustrada com pinturas renascentistas que imediatamente me fascinaram, li todo o antigo testamento e, quando fui ler o novo, não tinha nem dez anos, eu achei chato e incompreensível, e posterguei sua leitura pelos próximos vinte anos.

Mas nem só de leituras foi a minha infância, aos seis anos minha mãe me matriculou no Judô. Minha mãe era uma ardorosa fã de Bruce Lee, devido a isso, quis que eu praticasse artes marciais, coisa que faço ininterruptamente desde os seis anos. Minha faixa azul (fiz 3 anos de judô) dava mais de três voltas na minha cintura. Lembro de um campeonato que participei, lembro de uma vez meu sensei conversar conosco sobre defesa pessoal (há época, e ainda hoje lembrando dessas palavras, acho o que ele disse bem bobo) lembro de adorar os saltos e rolamentos e de como minha mãe me atrapalhava nos treinos me chamando e dando tchauzinho a toda hora, e me recordo vivamente de uma vez em que meu sensei fingiu que eu o atingia com um golpe e saltou sobre a minha cabeça caindo estatelado do outro lado, ele parecia um gigante passando por sobre mim. Na minha adolescência, eu achei minhas antigas faixas, e percebi que devia ter sido um garotinho bem miúdo, minha faixa que dava voltas e mais voltas na minha cintura, agora que já era um rapazinho nem mesmo fechava na minha cintura, aquilo que espantou bastante.

Ainda criança, me recordo vivamente da morte de Tancredo Neves. Quando eu nasci, o Brasil ainda viva uma ditadura militar, o pior já havia passado e esse regime estava nos estertores de morte, que culminaram com as diretas e a eleição (ironicamente indireta) de um presidente civil de transição, Tancredo. Me recordo que a televisão transmitiu os rituais fúnebres do presidente, e eu me lembro vivamente de um rápido diálogo entre meu avô e meu tio Nilo (tio avô na verdade) o meu avô disse “se fosse o Maluf, ao invés de estarem chorando estariam soltando fogos”, levei quase uma década para começar a compreender isso. Na minha infância, vivíamos sob a sombra de uma inflação galopante, herança das políticas econômicas do senhor Delfim Neto, e presos a uma dívida externa tida como impagável, que nos mantinha em genuflexão permanente diante do FMI. Meu avô tinha três empregos, ele era radiotelegrafista, uma profissão que não existe mais, e todos os meses fazia compras para o mês inteiro, às vezes para mais de um mês, eram fardos de muitos quilos de arroz, açúcar, sal, feijão, tudo comprado em enorme quantidade, pois o preço subia mais rápido que o salário, e mudava de um dia para o outro. Vi a moeda mudar muitas e muitas vezes, cruzeiro, cruzado, cruzado novo, unidade real de valor, real. Tenho lembrança de uma conversa entabulada na segunda série com um colega chamado Daniel Teófilo, disse a ele que minha mãe ganhava um milhão de cruzeiros – um milhão, nos filmes americanos era muita grana! – mas ambos dissemos quase ao mesmo tempo que, apesar do número chamativo, aquele valor não significava nada, e não comprava muita coisa. Naquela época, ganhava-se muito dinheiro com a poupança, e bancário era uma profissão e tanto, era gente de muitas posses, pois os bancos lucravam rios, ou melhor, oceanos de dinheiro com a miséria alheia. Quando a inflação foi finalmente contida, essas pessoas que viviam na bonança tiveram suas vidas arruinadas, conheci vários deles.

Minhas memórias estão sempre se voltando para os meus avós maternos, não é ocioso explicar o motivo disso. Quando eu tinha seis anos de idade meus pais se divorciaram, e só voltei a ter algum contato com meu pai cerca de onze anos depois. Para não ser injusto, acho que nesse período eu o vi umas duas vezes, me lembro bem de uma delas, era dias dos pais e eu tinha feito uma lembrancinha no colégio para dar para o “papai”, calhou que ele estava lá, na casa da minha mãe e ficamos sozinhos por uns dez minutos e eu entreguei o presente, até hoje me espanta a frieza e insensibilidade que ele demonstrou, simplesmente agradeceu e me devolveu o presente. Quem me criou, na realidade, foram os meus avós maternos: Hermengarda e Aragão. Quando era bem pequeno, talvez até mais jovem do que o meu filho é hoje, eu tinha uma doença que me fazia ser hospitalizado sempre, minha mãe diz que se chamava “crise de garganta”, sabe-se lá deus o que é isso. Me lembro vivamente de uma dessas internações, estava muito fraco, vestindo um pijama vermelho xadrez e me colocaram num carro para ir ao hospital, me recordo também, e essa é talvez a memória mais marcante da minha infância, que estava no hospital, numa dessas internações e acordei no meio da noite, estava faltando energia e tudo estava escuro como breu. Chamei pelo meu pai, mas a voz que veio da cabeceira da cama foi a do meu avô, ele sempre esteve lá quando eu precisei, e meu pai não foi mais do que uma ausência.

Quando meu filho teve que se submeter a uma pequena cirurgia, em virtude de uma hérnia comum em crianças, eu fiz questão de que, quando ele abrisse os olhos, eu estivesse lá, que eu fosse a primeira pessoa que ele veria. Queria ser como o meu avô e não como o meu pai. Ironicamente, quem me fez ver que meu pai verdadeiro fora meu avô, foi meu pai biológico. Estávamos em meio à campanha para deputado estadual e chegamos cedo para um café com sabe-se lá deus quem, o local estava deserto e começamos a comer, estávamos só nós dois, os seguranças ficaram do lado de fora. Para puxar conversa ele me perguntou “como está o seu pai?”, anos de estudo de psicologia me fizeram pegar o ato falho na hora, ao invés de me chatear, o que seria normal, pontuei “quem? O senhor?”, “não”, insistiu ele “o teu pai, como ele está”. Eu já sabia que ele estava perguntando sobre o meu avô, mas insisti “você está bem na minha frente”, “não” prosseguiu ele em sua inconsciência, “o teu pai”, “está falando do meu avô Aragão?” ele fez um prolongado silêncio e encarou pateticamente o vazio e depois disse “sim, sim, o seu avô, como ele está”, “meu avô morreu pai” respondi a ele.

Meu pai de mentira, ou biológico se preferirem, é uma figura interessante, doutor em história, professor da UFC, vice-governador e por aí vai. Por muito tempo me senti oprimido por ele, no sentido que ele representava algo que eu deveria ultrapassar para não ser mais um medíocre. Na faculdade, cursei história na UFC, as pessoas associavam meu sucesso acadêmico ao fato de ser filho dele, o que me aborrecia, meus amigos faziam troça desse fato. Ao mesmo tempo, me deixava satisfeito quando algum professor comentava “nossa, você fala melhor do que o seu pai” ou “você escreve bem melhor do que ele”. Durante a época da campanha eleitoral nos reaproximamos, e trabalhei arduamente para ele, sem receber um vintém. Por essa época descobri que ele não passava de um homenzinho fraco, covarde e pusilânime, me senti um pouco desapontado e confuso, mas ao mesmo tempo aliviado. Nunca houve competição de nenhum tipo, ou meta externa a ultrapassar, como na parábola budista da pessoa que se assusta ao ver uma corda e pensa tratar-se de uma cobra. Também me fez ver, que a realização humana não se limita a realizações exteriores, a títulos e posses, Buda teve tudo isso e abriu mão justamente para se realizar. Foi estranho perceber que tudo o que a minha mãe tinha me dito durante todos esses anos era a mais pura verdade, e não simplesmente veneno e mágoa. Meu pai de mentirinha não passava de um egoísta, interesseiro, sem escrúpulos e um sepulcro caiado. Ele é um ótimo político para os padrões brasileiros, além de tudo é preguiçoso e incompetente.

Certa feita, tive uma conversa com meus alunos, quando ainda lecionava no segundo grau, quando eu era meninote não existia internet, e só existiam telefones fixos que custavam muito caro, e os telefones públicos eram realmente necessários. Eu vi surgir os videogames, tive um atari e um odissey (o único com teclado alfanumérico), vi surgir a fita VHS e a era de ouro das locadoras (hoje feridas de morte pela internet e TV a cabo), presenciei o surgimento do CD, estava no ensino médio nessa época, e parecia algo sensacional! Ainda meninote tive um CP400, um computador sem tela (ligava na TV), sem HD (grava-se em fitas cassete), sem sistema operacional (qualquer coisa tinha de ser programada em Basic), muito antes do DOS. Vi surgir os Pcs, o DVD (uma gravadora de DVD custava uma fortuna!), vi os primeiros celulares, os velhos “tijolões”, e o aparecimento da TV a cabo. Antes da internet, ser fã de animes era muuiiito difícil, me recordo dos amigos que tinham coleções de fitas VHS com animes, qualquer um servia, pois era uma dificuldade para encontrar. Logo que chegou a internet, ela era discada, e vivia caindo. Existiam até mesmo programas que eram “discadores” para vc não ter que se dar ao trabalho toda a vez. Vi os disquetes, hoje extintos, inclusive os Floopy disc, que mofavam. Era uma trabalheira instalar o Windows com 24 disquetes, e quando um falhava? Em minha curta vida presenciei muitas coisas, a queda do muro de Berlim e o fim da URSS, o fim de uma era. Revoluções no mundo digital e das comunicações, revoluções de costumes entre outras. Mas se descobri algo nessa minha curta vidinha, é que o que nos faz humanos nunca muda.

Meu fascínio por mitologia vem de longa data, e, mais ou menos aos 9 anos, eu adorava ler sobre os deuses e deusas egípcias, e me perguntava como as pessoas podiam acreditar naquele tipo de coisa (anacronismo aos nove anos tá valendo), por acaso, enquanto me perguntava eu via pela TV uma reportagem sobre romarias e devoção popular e algo me disse, “cara, tá vendo isso, é a mesmo coisa, ao invés de deuses egípcios, santos”, foi uma descoberta e tanto para mim naquela idade. Isso permaneceu fermentando no meu espírito até que abandonei a faculdade de veterinária (história para outro dia) e fui fazer história. Faltei a primeira semana de aula, pois estava acamado, e meu amigo Filipe Jesuíno me emprestou um livro, que ironicamente ele não lera ainda “as máscaras de deus: mitologia primitiva”, esse livro mudou a minha vida para sempre. Pouco tempo depois, meu irmão mais novo ingressou no curso de psicologia e meu amigo Filipe emprestou a ele “O Homem e seus símbolos” de C. G. Jung, isso deve ter sido em 2000 ou 2001. Ele nem leu, deixou por ali jogado, eu como leitor compulsivo que sou, li, novamente minha vida estava modificada para sempre... Isso me lembra a lenda sobre como conheci o Filipe (ele nega), tínhamos 14 ou 15 anos e estávamos na casa de um amigo comum Adriano, vulgo Maclarry, e sobre a cama do quarto dele estavam várias revistas de mulher pelada, eu olhei para uma das capas e perguntei “essa é a chicholina?” ao que ele respondeu “não, é não”, “tem certeza?” insisti “tenho sim, a chicholina eu reconheço de longe”, veja como surge uma bela amizade, sob os auspícios de uma atriz pornô do leste europeu.

Já escrevi muito, e ainda poderia falar sobre muitas outras coisas, meu tempo de colégio, meus treinos como artista marcial, meus estudos, a faculdade o mestrado, muita coisa, mas sinto que por hora chega, senão deixa de ser uma “autocrônica”. Minha professora de budismo, a venerável bikkuni Anizamba Chozom, sempre me admoesta a falar da minha própria experiência, das minhas emoções, do que eu penso, e não sobre Aristóteles, Jung, Freud ao algo do tipo. Bom, estou tentando, se estou conseguindo ou não, deixo a pergunta em aberto, como disse certa vez uma pessoa que gosto e respeito bastante, meu amigo Ken, “a resposta é a traição da pergunta”, talvez ele esteja certo...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A Perspectiva Jungiana da interpretação de sonhos

Esse texto foi escrito por mim há pouco mais de seis meses como um exercício de interpretação e utilização do método Junguiano. A pessoa que forneceu o sonho não é identificada de nenhuma maneira no escrito que se segue. Compartilho o texto como uma forma de partilhar minha visão acerca da Psicologia Moderna.


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A perspectiva de Jung, no que concerne a interpretação dos sonhos, difere grandemente da de Freud, apesar de ambos considerarem o sonho a “via regia” de acesso ao inconsciente e uma ferramenta importante na prática clínica.

Jung jamais criou uma teoria da interpretação de sonhos, esquemática e intelectualizada, para ele cada sonho tinha sempre que ser visto como um evento novo e espantoso e visto com o menor número de preconceitos possível, mais de uma vez em seus escritos ele repete que se deve aprender o máximo possível de teoria e de amplificações mitológicas e que no momento de se defrontar com um paciente em análise ou ao lidar com seus sonhos, deve-se o máximo possível esquecer a teoria. Além disso, diferente de Freud para quem o sonho era sempre “o guardião do sonho” e sempre “uma realização de um desejo inconsciente”, o sonho não era, nem poderia ser tão limitado. Para Jung a estranheza das imagens oníricas não justificava a interpretação Freudiana de que haveria uma censura capaz de transformar os pensamentos oníricos latentes em uma fachada que era o conteúdo manifesto, Jung divergia completamente dessa tese. Freqüentemente ele citava um velho ditado árabe “o sonho é a sua própria interpretação”. Assim como ao nos depararmos com um texto em grego, não precisamos teorizar que sua estranheza em relação ao português se deve a algum mecanismo de censura, esse texto apenas está em uma outra língua. O idioma nativo do sonho é o idioma do inconsciente, com suas imagens espontâneas da imaginação de caráter simbólico.

Ainda assim, Jung possuía uma teoria basilar em sua arte de interpretar sonhos. Todos os sonhos são fenômenos naturais, espontâneos e que provêm do inconsciente e possuem uma função compensatória ou complementar a consciência. Os sonhos estabelecem um diálogo entre nossa consciência e o fundamento profundo de nosso ser, a estrutura inconsciente que é a origem, a matriz a partir do qual o eu e a consciência do eu se originaram. Para Jung o inconsciente é anterior, simultâneo e posterior a consciência.  O complexo do eu, possui uma posição especial na nossa constituição anímica, na hierarquia dos complexos ele possui o afeto do corpo (para escrever esse texto eu penso e meus dedos respondem a minha volição), além disso, ele possui uma energia psíquica, ou um quantum dessa energia a sua disposição: à vontade, resultado de um longo processo histórico de desenvolvimento da consciência e incutido em nós e exercitado através da educação. Esse eu, apesar de sua posição especial na hierarquia dos complexos, compartilha da qualidade mais geral de nossa psique que é a sua qualidade de dissociação, o complexo do eu é altamente compósito e variado, num momento lembramos com clareza de um nome, mas no instante seguinte nos é impossível recordar esse mesmo nome de que lembrávamos há pouco.

A consciência se caracteriza por ser unilateral, ela funciona pelo circuito energético de direção/seleção/exclusão. Sua unilateralidade possui como fim a especialização com finalidade adaptativa. Todavia, a estreiteza da consciência é compensada pela vastidão e não especialização do inconsciente. Os sonhos muitas vezes corrigem atitude da consciência ou as espelha de maneira impessoal para permitir uma possibilidade de reflexão e auto-conhecimento. Nesse sentido, mesmo fora de um processo de análise, os sonhos nos permitem um diálogo objetivo com esse espírito que tece nossos sonhos e fantasias e que nos mostra a nós mesmos como somos, sem rodeios ou ilusões, e algumas vezes com rara ironia e humor.

Na perspectiva de Jung, podemos interpretar os sonhos como se eles fossem um drama pessoal em que somos todos os elementos do sonho, como se numa peça fôssemos todos os atores, o contra regras e o diretor. É isso que é chamado de interpretação a nível do sujeito. Dessa forma interessam as amplificações fornecidas pelo sonhador, que vão esclarecendo aos poucos os simbolismos pessoais das imagens oníricas e que o analista devolve a ele no diálogo que caracteriza a terapia. Todavia, muito freqüentemente os sonhos se referem a pessoas outras que não nós mesmos, de maneira concreta e não como uma alegoria para algo em nossa alma, outras vezes apresentam caráter prospectiva ou, mais raro, caráter premonitório. Também não raro, os sonhos apresentam uma mensagem cujo valor não se restringe a esfera pessoal, mas que possuem validade geral e falam a condição humana, não a um indivíduo em particular.

Isso se explica pela existência do que Jung chamou de psique objetiva, o “inconsciente profundo” ou inconsciente coletivo, a base estrutural sobre o qual surge nossa alma como fenômeno observável. Daí ser possível um segundo tipo de interpretação dos motivos oníricos, chamado de interpretação a nível do objeto. Essas duas modalidades de interpretação não são mutuamente excludentes, ao contrário, complementam-se.

O sonho a ser interpretado


Os sonhos apresentados aqui são de uma mulher jovem, bonita e invulgarmente inteligente. Além disso, singularmente energética e ativa. Os sonhos apresentados por ela possuem a característica de serem recorrentes. Em geral, sonhos se repetem quando sua mensagem compensatória ou complementar não foi compreendida pela personalidade consciente. O estudo ou a interpretação dos sonhos não é apenas um passatempo intelectual ou uma curiosidade, mas possui uma orientação extremamente prática. O trabalho com o simbolismo onírico serve para que a consciência possa assimilar moralmente os conteúdos inconscientes ou possa tornar conscientes certos processos que de outra forma seriam inconscientes. É importante salientar que mesmo o termo inconsciente possui uma utilidade prática, ele significa aquilo que eu não sei. Por exemplo, não faço a menor idéia do que existe dentro do meu teclado de computador ou como ele funciona, logo isso me é inconsciente. Boa parte de nossas ações, impulsos, ou desejos, se afiguram a nós da mesma maneira que os sonhos, a consciência não os produz ou controla, apenas sofre seus efeitos. A finalidade última é a transformação da personalidade, metanóia que só pode acontecer através do auto-conhecimento, e que como se dá em âmbito moral, não pode ser levada a cabo em termos meramente ou exclusivamente intelectuais, mas também em termos da função sentimento. Não há mudança ou transformação genuína sem se passar pelo fogo da emoção e do sofrimento.

O primeiro sonho:

A sonhadora está na casa em que viveu na infância, ela está no quintal, na parte de trás da casa, numa pequena construção que se situava nos fundos, uma casinha com uma porta sala, janela e banheiro e ali ela se vê acossada por duas enormes najas com seus capelos abertos que a perseguem. Tomada de grande pavor ela se refugia na casinha e fecha a porta. Enquanto tentam forçar passagem pela porta as duas serpentes latem de maneira ameaçadora e tão alto que toda a construção treme.

A esse sonho a sonhadora acrescentou a seguinte amplificação. A tal casinha que ficava nos fundos da casa de seus pais ficava próxima ao muro da casa vizinha que pertencia a sua tia, e que lhe inspirava grande temor, e da qual ela não se aproximava sozinha por temer que algo de ruim viesse a lhe acontecer. Seu primo que ali vivia morreu devido a um afogamento, o que aumentou seu temor de se aproximar do local, em especial uma espécie de sótão que havia ali.

O par de najas surge no sonho com papel de destaque, a elas está associado um grande temor, a que a sonhadora acrescentou que em sua vida vígil também possui um medo desses animais peçonhentos, ao mesmo tempo, costuma se definir como “uma cobra” (devido ao seu mau temperamento). Nos mitos as serpentes desempenham um papel de grande destaque e seu simbolismo é vasto, segundo Von Fraz o material de amplificação relativo às cobras pode ser dividido em sete aspectos:

1- um espírito telúrico (por exemplo, a serpente de Midgard, inimiga dos valares, os deuses superiores da mitologia germânica e que era filha de Loki – deus das trapaças e do fogo – e que circundava toda a terra e devorava sem parar as raízes de Ygdrazil a árvore do mundo).

2 – como a alma de um herói morto, um demônio sepulcral (a cobra saindo dos corpos dos motos como vermes, imagens de cobras nos túmulos com um ovo, como símbolo de renascimento).

3 – como genius loci (o genius loci de Atenas, Cecrops, vivendo na acrópole; também o rei Erechtheus, que quando bebe foi encontrado numa caixa, enrolado em cobras, o rei meio serpente da ilha se Salamia, Kychreus, que de acordo com as lendas apareceu para encorajar os gregos na batalha de Salamia).

4 – como um daimom positivo e curador (a cobra de Esculápio, o cajado de Aron).

5 – um animal mântico, inspirando profetas (em contos de fadas comer serpentes permite as pessoas saber o futuro ou entender a fala dos animais e pássaros; Siegifried ao provar do sangue do Dragão Fafnir adquire o dom de entender os pássaros. O vidente Melampus possuía uma cobra em seu escudo. No oráculo de Delfos a sacerdotisa era a “pitonisa” – píton – pois acreditava-se que o local era habitado por uma serpente).

6 – como a mãe em seu aspecto negativo (a cobra de Hecate, o demônio feminino da terra; também o Phyton, inimigo de Apolo, ou Echidna, meio mulher e meio serpente, ou Gaea, inimiga de Hércules).

7 – como um símbolo do espírito (Philo de Alexandria diz que a cobra é “o animal mais espiritual imaginável, pois é rápido como a pneuma, não possui pés nem mãos, vive muito e muda de pele i. e. se renova. No simbolismo alquímico assim como nos mistérios de Osíris e Sabazios era um símbolo de auto-renovação. Na Yoga Kundalini ela é a “enrolada” a serpente que repousa na base da coluna e quando ativada se ergue pelo canal da espinha ativando todos os chakras).

A serpente é um símbolo extremamente paradoxal, pois como espírito telúrico que é inimiga dos deuses e um demônio da terra, ela representa o instinto. Como o “animal mais espiritual imaginável” representa o espírito. Jung coloca a vida anímica como uma tensão entre dois pólos extremos, o par funcional instinto e arquétipo, que são os elementos do espírito. Ambos, arquétipo e instinto estão unidos no fluxo vital, inseparáveis. Este é o paradoxo representado pela serpente o instinto e o sentido espiritual do instinto.

No sonho em questão temos duas serpentes que perseguem a sonhadora num ambiente que remete a sua infância, a casa dos pais, lugar onde se está sob a influência psíquica das figuras parentais. Na infância todos nós vivemos em larga medida em um estado de identidade arcaica com nossos pais. O fenômeno da identidade arcaica, significa uma igualdade psicológica e é sempre um fenômeno inconsciente, e que é o fundamento da participation mystique, resíduo da primitiva indiferenciação psíquica entre sujeito e objeto. Logo do estado inconsciente primordial. Esse estado também caracteriza a primeira infância e o inconsciente do adulto civilizado. Este, na medida em que se não tiver tornado um conteúdo da consciência permanece preso a um estado de identidade com o objeto.

Isso significa que temos uma quase ilimitada mistura de nossa subjetividade na imagem que formamos do mundo. O termo arcaico é utilizado por Jung, pois essa é a condição original do homem, ou seja, um estado em que vemos e sentimos todos os processos psíquicos como algo exterior a nós mesmos. Bons e maus pensamentos são espíritos, afetos são deuses, estar apaixonado significa estar enfeitiçado e por aí vai. Projeções são socialmente perigosas, e terrivelmente perturbadoras, mas possuem um sentido e uma função. Existem certos processos inconscientes dos quais só podemos nos tornar conscientes através das projeções. Boa parte do trabalho analítico consiste em auto-conhecimento, pois não há transformação da personalidade sem auto-conhecimento, e isso significa, em termos psicológicos, a assimilação moral de certos conteúdos do inconsciente.

O fenômeno da projeção está associado à qualidade da nossa psique de se dissociar, pois aparentemente nossa psique é formada por vários complexos separados que se unem para formar uma individualidade. Além disso, ao se referir ao inconsciente, Jung reiteradas vezes afirma que “todo inconsciente é projetado”. Além das informações sensoriais que nos são transmitidas pelos sentidos, existem sempre influencias psicossomáticas internas que influenciam a maneira como experimentamos o mundo. Todavia, o fenômeno da projeção possui um escopo bem mais restrito, ele está relacionado ao fenômeno mais geral daquilo que Jung denominou de identidade arcaica. Só é considerada uma projeção, em termos junguianos, quando existe um sério distúrbio de adaptação. A interpretação dos sonhos é a assimilação de seus conteúdos pela consciência, com sua conseqüente ampliação, é uma das maneiras de “retirada de projeções”, da atuação compensatória ou complementar do inconsciente agir sobre o eu.

No sonho temos duas serpentes, mais especificamente duas najas de aspecto terrível. Há um paralelo interessante na mitologia grega no mito de Héracles (Hércules). Filho de Zeus e da mortal Alcmena, a mais bela mulher de seu tempo, Hércules foi fruto de uma artimanha de Zeus que assumiu a forma de Anfitrião (esposo de Alcmena) que havia saído para uma batalha. Depois que o deus deixou o leito, Anfitrião retornou e tomou uma segunda vez sua esposa naquela noite. Dessa noite nasceram duas crianças gêmeas, Hércules filho do deus e Íficlis, filho do mortal Anfitrião. Furiosa com a indiscrição de seu marido divino, Hera enviou duas serpentes para matar o menino recém nascido, mas o jovem Hércules as estrangulou com facilidade, enquanto Íficlis fugiu chorando. Hércules seria doravante perseguido por Hera que lançou sobre ele todo o tipo de armadilha, obstáculo ou desafio para matá-lo.

Hera, como símbolo do complexo materno negativo, na história de Hércules, sempre o perseguiu e atormentou, até sua morte. O complexo materno em si não é nada de anormal – Dante foi guiado até o paraíso por Beatrice, como uma figura materna. Ele significa uma estrutura interna de nossa alma que pode ser vivida de maneira positiva ou negativa. Os nossos instintos, não apenas a sexualidade, são os fundamentos vitais, as leis da vida de modo geral. A criança vive em um estado de semi-inconsciência, um estado de profunda identidade arcaica com seus pais, nesse sentido a criança parece ser incapaz de diferenciar seus próprios instintos da vontade de seus pais, pois sua consciência ainda é insipiente. A distinção, a capacidade de selecionar e excluir, de diferenciar é qualidade funcional da consciência por oposição ao inconsciente. A conseqüente incapacidade de discernimento faz com que os animais, que como discutimos anteriormente representam os instintos, sejam de maneira simultânea atributo dos pais e que os pais apareçam em formas de animais.

O inconsciente responde de maneiras compensatórias as disposições e atitudes da consciência. Por esse motivo, a maneira como essas figuras se apresentam dependem da atitude consciente. Uma atitude negativa para com o inconsciente gestará animais assustadores, uma atitude positiva engendrará o contrário, animais prestativos. Além desse fator, temos a atitude com relação aos pais. Uma atitude excessivamente carinhosa com os pais, dos quais estes participam de forma decisiva, é geralmente compensada com o surgimento de animais assustadores que correspondem aos pais.

Essas duas cobras possuem uma característica especial, elas latem como cães. Aqui nos deparamos com o igualmente rico simbolismo do cão e que reforça a ambigüidade e o aspecto paradoxal da imagem da serpente no sonho. Segundo Von Franz.

Na antiguidade o cão estava associado ao lado escuro da lua, ligado a deusa Selene (a lua). Assim como a Artemis, a deusa do nascimento, que levou Acteon a uma morte sangrenta e trágica, despedaçado por seus cães de caça devido ao mortal tê-la visto se banhar. Durante a noite, segunda as lendas, a deusa Hécate podia ser ouvida uivando como uma matilha de cães. Cerberus, o cão de três cabeças que guardava a entrada para o tártaro, era o filho de Echidna, a filha de Gaia (a terra) e Typhon, metade mulher metade serpente. Seus outros filhos eram a quimera, Scylla, a górgona (Medusa e suas irmãs Esteno e Euríali), o cão monstruoso do gigante Gerião, Ortro, que foi morto por Hércules. Foi com esse Cão Ortro que Echdina, em incestuoso coito, deu origem a Esfinge.

O cão aparece nos mistérios de Mitras, como um dos animais que salta sobre o touro moribundo, a morte de Mitras em sua forma de touro é um momento de grande fertilidade. Na época de maior calor do verão, quando as pragas ameaçavam se espalhar, cães eram sacrificados a Hécate. Isis, a deusa egípcia, cavalga sobre um cão. Kyon, o cão estava associado à gestação. O cão, no simbolismo mítico, pertence à deusa mãe.

O cão estava igualmente associado à Asclépius (deus da medicina, em seus templos praticava-se um ritual de levar o enfermo a sonhar para se recobrar de seus males) na antiguidade. No Egito, Anúbis o deus com cabeça de chacal auxiliou Ísis a recolher as partes do corpo esquartejado de Osíris, que foram encontradas, menos o seu falo que foi devorado por um peixe. No ritual funerário egípcio os cães participavam como sacerdotes de Anúbis (o guia dos mortos – psicopompo). Na Pérsia os cadáveres eram jogados aos cães como alimento. Igualmente, um cão era levado à cabeceira da cama de um moribundo para que ele o alimentasse, assim os cães poupariam seu corpo, assim como Hércules deu biscoitos de mel a Cérberus para atravessar para o mundo dos mortos. É freqüente existirem pequenas estátuas de cães em túmulos ou em lápides. Na mitologia Azteca um pequeno cão amarelo guiava os mortos em sua última jornada.

Para a análise desse sonho em particular é interessante notar que em algumas descrições de Cérberus em lugar de sua cauda ele possui uma serpente peçonhenta. O motivo do cão também está presente na filosofia gnóstica. O logos no Cristianismo também é representado por um cão, gentil para os que o aceitam e feroz contra seus inimigos. No simbolismo alquímico os cães indicam o início da transformação: são um símbolo da prima-materia. Mas, psicologicamente, o cão representa o contato humano ideal com seus instintos.

Temos aqui indicações importantes para analisar a imagem do sonho. A imagem de um sonho normalmente é uma representação simbólica do estado psicológico do sonhador naquele momento. As serpentes latem como cães, há um indicativo de que poderia haver a possibilidade de transformação através do confronto com o aspecto inconsciente e não desenvolvido do instinto na forma da serpente, indicando uma tendência a maior espiritualização, mas a consciência se recusa a participar desse processo, pois foge apavorada e se tranca na casinha.

A casa normalmente surge com símbolo do próprio corpo, e também como símbolo da personalidade e de suas possibilidades. Jung freqüentemente sonhava que descobria novos compartimentos em sua casa, todos mais antigos e remontando a eras passadas, muitas vezes áreas subterrâneas, indicando suas possibilidades de ampliação de sua personalidade através da exploração do inconsciente. A sonhadora está presa na casa de seus pais, ou seja, presa a um estado infantil. A libido não consegue progredir e se direcionar a outros objetivos, presa a identidade arcaica com os pais e a infância. Ela está trancada numa casa extremamente pequena, não tem acesso a casa maior ou ao quintal, lugar de lembranças prazerosas de usa infância. Sua personalidade torna-se restrita aquele espaço confinado, sua única possibilidade seria sair e enfrentar as cobras, mas isso não ocorre, o medo a paralisa.

O quadro desalentador de diminuição do escopo da personalidade empírica simboliza o que Jung chamou de perda de alma, quando boa parte da libido consciente se perde para a esfera dos complexos inconscientes, limitando a liberdade do eu em relação a esses complexos e tolhendo seu campo de ação. O sonho prefigura o estado de depressão pelo qual a sonhadora realmente passou, mas do qual felizmente se recuperou. A casa diminuta também está associada à morte e ao medo da morte. A possibilidade de transformação da personalidade muitas vezes é sentida pela personalidade consciente como algo terrível e simbolizada como morte (para posterior renascimento como aparece no simbolismo da serpente), ambos os animais são guia espirituais, mas encontram-se separados da sonhadora, que incapaz de assimilar moralmente sua mensagem, se tranca num espaço confinado e claustrofóbico.

A sonhadora relata também ter freqüentes sonhos em que está em meio à água suja, ou turva e que são imagens que trazem grande angústia. Tendo em mente sua associação com o afogamento, temos um forte indício da relação conflituosa com o inconsciente, o que leva a separação, ou cisão que acarreta a depressão, pois a atitude da consciência vai se tornando cada vez mais unilateral sem a possibilidade de renovação de vida trazida pelo diálogo com as forças obscuras da alma. Campbell usa a metáfora de que o místico “nada nas mesmas águas em que o neurótico se afoga”, aqui a atitude consciente para com o inconsciente é de fundamental importância. Lembrando que o simbolismo da água, como fonte e matriz de toda a vida, tanto na mitologia persa, quanto grega e Hindu, reforçam sua ligação com a esfera inconsciente. Lembrando as palavras de Heráclito: ψυχηισιν θάνατος ΰδωρ γενέσθαι, ΰδατι δε θάνατος γην γενέσθαι, εκ γης υδωρ γίνεται εξ ΰδατος δε ψυχή. “É mortal para a alma se tornar água, e é mortal para a água se tornar terra, água vem à existência saindo da terra e almas saídas da água”. Dito em termos psicológicos: o eu se origina das matrizes inconscientes por um processo de diferenciação, mas se identificar com elas, com a matriz inconsciente significa tornar-se indiferenciado, idêntico ao inconsciente, ao caos primevo, usando a dramática, porém precisa expressão do sábio de Éfeso: significa morte!

A assimilação moral dos conteúdos do inconsciente não significa identificar-se com eles, ou simplesmente compreendê-los. O temor dessa identificação, dessa morte anímica, paralisa e aprisiona a sonhadora. A sonhadora é dotada de grande capacidade intelectual e sólida formação acadêmica e humanística, sendo bem provável que ao se deparar com as amplificações objetivas do simbolismo de seu sonho fosse capaz de realizar o trabalho filológico e ao menos em parte, ter podido assimilar um pouco da mensagem do sonho evitando ou amenizando ao menos o sofrimento neurótico por que passou. Mesmo assim, para a compreensão ampla dessas imagens, a função sentimento é indispensável e nesse aspecto o início da transformação psicologia indicado pelo sonho seria uma irrupção da função inferior, o sentimento, o que seria sentido como um chamamento, possessão ou profunda desorientação, mas que levaria ao estabelecimento de uma personalidade mais ampla e bem ajustada, com o preço do sacrifício da função superior (pensamento) no caso do engajamento consciente no processo de individuação em seu estado mais avançado. O que em seus estados iniciais pode ser sentido como grande angústia.

O problema da relação da sonhadora com seus guias espirituais, seus dois animais xamânicos, pode ser compreendido também em termo míticos: a recusa ao chamado a aventura, o que leva a se viver na “terra devastada”. Aqui faz-se necessário uma profunda coragem para se abrir a influência do inconsciente e uma mudança de atitude em relação a ele para que a personalidade se abra a mudança. Toda vida humana se depara com obstáculos e sofrimento de muitos tipos, toda vida humana sem exceção. Campbell reforça que uma das funções do mito é a chamada função mística, a de nos ajudar a apresentar o sentido do assombro e mistério diante do universo. O mundo é um lugar terrível, uma grande bagunça onde vida se alimenta de vida, mas mesmo assim, esse aspecto do mito nos ensina que ele é a “lótus dourada da perfeição”. O mundo é o que é e sempre foi: uma grande bagunça, aceitar isso, em vários sistemas míticos, é o começo da verdadeira sabedoria. Conseguir enxergar Bhrama, a energia da consciência viva, cósmica e universal do qual somos meras manifestações em todos os fenômenos, mesmo naqueles que nos parecem desagradáveis ou brutais. O que significa que o mundo permanece o mesmo, mas nossa atitude em relação a ele muda. Importa menos os objetos, mas a forma de apetecer. O terror paralisante e o medo dão lugar ao sentimento de que tudo a nossa volta aponta para o transcendente, para Bhrama. Em nossa alma estão as sementes de nosso desenvolvimento e nosso destino, o plano que nosso espírito tem para nós e que se manifesta em nossas vidas, sem isso, sem o contato com esse espírito que nos envia os sonhos à noite nossa vida murcha.

Nenhuma mudança é fácil, no simbolismo da alquimia, uma das fases da transformação da prima-matéria é o nigredo, a putrefação, onde o velho deve ser dissolvido para que o novo possa surgir. Assim como está nas escrituras. “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?”.

Assim igualmente nas sagradas escrituras “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preservá-la-á para a vida eterna”. O sentido psicológico dessas passagens diz respeito à possibilidade de transformação que aludi aqui. Possível, mas não fácil, mas a via está aberta a todos que desejam com sinceridade trilhá-la.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

kung fu panda legends of awesomeness!!!!!




Ótima notícia para os fãs de desenhos animados, o sensacional Kung Fu Panda transformou-se em uma série televisiva. A animação é feita de maneira similar aos filmes, com computação gráfica, e os roteiros são mais leves e simples que os filmes, sem as nuanças psicológicas dos dois filmes, ou suas sutis referências ao budismo e aos milenares conhecimentos do Kung Fu. Mesmo assim essa nova série, além de extremamente divertida e engraçada, consegue de maneira suave transmitir boas mensagens, como o incentivo a leitura e a paciência no hilariante episódio em que Po estuda os pergaminhos do Kung Fu, para citar apenas um exemplo.

As historias se passam no período de tempo transcorrido entre o primeiro e o segundo filmes, e mostram a rotina de treinos e aventuras de Po como o "Dragon Warrrior". Vários novos personagens e vilões aparecem, alguns são recorrentes, como a desajeitada gangue de crocodilos ladrões, ou o Javali Dau Dai. A relação de Po com Shifu e os Cinco Furiosos é explorada e fonte de inúmeras piadas e situações interessantes. 

O primeiro vilão a aparecer na série é uma escorpião com poderes de controle da mente, as cenas de luta são boas, mas bastante inferiores aquelas mostradas nos filmes, e os personagens são representados de maneira bem mais caricata, mas mesmo assim vale a pena conferir e esse novo desenho é garantia de boas risadas.







quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Sobre a Morte

Recentemente, o pai de um amigo faleceu, e, como se trata de uma boa alma esse amigo, sua dor despertou a compaixão e preocupação daqueles que são próximos a ele. Certamente me incluo entre aqueles que foram tocados pela dor desse amigo, mas não sou muito bom em expressar meus sentimentos, a natureza, todavia, possui meios de compensar certas deficiências e, ao deitar a pena ao papel, consigo expressar de maneira menos tacanha aquilo que torna meu coração pesado.

O intuito desse escrito, no entanto, se traduz não apenas como uma maneira de confortar alguém que sofre, mas como uma reflexão sobre a morte e seus efeitos sobre nós, homens modernos. Cada um de nós, indivíduos singulares, vive uma vida individual, mas, não importa quem sejamos ou onde vivamos, todos sem exceção, temos de encarar a morte. Seja a morte de alguém que amamos e admiramos, ou a nossa própria finitude. Fatalmente estamos unidos como gênero humano na capacidade de sentirmos algo em relação a esse destino e de podermos refletir sobre nossa funesta sorte, até onde nos permite saber a nossa ciência, somos os únicos no universo a poder encarar a morte com consciência. Tragicamente, raramente o fazemos.

Quando soube do falecimento do pai desse amigo, entabulei uma rápida conversa que me chamou profundamente a atenção, justamente por expressar de maneira singela a atitude habitual que a maioria esmagadora de nós temos diante da morte. Assim ouvi “estranho isso, essa semana outros pais de outras pessoas próximas também morreram”, ao que eu retruquei “mas o estranho seria justamente se eles vivessem para sempre”, pouco depois, seguiu-se a seguinte afirmação, carregada de genuína compaixão, apesar de ingênua “não desejo isso para ninguém”, ao que retruquei “mas todos fatalmente passaremos por isso”. A morte é uma certeza inelutável, e triste não é aquele que perde um pai, mas quem nunca perdeu um pai, pois se assim é, é porque nunca teve um. Todos nós, que temos entes queridos, em algum momento os perderemos. Um filho que enterra um pai cumpre um desígnio natural e inevitável, o que não desejo a ninguém é a dor de enterrar um filho.

Certa feita, o mestre zen Sengai recebeu um pedido para escrever uma caligrafia auspiciosa, em resposta ele escreveu “pai morre, filho morre, neto morre”, isso gerou choque e espanto, e diante da estupefação do homem que lhe pediu para escrever a caligrafia auspiciosa Sengai respondeu “Isso é auspicioso. Se seus filhos morressem antes de você, ou seus netos morressem antes de seus filhos, você seria extremamente infeliz. Se as pessoas de sua família vivem geração após geração e morrem nessa ordem, o que pode ser mais auspicioso?”. Mesmo a morte sendo o destino de cada um de nós, procuramos viver esquecidos dela, fingindo para nós mesmos que a morte só acontece com os outros, ou que está sempre distante, vivemos na ilusão ingênua de que sempre temos tempo e nos esquecemos tragicamente que o único requisito para morrer é estar vivo. Mesmo assim, insistimos em afastar de nossa mente essa realidade, como algo funesto e de mau agouro, o que não nos ajuda a viver mais ou melhor, apenas nos torna míopes e despreparados para lidar com a vida.

Não existe nada sob o céu que realmente dure, tudo aquilo que acreditamos ser sólido, na realidade, é tão insubstancial quanto o tecido do sonho. Tudo é passageiro e impermanente, inclusive e principalmente nós mesmos. Ao tomarmos consciência desse fato elementar, somos levados a humildade, pois não importa quão bons ou belos sejamos, um dia morreremos. Ao tentarmos ingenuamente afastarmos de nossa vida toda a sombra, nos tornamos bi-dimensionais, a treva é a contraparte natural e inevitável da luz, ao afastarmos as trevas, ao ignorá-la, afastamos inadvertidamente a luz. A consciência da morte é, paradoxalmente, a consciência da vida e da maravilha de estar vivo. Essa consciência nos torna melhores, mais aptos a aceitar a vida, com aquilo de belo e horrendo que possui, e aproveitá-la. A morte de alguém amado é certamente uma tragédia, mas é algo para o qual estaríamos mais preparados se não insistíssemos em viver em auto-engano.

Conta-se que uma mulher chamada Kisa Gotami levou seu filho morto ao Buda e, em profundo desespero, pediu que ele o ressuscitasse. O Thatagata disse que realizaria esse milagre desde que ela lhe trouxesse uma semente de mostarda de uma casa onde a sombra da morte jamais tivesse passado. Por mais que procurasse, a mulher não encontrou um só lugar, uma só casa onde a morte não tivesse ceifado alguém, horas depois, ela retornou ao Buda e agradeceu, tomou novamente seu filho nos braços e o levou para ser enterrado. Essa dor não é uma dor individual, mas é uma dor que pertence a todos nós, ninguém está sozinho ao passar por essa situação, a perda de um ente querido. Isso não significa que não soframos, mas que podemos encarar essa dor sem desespero, com consciência e dignidade.

Meus pêsames Wilson, todos nós ficamos tristes e preocupado com você, e todos sem exceção desejamos o melhor para você e a sua família. Que seu pai descanse em paz, ele pode se unir aos justos com a certeza de que deixou para o mundo um bom filho e uma pessoa boa, ele pode, certamente, descansar em paz.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Best Anine Ever!

Resolvi fazer um posto com uma lista é um rápido comentário de alguns animes que considero simplesmente imperdíveis, que qualquer fã, ou qualquer um que queira se divertir deveria assistir.

Começo pelo melhor anime da década de 90, Cowboy Bebop, com a melhor de todas as trilhas sonoras, composta de vários Jazz e Blues, com visual baseado nas séries de TV da década de 70, ótimos personagens, ótima história e excelente animação:







Outro anime clássico é o filme de Katsuriho Otomo, Akira. Provavelmente uma dos melhores longas de animação já produzidos no Japão, para os fãs, é um filme obrigatório.





Macross é um anime que marcou a minha infância, antes mesmo de saber o que era um anime, ou da onda avassaladora de animações japonesas chegar realmente ao Brasil, ele passou nas manhãs de sábado na globo, ainda na década de 80 com o título de "robotec" assistia sempre, permanece como um clássico:





Dificilmente algum anime será tão divertido e inesquecível como o despretensioso Zillion, criado para ser apenas uma espécie de propaganda para uma pistola de brinquedo (que eu nunca tive) foi talvez um dos mais bacanas e viciantes animes de todos os tempos. Quem não se lembra do ousado e divertido JJ? Simplesmente sensacional!



Ainda na década de oitenta, os mais saudosistas se lembrarão do inesquecível Patrulha Estelar, outro dos animes que marcou a minha infância, principalmente por ser tão diferente dos desenhos animados idiotas da época, Patrulha Estelar era trágico, com personagens complexos e uma trama envolvente:




Um anime não tão antigo, mas certamente imperdível, é o filme Mononoke Hime, do genial Hayao Miyazaki, mais conhecido aqui no Brasil pelo filme laureado pelo oscar "A viagem de Chihiro", todavia, o meu preferido de sua lavra é "princesa mononoke":