segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Eleições em Fortaleza: O eminente retorno da política Oligárquica


Faz-se necessária e urgente, em vista da situação de indefinição das atuais pesquisas de intenção de voto para o executivo municipal, pensar a política cearense de maneira mais ampla. Nesse sentindo é mister discutir a posição dos Ferreiras Gomes nesse cenário. É evidente que Roberto Cláudio (atual postulante a prefeitura de Fortaleza pelo PSB) não passa de um títere, um fantoche, e o titeriteiro, quem movimenta as cordas desse fantoche político é o governador Cid Ferreira Gomes. Em virtude desse fato, é nele que devemos centrar essa análise.

Cid Gomes é filho bastardo de Lula e do petismo no Ceará, em tempo, Cid antes de seu primeiro mandato como governador já fora deputado e prefeito de Sobral, mas era praticamente desconhecido no estado fora do reduto político de sua família e um nome dos mais secundários no cenário político. Em virtude de ser um ator secundário em nossa política a estratégia adotada em sua primeira eleição foi a de associá-lo a dois nomes muito conhecidos: Lula e Ciro Ferreira Gomes. Cid era o candidato de Lula e o irmão de Cid. Hoje em dia Cid Gomes é Cid Gomes, a tal ponto que, em certa medida, já pôde freudianamente matar o pai e se ver livre do incômodo PT.

Cid é um político extremamente habilidoso, e por quase oito anos governou com mais poder e tranquilidade do que o Tasso Jereissati jamais sonhou em possuir. Praticamente sem oposição, com o PT ao seu lado, Cid se impôs como um dos protagonistas mais destacados da política em nosso estado. Diferente de seus irmãos Ivo e Ciro, de caráter mais destemperado e de pouco traquejo diplomático, Cid demonstrou sempre o oposto, tranquilidade e frieza ao tratar da política. Ciro é sem sombra de dúvidas um homem de grande inteligência, e talvez um dos maiores oradores que o Ceará já viu, mas ao mesmo tempo, seu destempero e a língua solta o transformaram numa caricatura de si mesmo, um “seu Lunga” da política de quem sempre se espera alguma declaração bombástica ou ato de descontrole, isso já é parte integrante de sua persona política. A tranquilidade e frieza de Cid e sua maior habilidade de bastidores contrasta com o comportamento dos irmãos, principalmente por ter colocado sob seus calcanhares alguns setores do PT.

O exemplo mais bem acabado desse fato é o Professor Pinheiro, que sacrificou sua história de construção partidária e militância para se manter docilmente sob as asas de Cid. Dentro do PT, existiu a ideia equivocada de que a aliança com o PSB trouxe os Ferreiras Gomes para um campo de centro esquerda, doce ilusão essa, não mais do que uma quimera ou mentira piedosa para justificar aliança tão estranha. Cid soube lidar com essa aliança inconveniente muito melhor do que o PT. Em seu segundo mandato, em jogada de mestre, tornou inócua a figura de Antonio Carlos na assembleia ao torná-lo seu líder de governo, e mesmo setores do PSDB (reduzido a quase nada depois da derrota de Tasso) aderiram alegremente ao seu governo, assim como o PMDB que emplacou o Vice e um Senador. Além disso, com a imprensa no bolso, construiu para si a imagem de administrador jovem, moderno e arrojado. Essa mesma imprensa atacou incansavelmente a administração petista na capital, criando para a classe média uma imagem das mais desfavoráveis para a prefeita Luiziane Lins, imagem essa que ela, algumas vezes, inadvertidamente ajudou a cristalizar.

Diferente do governo do estado, a prefeitura de Fortaleza faz parte de um projeto nacional que se iniciou com Lula e que possui um compromisso social que não é compartilhado pelos partidos de direita. Certamente o PT se afastou do “espírito do Zion”, das máximas políticas que nortearam sua fundação, mas ainda assim foi capaz de realizar reformas fundamentais para reduzir o abismo entre ricos e pobres e tirar da pobreza uma parcela significativa de nossa população. Com seu fetiche pelas grandes obras, o compromisso dos Ferreiras Gomes e de Cid são outros, como fica claro pelos nomes de grandes empresários que cercam Cid e Roberto Claudio, sua descendência e afinidade com Tasso fica cada vez mais clara, com a diferença crucial de que Cid é mais habilidoso e inteligente do que Tasso e Ciro jamais foram. Nossa consciência é efêmera e ao ouvirmos as promessas de Roberto Cláudio, respaldadas por Cid, para a educação, não nos recordamos da catástrofe que foi a educação no governo Ciro em Fortaleza. Ciro implantou o famigerado Sistema de TV, que reduziu os professores a meros operadores de controle remoto e prejudicou uma geração inteira de alunos.

Caso Roberto Claudio chegue efetivamente ao poder, veremos na realidade a ascensão da mais poderosa oligarquia que já se viu nesse estado, os Ferreiras Gomes, capitaneados por Cid. Algo que mesmo para a direita é daninho. Em nosso estado vemos a ascensão de novos protagonistas na política, como o vice-governador Domingos Filho e o Senador Eunício Oliveira, esses atores rapidamente passarão ao segundo plano no caso de uma vitória dos Ferreiras Gomes na capital. Os Ferreiras Gomes terão em seu poder o estado, a capital e inúmeras prefeituras, com essas cartas poderão facilmente ditar sua política a direita (PMDB, DEM, PSDB e companhia) e com maior facilidade submeter à esquerda do PT. Convém recordar, que uma parte considerável do PT já está no bolso de Cid, mesmo agora durante esse momento crucial. Importa salientar aqui uma diferença importante, O PMDB compôs o atual bloco político com o PSB, mas o PSB é secundário, pois os Ferreiras Gomes são antes de tudo uma família. Ciro já passou por sete partidos e ele e os demais membros do seu clã primam por estar no poder, seja em que partido for, atualmente estão no PSB, mas quem sabe o que o futuro lhes reserva? Qual partido será mais conveniente amanhã?


Esse é um perigo real, do retorno efetivo da política oligárquica em nosso estado numa roupagem nova, mais dinâmica e moderna, logo, muito mais difícil de combater e mais propensa a se eternizar no poder. O PCdoB de Inácio com sua candidatura aventureira, o Psol com seu maniqueísmo e discurso franciscano, e mesmo os setores do PT que se alinham a Cid, tornam desse futuro nefasto algo cada vez mais próximo. Com a proximidade do desfecho eleitoral é preciso que aqueles que não desejam o retorno a uma política oligárquica e que almejam que o projeto nacional representado pelo governo do PT possa ser efetivado em nosso estado repensem suas posições, pois a fragmentação da esquerda, historicamente, sempre favoreceu o tipo de política representado em nosso estado por Cid e companhia.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Uma análise psicológica do mito moderno do Zumbi


O que pretendo com esse texto é realizar uma leitura psicológica do zumbi. Vemos hoje uma imensa atenção dada a essa figura, em filmes, quadrinhos, vídeo games livros e séries de tevê. Desde o aclamado “The Walking Dead”, até o filme que apresenta como protagonista um zumbi adolescente apaixonado por uma humana e que procura pegar carona no sucesso de “Twilight”. Os exemplos do aparecimento dos zumbis na cultura pop poderiam se estender muito mais, desde a série de quadrinhos que transformava todos os heróis da Marvel Comics em zumbis (Marvel Zombies), até o Anime nipônico “Hig School of the Dead” (existe até mesmo um cardgame baseado em “Resident Evil”). Em vista desse enorme interesse sobre essas criaturas desmortas me vi impelido a pensar sobre o que significa um tal interesse por parte de tantas pessoas. É importante salientar de início que esse esforço deve ser entendido apenas como um esboço inicial, um torso inacabado por assim dizer.

Um dos pontos interessantes da atual “mitologia” dos Zumbis diz respeito ao “apocalipse zumbi”, que seja um acontecimento, por vezes inexplicável, em que a maior parte da população da terra é repentinamente transformada em zumbis comedores de carne humana. Na maioria dos exemplos atuais – como “The Walking Dead” – não há qualquer explicação para esse fenômeno, importam seus efeitos, já em “Resident Evil” a origem dos zumbis é o que movimenta toda a trama. Toda a sociedade como a conhecemos é destruída por essa praga de mortos vivos e os sobreviventes se veem obrigados a lutar incansavelmente para se manterem vivos e tudo o que antes era dado como garantido se desfaz como fumaça. Nesse cenário macabro, mesmo outros humanos (vivos) premidos pela fome, medo e instinto de sobrevivência, se tornam antagonistas fatais e toda a possibilidade de laço social fica impedida ou, ao menos, seriamente ameaçada. Nesse quesito, apocalipse zumbi, temos como o exemplo mais bem acabado a revista em quadrinhos, posteriormente adaptada para a tevê “The Walking Dead”, bem como a série de filmes baseados nos jogos de videogame “Resident Evil”.

É extremamente importante salientar, que em todos os casos atuais de aparecimento de zumbis eles não são criaturas mágicas, mas o resultado de uma doença, um vírus (como no caso de Resident Evil), ou algo do gênero. Há sempre uma causa física, material, biológica para o surgimento dos monstros. O despretensioso anime “Kore ha Zombie Desuka” é uma exceção, seu protagonista zumbi é uma criatura criada por magia, bem como um filme da década de oitenta em que os zumbis apareciam em virtude da profanação de um cemitério indígena, ou ainda, os “zumbis originais” da cultura pop, que eram criaturas desmortas criadas pela magia do Vodu haitiano. Nos casos atuais, todavia, como já salientei, há sempre uma causalidade material, orgânica e pseudocientífica para o aparecimento da praga de zumbis, mesmo que isso seja algo que aparece sous entendu na trama.

Antes de analisar esse aspecto, do apocalipse associado aos zumbis, ou causado por eles, é preciso que a criatura seja caracterizada. Em suas encarnações mais recentes os zumbis são cadáveres animados, terrivelmente desfigurados, capazes de se mover (algumas vezes de maneira desajeitada, outras vezes com agilidade sobre-humana) que perdem toda e qualquer memória ou vestígio da personalidade que tiveram em vida, que são impelidos unicamente pela fome. Os zumbis da década de oitenta, que apareceram nos filmes e na tevê, tinham um predileção especial por comer cérebros humanos, já os atuais são bem menos exigentes e comem carne humana de uma maneira irrestrita. Os zumbis parecem não se interessar por presas mortas (convenientemente eles não se devoram uns aos outros), mas comem de maneira voraz e horrenda apenas presas vivas, com o coração ainda pulsando. Algumas vezes, na realidade na maioria dos exemplos, o zumbi é contagioso, se alguém for mordido, mesmo que escape a sanha assassina do monstro, ficará infectado e morrerá em pouco tempo, para logo se juntar a legião dos mortos. Esse aspecto está presente praticamente em todos os exemplos hodiernos do zumbi na cultura pop, creio que uma das poucas exceções seja o zumbi protagonista do anime de ação, romance e comédia “Kore ha Zombie Desuka”, que mantém suas memórias e não é contagioso (é simplesmente um morto que anda e fala).

Marie-louise Von Franz ao analisar as fantasias apocalípticas em sonhos e imaginações ativas de seus pacientes, ou seus paralelos em mitos e principalmente conto de fadas, chega a duas interpretações psicológicas que me parecem pertinentes para esse estudo. Certamente essas interpretações não são as únicas possíveis, mas em termos heurísticos são as que mais nos fornecem uma possibilidade de estabelecer conexões de sentindo entre os fenômenos que estou analisando. A primeira dessas duas interpretações que sublinho aqui está em seu livro O Gato, um conto de redenção feminina. O contexto psicológico é um pouco diverso, por isso precisamos nos aproximar dessa interpretação com cuidado, mas, cum grano salis, ela nos é útil para começarmos a pensar. A interpretação de Von Franz é a de que todo o inconsciente coletivo está agitado, há uma desarmonia entre o comportamento consciente do coletivo e o que o inconsciente está pensando em destruição. Significando, igualmente, que o incosciente coletivo foi tão maltratado por nossa incompreensão que se rebela contra nós, se irrita com a falta de atenção que recebe. Ou dito de outra maneira, não temos acompanhado as tendências significativas do inconsciente, se você peca contra o inconsciente, ele se apossa de você. Estamos falando aqui da força numinosa das dominantes do inconsciente coletivo, aquilo que Jung denominou de arquétipos. Devemos compreender esses conteúdos arquetípicos como potências coletivas psiquicamente reais e objetivas – lembrando que para Jung tudo o que age que atua é real – com as quais não podemos nos identificar, mas as quais devemos tentar tornar favoráveis, nos relacionando com elas. A identificação da consciência com essas forças significa apenas presunção e inflação.

A relação da consciência com o inconsciente se dá de maneira compensatória e complementar – essa é uma das hipóteses basilares de Jung – nesse caso, por meio das fantasias apocalípticas que se manifestam criativamente na cultura pop sob a forma do fim do mundo invadido por zumbis vorazes, devoradores de carne humana, temos a oportunidade de perceber, em termos coletivos, a quantas anda a relação com esse pano de fundo inconsciente inexpresso, com o fato psicológico real.  Ex exposistis, o inconsciente responde de maneiras compensatórias as disposições e atitudes da consciência. Ergo, a maneira como essas figuras se apresentam dependem da atitude consciente. Uma atitude negativa para com o inconsciente gestara imagens assustadoras, uma atitude positiva engendrará o contrário, seres prestativos. No presente caso, a fantasia criativa se expressa de maneira horrenda e pavorosa, com cadáveres putrefatos animados por uma avidez lunática, desprovidos de qualquer consciência humana, irracionais e selvagens como animais predadores e sedentos por sangue e famintos por carne humana. A figura do zumbi, e seu apelo tão forte em nossos dias, fazendo vibrar em tantos de nós uma corda comum em nossa alma é, ao meu ver, sintoma de nossa relação com o inconsciente coletivo.

Como salientei anteriormente, é significativo que nossos zumbis atuais sejam tão marcadamente materialistas e desespiritualizados, são pessoas infectadas por um vírus, ou em filmes mais antigos, uma substância química capaz de trazer os mortos de volta a vida nesse estado lastimável, ou mesmo, em filme recente chamado Chernobyl, cadáveres animados pela radiação proveniente do acidente nuclear. Todo e qualquer aspecto espiritual está ausente dessas histórias (uma exceção são os Wights de Game of Thrones), e os personagens ainda vivos precisam lidar com a dor e o sofrimento de terem perdido tudo e ainda se verem acossados por tais monstros sem qualquer auxílio de ordem espiritual. Nesse sentindo, “The Walking Dead” é emblemático, pois lentamente a sanidade dos personagens vai sendo corroída, assim como sua humanidade e noções de moral. Nessa série televisiva, e nos quadrinhos que lhe deram origem (o mesmo se dá no anime “The Highschool of the Dead), vai se tornando cada vez mais patente que a situação em que se encontram é completamente amoral, e o desespero que isso acarreta passa a se traduzir num crescente individualismo, numa busca solitária e quase irracional de simplesmente viver mais um dia a qualquer custo.

Jung, ao analisar nosso Zeitgeist (espírito da época) conclui que nosso tempo foi varrido por uma onda irracional da preferência sentimental e universal pelo mundo físico. A metafísica do espírito foi suplantada pela metafísica da matéria. A despeito do fato, de que tanto uma explicação quanto à outra (materialista ou espiritual), são igualmente lógicas, igualmente metafísicas, igualmente arbitrárias e igualmente simbólicas. As duas “realidades” (material e espiritual) são vivências psíquicas que se sustentam num fundamento obscuro e incognoscível, não existindo realidade absoluta. Essa onda irracional é uma propensão sentimental, que por motivos inconscientes, age com poderosa força de sugestão sobre os espíritos mais fracos de nosso tempo. “Descobriu-se” no século XIX a verdade inquestionável de que tudo provem de causas materiais, anacronicamente descobrimos, ao nos debruçarmos sobre o passado, que era uma presunção intelectual de nossos antepassados supor que o homem possuía uma alma imortal, de natureza divina, que pode até mesmo levar uma existência independente do corpo, que existem espíritos incorpóreos e um mundo espiritual para além de nossa realidade empírica. Ainda assim, aqui estamos nós, acossados por fantasias apocalípticas onde zumbis (mortos que voltam à vida, não espíritos, mas cadáveres, meros corpos animados por algum quimismo) e podemos afirmar abobalhados, como em Goethe “se o ouvido em mim se fechar/No coração o medo vai medrar/A cada hora mudo a forma do meu ser/ E assim exerço meu despótico poder.”.

Tudo o que é extramundano se converte em realidades imediatas; o fundamento das coisas, a fixação de qualquer objetivo e mesmo o significado final das coisas não podem ultrapassar as fronteiras empíricas. A impressão que a mente ingênua tem é a de que qualquer interioridade invisível se torna exterioridade visível, e que todo valor se fundamenta exclusivamente sobre a pretensa realidade dos fatos. (JUNG, 1986, p.284, grifo meu).

Mesmo a mais profunda desconsideração da consciência para com o inconsciente não anula seu poder, apenas torna a sua manifestação mais mefistotélica, ou no nosso caso, pavorosa. Há, por certo, um medo generalizado do inconsciente, que parece ter se intensificado em nossos dias e que se manifesta na fantasia criativa sob a forma da ameaça dos zumbis. Persiste, todavia o fato autêntico de que nosso mundo real se encontra ameaçado por uma irrealidade fantástica, aqui reside uma superstição primitiva que encontra solo dos mais propícios para deitar raízes no coração do moderno homem civilizado: a tendência quase universal para concretizar as fantasias do inconsciente. Toda a aversão à fantasia, assim como a desvalorização crítica do inconsciente nascem do medo que se tem dessa tendência à concretização. Ao invés disso, deveríamos ser capazes de levar a sério as fantasias provenientes do inconsciente, encará-las como um desafio ao homem todo e ser capazes de interpretá-las ao invés de simplesmente tomá-las ao pé da letra, ou como diria Campbell, de maneira denotativa. É preciso ter em mente que a aparência não é a coisa mesma, mas apenas a sua expressão, na podemos confundir a imagem da fantasia com o que atua por detrás dela (JUNG, 1997). Me impressiona ver, por exemplo, serem veiculadas no Facebook imagens e piadas relacionadas ao “desejo secreto” que muitos alimentam de que ocorra uma hecatombe zumbi, vemos em ação essa tendência a concretização, isso, infelizmente não é sinônimo de se levar a sério o inconsciente.

A outra interpretação dada por Von Franz a esse tipo de fantasia apocalíptica é que as pessoas em geral se encontram num estado de tal tédio e mal estar que anseiam por qualquer coisa que possa tirá-las, mesmo que de maneira forçosa e violenta desse estado, mesmo que se trate de uma catástrofe, de uma guerra ou hecatombe, uma solução violenta para tirá-las da insuportável estase de seu dia a dia e do vazio intolerável de suas vidas. Isso casa perfeitamente com o fascínio provocado pela ideia de um apocalipse zumbi, ou mesmo com o fascínio que certas pessoas têm com relação a filmes e séries de prisão, com seus dramas terríveis e reviravoltas violentas. É uma reação à sensação que Campbell costumava chamar de “terra devastada”, o mesmo Campbell gostava de dizer que estamos todos em queda livre em direção ao futuro, pois nossa sociedade carece de mitos efetivos. É o mito que proporciona um campo onde podemos nos situar, o que os mitos fazem é apontar o transcendente além do campo do fenômeno, como um compasso com uma ponta na esfera do tempo e outra na eternidade. A eternidade a que o mito se refere é a dimensão transcendente do aqui e agora, a eternidade não tem relação com o tempo, na realidade o tempo nos exclui da eternidade. A “terra devastada” é estarmos excluídos da eternidade, desamparados diante dos fatos externos que parecem ter um poder absoluto sobre nós, nos esmagando sem que exista um contraponto na alma capaz de nos manter íntegros e nos conectar com esse aspecto da realidade que ultrapassa o campo empírico.

Deixando por hora de lado o apocalipse zumbi, nos fixemos na figura do zumbi. Confesso que tenho uma terrível aversão a ela. O zumbi não possui o fascínio do vampiro, que é um indivíduo preso num dilema existencial terrível de se manter humano ou ceder aos seus instintos bestiais de predador (ao menos em suas encarnações mais recentes), o fascínio do vampiro, ou mesmo do fantasma, vem do fato de que se tratam de indivíduos, personalidades, com conflitos e idiossincrasias, esse não é o caso do zumbi. O zumbi não passa de um corpo putrefato, incapaz de sentir dor, medo ou cansaço e movido unicamente pela fome, ela não possui alma ou personalidade. Seja lá quem ele foi um dia, isso se perdeu para sempre, suas roupas rotas e o que resta de sua carne são os únicos monumentos à personalidade que ele foi outrora. O zumbi carece inteiramente de qualquer conflito moral, carece completamente de liberdade e individualidade, ele não passa de mais um numa horda infindável de mortos famintos de aspecto repugnante. Fundamentalmente, o zumbi carece de consciência. Ele é uma personificação da fome e instinto predatório e nada mais. Em si mesmo, é uma criatura das mais desinteressantes.

Que paralelos poderíamos encontrar para o zumbi? Bem um dos primeiros paralelos a essa figura tão grotesca da cultura pop é outra criatura dos filmes apocalípticos: as máquinas destruidoras do “Terminator” o Exterminador do Futuro. Assim como os zumbis as máquinas são completamente inumanas (mas podem se assemelhar a nós), é curioso que no filme as máquinas soldados sejam esqueletos de metal, guiadas por uma espécie de consciência comum, como uma colmeia onde toda a individualidade é esmagada. Mutatis mutandis, assim como os zumbis, as máquinas são seres inorgânicos, feitos de metal frio. Ora, os zumbis estão mortos, não passam de carne putrefata, são autômatos feitos de carne podre. Nesse aspecto, de serem autômatos o paralelo é muito similar. Como seres contagiosos, e que seu contágio resulta na aniquilação da individualidade, me vem vivamente à lembrança o antagonista de Neo em Matrix, o agente Smith (sobrenome extremamente ordinário e comum no mundo anglo-saxão) capaz de infectar (ele próprio se converte em uma espécie de vírus no mundo virtual da matriz) qualquer um e transformá-lo em uma cópia exata de si mesmo, apagando qualquer traço de individualidade anterior.
Outro paralelo possível está na tradição budista. Baseio-me aqui nos ensinamentos de S.EMA. Chagdud Tulku Rinpoche, compilados por Chagdud Khadro. De acordo com os ensinamentos sobre os bardos, existe seis possibilidades de renascimento na crença budista: o reino dos infernos, o reino dos espíritos famintos (pretas, ou gakis em japonês), o reino animal, o reino dos deuses invejosos (titãs ou asuras), o reino dos deuses (devas), e o reino humano. Interessa-nos o reino dos espíritos famintos (ou espíritos carentes). Nesse reino as criaturas são consumidas por uma fome e sede insaciáveis, possuem corpos deformados com bocas minúsculas, ou pescoços estreitos e barrigas imensas e sofrem de horrendas privações, perpetuamente acossados pela fome e incapazes de aplacá-la. O karma que os conduz a esse renascimento tão desfavorável é a avidez, mesquinharia e o roubo. Nesse estado é impossível se alcançar o estado de liberação do sofrimento, o nirvana. Vários são os obstáculos a que possam saciar sua fome, alguns são queimados por dentro e por fora ao comerem qualquer alimento, outros enxergam a comida como substâncias revoltantes, enquanto outros conspurcam a comida ao seu toque. Assim como os zumbis de nossa cultura pop, essas criaturas são premidas por uma fome intensa e implacável, todavia o caráter mais espiritual desse estado salta aos olhos se comparado ao atroz materialismo do zumbi. Também não se caracteriza como um estado definitivo, mas assim que se esgota o karma, segue-se outro renascimento. Na moderna mitologia do zumbi, qualquer aspecto espiritual é completamente sonegado, a morte é um estado definitivo e grotesco, não há paz nem mesmo na morte.

Uma das fontes do horror dos zumbis é que eles são personificações do aspecto puramente material e desespiritualizado da morte: corpos putrefatos. Ainda assim, são corpos em decomposição que se movem, comem carne humana e nos ameaçam. São mortos inquietos e famintos que em sua avidez acabam por nos tornar como eles. Novamente temos aqui um indício da atividade compensatória do inconsciente coletivo. Todavia, esse não é, a meu ver, a principal fonte do horror e fascínio dos zumbis. Devo confessar que foi através de um pesadelo que me ocorreu o significado psicológico do zumbi, antes um completo mistério para mim. O zumbi representa um estado de absoluta massificação, de destruição do indivíduo e da possibilidade de vida individual, uma pungente metáfora para outra atitude muito comum no nosso tempo.

Em seu pequeno ensaio “Presente e Futuro” Jung reflete sobre a dificuldade da psicologia em se desembaraçar da antinomia “o individual não importa perante o coletivo, e o coletivo não importa perante o individual”, na realidade é totalmente impossível se desembaraçar dessa realidade, pois a própria alma é extremamente paradoxal, todavia, a psicologia precisa lidar com isso, pois é uma ciência (de linguagem universalizante e geral), mas que lida diretamente com o dado irracional que é o homem individual.

Uma formação em princípio científica baseia-se, essencialmente, em verdades científicas e em conhecimentos abstratos que transmitem uma cosmovisão irreal, embora racional, em que o indivíduo, como fenômeno marginal, não desempenha nenhum papel. Mas o indivíduo, como um dado irracional, é o verdadeiro portador da realidade, é o homem concreto em oposição ao homem ideal ou “normal” irreal, ao qual se referem as teses científicas. (...) as ciências naturais, em oposição às “humanidades”, impõem, portanto, uma imagem do mundo que exclui a psique humana real. (JUNG, 2011, p.16).

Vemos aqui o efeito daninho e perigoso do “pensamento estatístico”, pois sob o peso esmagador dos pressupostos científicos o indivíduo e a psique sofrem um nivelamento que distorce a imagem da realidade e a transforma em média ideal. Essa imagem estatística do mundo reprime o fator individual. Isso impede ou emperra toda a possibilidade de desenvolvimento moral do indivíduo. O mote romântico de que “tudo o que vive, vive individualmente” é esmagado aqui, mas permanece o fato de que a única vida real é a vida individual. A sentido e a finalidade da vida passam a ser imposto de fora para dentro do homem e decisão moral passa a ser progressivamente retirada do indivíduo, que passa a ser encarado como mera unidade recorrente, gerando uma caótica falta de identidade. “Quanto maior a multidão, mais ‘indigno’ é o indivíduo. quando este esmagado pela sensação de sua insignificância e impotência, vê que a vida perdeu o sentido (...)” (JUNG, 2011).

Disse certa vez Jung “O homem de hoje, que se volta para o ideal coletivo faz de seu coração um antro de criminosos”, lembrando ainda que há um complicador a mais, é preciso ter em mente que sem liberdade a moralidade é impossível, e que todo o progresso e todo o talento é individual, e a liberdade é diretamente proporcional a possibilidade de desenvolvimento individual. O complicador de que falava a pouco, consiste no fato de que tudo o que foi falado no que diz respeito a influencia da sociedade sobre o indivíduo é igualmente válido no que diz respeito a influencia do inconsciente coletivo sobre a psique individual, essa influência é invisível, diferente da primeira. Vemos aqui, na imagem do zumbi, a tendência do psique individual ao se deparar com problemas de ordens gerais, responder com motivos mitológicos, o zumbi me parece, pelo menos num primeiro momento, uma tentativa malfadada de compensação a essa ameaça que vem de “dentro e de fora” e que traz a promessa de aniquilação e esquecimento. Um zumbi não importa enquanto indivíduo, ele encontra na morte e reanimação uma espécie absoluta de massificação, de aniquilação da individualidade, ele representa uma ameaça real, e atua, cum grano salis, como um símbolo, pois parece que muitas pessoas se sentem atraídas por essa imagem justamente por esse motivo, mas de uma maneira apenas obscuramente pressentida.

Como disse no início, esse texto é apenas um torso inacabado e deve ser julgado dessa maneira pelos seus leitores, acredito que no futuro retornarei a ela para uma reflexão mais séria e profunda sobre o tema.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

De volta à escola


Estou de volta à faculdade, dessa vez a faculdade de Psicologia. Nunca parei de estudar, seja no sentido da minha busca pessoal por conhecimento e erudição, minhas pesquisas, leituras e escritos, seja no sentido institucional, pois depois da graduação fiz mestrado e estou fazendo doutorado. Os franceses tem um ditado dos mais interessantes “plus ça change plus c'est la même chose”, muita coisa mudou desde que eu deixei os bancos universitários após a minha primeira faculdade, mas muita coisa permaneceu a mesma.

Antes de falar da minha experiência presente, não consigo resistir a me perder um pouco em reminiscências e lembranças dos meus “tempos de faculdade”, expressão que agora se torna ambígua, no mínimo. Minha primeira faculdade foi veterinária, cursei por três anos e depois desisti. Foi um período intenso, fiz muitas coisas, fui presidente do centro acadêmico, representante estudantil no departamento de veterinária, monitor, bolsista de iniciação científica, eu praticamente morava no campus. A veterinária era um curso exigente, algumas vezes tinha aulas o dia inteiro, conheci muita gente bacana, muitos dos quais perdi totalmente o contato, nessa época eu andava sempre de botas, nunca mais usei botas depois da veterinária.

Quando desisti da veterinária, fiquei em dúvida sobre que curso fazer, História ou Psicologia, bem, optei por História. Quando lembro dessa época é sempre com um sorriso no lábios, eu me diverti muito. Adorava ficar pelos corredores batendo papo, jogando conversa fora. Nessa época eu não bebia e era vegetariano, e costumava brincar dizendo que existiam dois tipos de alunos de história: os maconheiros e eu. Tinha poucos, mas bons amigos, tínhamos a nossas piadas particulares, as pessoas com quem fazíamos essas piadas (hoje seria bullying). Meu pai era professor da faculdade, na disciplina de história do Ceará, mas jamais fui aluno dele. Eu me vestia de maneira andrajosa, nunca usava calças compridas, usava sempre as mesmas camisetas brancas surradas (muito confortáveis), andava de ônibus e não tinha um centavo. Também fui bolsista, e presidente do Centro Acadêmico, mas isso não foi o mais legal. Encontrei um dos meus professores, o Régis, quando ele estava lançando um livro e trocamos algumas palavras, eu disse que agora que estava lecionando ia pagar meus pecados por ter sido um aluno tão chato. Para a minha surpresa ele disse que sentia falta de mim como aluno e que não me achava chato, e que os alunos atuais não discutiam mais nada em sala ou participavam. Eu tive sorte, nessa época tive professores brilhantes e gostava muito do meu curso e das coisas que estudávamos, foi uma época memorável.

O que me traz de volta ao presente, e a minha nova faculdade. Diferente da época da veterinária e da história, eu passo a maior parte do tempo de boca fechada. Sento-me na última fila, como sempre foi o meu costume, e fico lendo, coisa que às vezes eu fazia na época da história. A faculdade é estranha, ficamos na mesma sala, como num colégio. A despeito de ser um sujeito expansivo e extrovertido, fico só lá calado lendo. O curso de Psicologia é estranho e esquizoide, pois não há, a rigor, uma psicologia, mas muitas. Em virtude desse fato, se estudam teorias as mais diversas, sem relação umas com as outras e que com frequência se contradizem, dizer que se trata de um curso generalista é um eufemismo. Por sorte aproveitei várias disciplinas, mesmo assim tenho vários anos a minha frente antes de ter um diploma.

Quanto a mim, e o meu silêncio, tenho sentimentos confusos. Eu já sabia de antemão como seria o curso, não tinha ilusões, mas isso me faz ver como ilusões são importantes. Sinceramente não tenho disposição para aprender nem um terço das coisas que são ensinadas ali, das muitas psicologias. Não é para mim um tempo de aventuras e descobertas, já sei bem o que me interessa e já estudo isso há mais de dez anos, creio que quatorze para ser mais exato. Não participo das discussões em sala, não dialogo com os professores, não faço perguntas, só fico lendo. O que é bom por um lado, isso tem aumentado minhas horas de leitura, vinha lendo menos ultimamente (creio que quando eu leio pouco isso ainda deve contar como pelo menos 3 ou 4 vezes o tempo de leitura de uma pessoa normal). Seja lá como for, certamente não será um tempo memorável, não sou mais tão quebrado quanto era na época da história, e há tempos abandonei minhas confortáveis camisas brancas, não ando mais de ônibus e nem uso botas. Pelo que soube há um centro acadêmico, mas estou ocupado com a política em outras esferas, não fico de papo falando bobeira nos corredores e nem faço piadas. É interessante, no doutorado eu ainda faço todas essas coisas (não, não uso botas falo das conversas e piadas), mas não me permito fazer o mesmo na faculdade.

Quando eu fui estudante de história tinha a fama de ser arrogante, e eu era um cara meio desagradável mesmo pensando em retrospecto, mas mesmo nessa época sempre fui amigo dos meus amigos, e um sujeito sincero e direto. Passei muito tempo tentando lidar com essa história de eu ser arrogante, era uma fama estranha, pois eu era tão descolado e largado... Certa feita, conversei com uma amiga sobre a minha imagem na faculdade e ela me disse que poucas pessoas me conheciam, no sentido de serem próximas a mim e saberem como eu era mesmo. Não acho que eu fosse arrogante, mas uma coisa eu era e ainda sou: exibido. Creio que levarei esse pecado para o túmulo, o que é algo paradoxal ser ao mesmo tempo alguém exibido e reservado ao ponto de meus amigos se surpreenderem com fatos ao meu respeito, coisas que eu faço e gosto, aconteceu recentemente com um bom amigo meu de se espantar ao saber que eu fazia traduções (de textos e simultâneas), nos conhecíamos há tempos, e eu nunca falara sobre isso.

Nas duas vezes em que fiz faculdade anteriormente a universidade era o centro da minha vida, passava muito tempo por lá e tudo orbitava em torno dos meus estudos acadêmicos. Hoje eu faço muitas coisas ao mesmo tempo, e só passo o tempo necessário na faculdade, nem um minuto a mais, a família, o trabalho, a política, meus estudos e projetos não me permitiriam, nem que eu quisesse, ficar de bobeira por lá... Isso é um pouco mentiroso da minha parte, eu fico de bobeira no doutorado conversando, discutindo teoria, fazendo piadas e falando mal do povo. O fato é que não é um tempo interessante o que eu passo lá, e eu não permito que ele seja ou o torno interessante. Creio eu que devem ter pessoas legais com quem eu poderia falar bobagens e contar piadas ou ficar de bobeira ao invés de simplesmente ter saudades dos meus tempos de faculdade, mas eu estou velho, ou me sinto velho quando estou lá. Mais velho e mais cínico, é difícil não ser cínico quando não se tem ilusões... Me deu uma vontade repentina de usar botas...

domingo, 2 de setembro de 2012

Sobre a Paixão


Por incrível que pareça existem pessoas que não conseguem reconhecer o mais pujante dos sentimentos humanos, e ficam perplexas ao perceber que já foram, há tempos, tomadas por ele mesmo sem terem ciência desse fato. Ao que parece, algumas pessoas vivem como se não tivessem sentimentos, mas isso não impede os sentimentos e as possuírem, talvez até mais facilmente do que o normal nesses casos.

Confesso que por longos anos vivi assim, negligenciando uma parte das mais importantes da vida, racionalizando ou ignorando o que se passava em meu peito, um jeito estranho de seguir vivendo. Certamente a mudança não me converteu em poeta, ou bardo, mas me tornou mais humano, e mais completo. Longe de ter me tornado senhor de meus sentimentos, algo que ninguém é, apenas me tornei mais atento a eles e a seus efeitos sobre mim e sobre os outros. O amor, a paixão, é tema onipresente na música, poesia e romance, na verdade, é um tema onipresente na cultura, mesmo que sua presença seja demarcada por sua ausência.

A despeito de meus desejos, de minha vontade ou de meus planos, já me apaixonei por três vezes em 33 anos. Não sei exatamente quantas vezes isso pode acontecer, ou quantas vezes é aconselhável que aconteça, mas esse é o meu caso. A primeira coisa que compreendi sobre a paixão é que não há nada a ser compreendido, a paixão é algo irracional, uma força da natureza que simplesmente acontece. Quem poderia explicar os motivos de dois seres humanos se apaixonarem? Por que ela e não qualquer outra? Nada mais irracional que a paixão, tentar entender suas causas é como tentar elucubrar os motivos de termos sido pegos por uma chuva sem qualquer guarda-chuva a mão. Simplesmente não nos é dado saber, não perca tempo. Mas, para aqueles como eu fui outrora, que são cegos e surdos, convém explicar ao menos como reconhecer a paixão.

Você, meu caro amigo, está apaixonado por alguém quando a mera presença dessa pessoa o intoxica, como um copo de vinho forte tomado de um só trago, na presença dela todas as suas dúvidas e medos se esvaem como fumaça, toda a sua confusão desaparece e por um instante glorioso você se sente um e inteiro. Sem perguntas tolas, sem divagações ou racionalizações. Você está apaixonado quando passa rapidamente ao lado de outra mulher e seu delicado perfume o faz lembrar dela e num instante se vê assaltado por recordações e imagens que se prolongam por mais tempo do que a fragrância. A paixão é algo insistente, inconveniente e não tem qualquer consideração pelo que é correto, justo ou adequado. Você está apaixonado quando o mais simples dos gestos, ou algo de banal lhe faz pensar nela de uma forma que nada consegue exorcizar essa lembrança e, mesmo quando isso o entristece, a tristeza lhe traz algum alento.

Não saber que está apaixonado não priva a paixão de sua força, há algo de primevo e indômito na paixão que não pode ser contido e toda a tentativa nesse sentido é vã. A paixão não pode ser fabricada, ela é um dom, ou maldição, mas seja o que for, é algo espontâneo. Não depende de nossas escolhas ou gostos, é livre e feroz como jamais seremos ou talvez como jamais fomos um dia. Você caro amigo, está apaixonado quando se sente mais confuso e todas as suas certezas se esvaem, e você consegue contemplá-las como as quimeras que realmente são, pois no fundo há poucas certezas nessa vida. Você, caro leitor, está apaixonado quando, repentinamente, ao ouvir uma música de amor que achava tola e sem propósito, consegue entendê-la. Ou ao ler uma poesia, repentinamente é atingido por uma compreensão do que ela significa pelo simples motivo de que você sabe exatamente o que se passava no coração do poeta, o mesmo tumulto a mesma agonia se passa nesse instante no seu peito, você sabe.

Quando mesmo os defeitos dela o fazem sorrir, e uma estranha confusão de sensações toma o seu corpo a mera lembrança do som do sorriso dela, amigo você está perdido, já não há mais volta e mesmo que houvesse, acredite, você iria preferir estar perdido. Agora que você descobriu que está apaixonado, bem vindo ao gênero humano, a dor, a bagunça e a confusão que é isso aqui, e seja como for, é perfeito do jeito que é. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Reflexões sobre a Solidão


Tenho pensado em muitas coisas para escrever ultimamente, principalmente os assuntos teóricos que normalmente ocupam os meus pensamentos e horas de estudo. Todavia, resolvi apenas divagar um pouco sobre a condição humana, sem grandes preocupações de rigor ou pretensões teóricas. A condição humana é um termo ambíguo e paradoxal, como somos nós humanos, de uma maneira irremediável, e como não consigo escapar de ao menos um pouco de rigor, escrevo sobre um aspecto apenas: a solidão.

Na realidade, meu intento inicial era escrever um pouco sobre o que sinto sobre relacionamentos, mas como estou só no momento, creio que isso me torna mais propenso, ou mesmo mais gabaritado a escrever sobre o tema. Na realidade minha reflexão é sobre os motivos de se estar só. É preciso ter em mente que estar sozinho é um estado de espírito, e que pode-se estar só mesmo cercando por uma multidão, ou em um relacionamento. É possível passar anos namorando ou casado e mesmo assim ter passado esses anos todos em solidão. Creio, que em certa medida, todos precisamos de momentos de solidão, seja para meditar, fazer algo de que se gosta, estudar ou o que seja, certas coisas se faz só.

É possível também, estar junto de pessoas amadas, como família e amigos, pois existem muitos tipos de amor. Os gregos falavam de pelo menos três, Eros, filia e ágape. O amor carnal, o amor da amizade, e o amor de caridade, ou amor transcendental. Família e amigos representam esse segundo tipo de amor. Para a religião de Vishnu existem cinco tipos, e creio que poderíamos encontrar muitas outras descrições. Para os gregos, havia igualmente o Eros cósmico, que unia toda a criação, e o Eros que posteriormente foi chamado pelos gregos de cupido, um menino de assas com flechas envenenadas, era filho de Ares e Afrodite, da guerra e do amor. Nesse ser alado e brincalhão encontrava-se o paradoxo daquilo que nos une e nos separa, desejo e aversão, guerra e paz, as polaridades que ativam em nossa alma de maneira misteriosa a possibilidade de nos conectarmos as pessoas.

Os gregos estavam corretos e imaginar o amor como um travesso jovem alado, pois qualquer um que já tenha sentido o veneno de suas flechas sabe que ele faz aquilo que bem entende, sem se importar com a nossa conveniência, bem estar, nossos desejos ou aspirações. A solidão, creio eu, é em parte um resultado das peripécias desse espírito tão alegre e tão cruel, que gosta de zombar dos mortais. Mesmo o mais empedernido racionalista, sabe que seu coração não lhe pertence, e que pode perdê-lo, e secretamente teme perdê-lo, a qualquer momento. Há algo de vivo e independente em nossa alma que parece gostar de zombar de nós de maneiras cruéis e quase mefistotélicas. Algumas vezes somos amados, mas a pessoa que nos ama nos é indiferente, ou no máximo poderíamos vê-la como amiga. Outras vezes, somos nós as vítimas das setas certeiras, mas o maroto jovem de asas voou para longe esquecendo-se de também mirar no peito da jovem que agora amamos. Quão cruéis podem ser os deuses.

E a tragicomédia humana segue seu curso, repetindo sempre e mais uma vez a piada que parece nunca perder a graça para o jovem eterno que é o amor. A cada novo ser humano renasce a possibilidade para esse jogo de gato e rato, além de um desejo de encontrar algo que parece nos faltar. Passamos muito tempo de nossas vidas sozinhos, e precisamos de solidão, mas o veneno da solidão é muito pior do que o das setas de Eros. Ele é um veneno insidioso e que não nos mata, mas rouba-nos aquilo que é o sal da vida. O veneno da seta de Eros não paralisa, como o faz o veneno da solidão, ao contrário, faz com que nos movamos. Não há estase que resista as flechas de Eros.

Mas seguimos nesse labirinto que é a vida, sem o fio dourado de Ariadne e sem nos confrontarmos com o minotauro, tateando por paredes sem fim, incapazes de enxergar ao certo para onde vamos, e vítimas das brincadeiras cruéis de um deus menino. Ainda assim, abençoadas sejam as setas da aljava de Eros, sem elas esse caminho tortuoso seria bem pior e bem mais sombrio, mesmo quando elas nos levam para as trevas, ou para a solidão, ainda assim a ferida que causam é bem vinda. Esse errar nos faz perceber, ou deveria nos fazer perceber, como é rara e bela a graça de fazer parte da vida de alguém, como isso é um dom, algo deo concedente. O mistério do ser passa pela reunião daquilo que foi separado, mas que originalmente era um, esse mistério se revela a todos aqueles que se abrem de maneira incondicional as travessuras de Eros, e está eternamente velado aqueles que temem seu arco implacável.

Uma vez mais, ao tentar deitar a pena ao papel para falar do que eu sinto, me perco em metáforas e simbolismos arcaicos, mas o fato é que estou cansado da solidão, exausto eu diria. Cansado da superficialidade, da falta de compromisso e de tudo aquilo que cheira a farsa, a mentira, ou a contrafação. Gostaria de poder dizer que estou em busca da minha verdade, mas creio que é mais correto dizer que a minha verdade, que vinha me perseguindo há tempos, finalmente me agarrou e não me permite mais tolerar a falsidade, ou a solidão...

sábado, 28 de julho de 2012

Casamento


O amor da forma a todo o universo
Mesmo aos abismos do inferno
(Joseph Campbell)

Meu jovem amigo Thiago Gimenes casou recentemente. Em virtude desse fato resolvi escrever algo sobre o casamento como um presente ao meu camarada Thiago. Não que eu seja um profundo conhecedor do assunto, talvez seja exatamente o oposto, mas pretendo trazer de forma clara e concisa a opinião de homens bem mais sábios do que eu como Campbell e Jung, para ajudar a iluminar o caminho que se inicia para o Thiago. Eu desejo a ele toda a felicidade e, além de lhe regalar com um espremedor de frutas ou algo do gênero, também lhe dedicarei esse pequeno ensaio, pois às vezes ao desejo e ao pensamento positivo devemos somar a ação concreta, nem que seja um modesto escrito.

Existem muitos livros sobre esse tema, alguns bons outros nem tanto, sobre o tema do relacionamento entre homens e mulheres então já se gastou um oceano de tinta. Alguma dessa tinta poderia ter sido mais bem utilizada, e espero que esse não seja o caso do meu esforço. Mas se faço alusão a esses fatos não é para ressaltar qualquer característica de inovação desse texto, mas para mostrar que se trata de um tema de suma importância, que afeta a vida de todos desde tempos imemoriais. Trata-se de um problema humano geral. Certamente o relacionamento do meu amigo possui suas peculiaridades e idiossincrasias. Todavia, como um relacionamento humano e imorredouro, um aspecto coletivo de nossas existências individuais, é possível falar das dificuldades que são comuns a todos nós. Lembro-me vivamente das palavras de Horácio que chocaram a velha Roma sobre o relacionamento entre homens e mulheres. Uma das coisas que disse o poeta foi que nessa relação o homem não é a seta, mas o alvo, pois quando resolve conquistar uma mulher é por que já foi conquistado por ela. Como se pode ver por este exemplo e centenas de outros que poderiam ser elencandos, desde muito antes do Thiago e a Jana se casarem já se escrevia sobre o casamento, mas esse texto é dedicado especialmente a essa união.

Jung certa feita discutiu o matrimônio como um relacionamento psíquico, nessa perspectiva, todo relacionamento psíquico só existe se existir consciência, esse é um pressuposto fundamental. Não pode existir relacionamento psíquico entre dois seres humanos se ambos se acham em estado de inconsciência. Certa feita Jung ao discutir o papel da consciência e o motivo desta tender ampliar-se e aprofundar-se, e por que a natureza se dignou a inventá-la, disse “é porque sem a consciência as coisas vão menos bem”. A liberdade pressupõe sempre a consciência, sem ela não é possível o indivíduo se desviar do instinto e do automatismo inconsciente. Felizmente, a medida da ocorrência da inconsciência total é muito pequena, todavia não é nada desprezível a amplitude das “inconsciências parciais”, e a sua existência também reduz o relacionamento psíquico.

Desde a mais tenra infância quando a consciência emerge das profundezas da vida psíquica, passamos por um processo gradativo de desenvolvimento espiritual que significa ampliação da consciência e que, de uma maneira ou de outra, não cessa enquanto vivermos. Ao falar aqui de consciência convém deixar claro que se trata da consciência do eu, para me tornar consciente preciso me distinguir dos outros, apenas onde existe essa distinção pode haver um relacionamento, infelizmente (ou felizmente) essa distinção permanece repleta de lacunas e vastas regiões de nossa vida psíquica podem permanecer inconscientes. Onde ainda reina a primitiva identidade inconsciente entre sujeito e objeto, do “eu” com os outros, há uma ausência completa de relacionamento.

Na idade em que normalmente o jovem de nossa sociedade se casa, ele já tem uma consciência do eu que vem se aprofundando e se ampliando desde a infância, todavia possui ainda vasta região que permanece nas sombras, inconscientes. A despeito de se considerar plenamente consciente de um ponto de vista subjetivo, o jovem na maioria das vezes age levado por motivos inconscientes. Na prática ele possui um conhecimento insuficiente de seus motivos e dos do outro. Um efeito pragmático dessa inconsciência é que quanto maior for a sua extensão menor será a capacidade de livre escolha no que diz respeito ao casamento. Alguns dos motivos inconscientes mais poderosos são os que se originam da influência dos pais. A ligação inconsciente com os pais dificulta a escolha do consorte, isso devido ao fato de que “em regra, a vida que os pais podiam ter vivido, mas foi impedida por motivos artificiais, é herdada pelos filhos, sob uma forma oposta”. Em termos mais práticos, os motivos inconscientes que limitam a liberdade do indivíduo e cerceiam sua vontade o forçam a tomar um rumo na vida que compense o que os pais não realizaram na própria vida. Jung gostava muito de citar um ditado Suíço de que “filho de pastor e vaca de moleiro nunca dão pra coisa boa”, pois, por exemplo, pais exageradamente moralistas têm filhos sem moral (no caso de o seu desenvolvimento espiritual manter essas lacunas a consciência no que concerne a ligação com os pais).

Outra influência daninha é a inconsciência artificial dos pais. Por exemplo, uma esposa que de modo artificial se mantém inconsciente para não perturbar as aparências de seu casamento e sua tépida harmonia doméstica, mas inconscientemente conserva o filho muito preso a ela quase como um substituto do marido. A influência oculta dos complexos que os pais negligenciaram em si mesmos ou acumularam afeta os filhos, pois a inconsciência produz falta de diferenciação, e na prática isso leva o indivíduo a sempre supor uma estrutura semelhante a sua no outro. Esse ponto é de extrema importância, É essa diferenciação que permite uma ação moral, pois no momento em que alguém se identifica com o elemento coletivo, ele tentará impor a todos os demais as exigências de seu inconsciente, pois esse tipo de identificação acarreta um sentimento de validez geral, nesse caso, ignorará completamente as diferenças da psique individual dos demais, pois uma atitude coletiva pressupõe esta mesma psique coletiva nos outros. A conseqüência disso é um menosprezo implacável diante das diferenças individuais. Ou como dito anteriormente, a ausência de um relacionamento psíquico genuíno.

Um relacionamento pessoal (ou individual), ou seja, que se funda na individualidade das duas pessoas envolvidas e não em sua identificação com o inconsciente e onde impera o traço coletivo, só se torna possível quando se tornar conhecida à natureza das motivações inconscientes e se tiver superado em larga escala a identidade inicial. Um matrimônio raramente ou mesmo nunca se desenvolve sem crises, pois “não é possível tornar-se consciente sem passar por sofrimentos”. A maioria de nós fará de tudo para permanecer inconsciente, para não se confrontar com aquilo que muitas vezes já conhece nos outros, mas desconhece em si mesma, como disse meu amigo Filipe Jesuíno, apenas a dira necessitas ( a atroz necessidade) nos faz trilhar esse vale de lágrimas, e a necessidade de se relacionar de maneira genuína com outro ser humano é um dos motivos que podem nos fazer levar a sério o desafio de nos confrontarmos consigo mesmos. É preciso sublinhar que essa busca por aquilo que Jung chamou de “autoconhecimento” é repleta de percalços, pois o que comumente chamamos de autoconhecimento é um conhecimento muito restrito e dependente de fatores sociais, por isso tropeça em preconceitos afetivos e pretensões ilusórias. O autoconhecimento não é o conhecimento da personalidade consciente do eu, mas sim o conhecimento do fato psíquico real, das motivações inconscientes de que falava há pouco. O eu conhece apenas o seus conteúdos e desconhece o inconsciente e seus respectivos conteúdos.

Campbell afirmou certa vez “o casamento não é um caso de amor, é um ordálio. É uma experiência religiosa, um sacramento, a graça de participar da vida de alguém”. Para Campbell o casamento genuíno é o “casamento alquímico”, onde existe o entrelaçamento das psiques e a educação recíproca que provêm desse relacionamento. Nesse sentido percebemos a possibilidade do casamento, da relação pessoal e consciente, nos levar cada vez mais longe na dura via do autoconhecimento. Para Campbell, se você tem um programa ao se casar, vai logo perceber que ele não funciona na verdade é “uma queda livre a maneira como você lida com cada fato novo que acontece” um casamento bem sucedido é uma vida inovadora a dois, ambos abertos, esqueçam a programação ou o que pensaram que seria antes de casar. Deve existir um senso de responsabilidade para com a outra pessoa, se ele estiver presente o casamento durará. Amor sem um senso de responsabilidade não é amor, “tu és eternamente responsável por aquilo que cativas” ensinou a raposa ao príncipe que veio das estrelas com o coração partido. “dedicar-se a alguém, transformar seu destino em um destino duplo, é tarefa para uma vida”. Essa responsabilidade tem um significado todo especial, ela demanda um sacrifício, esse sacrifício somos nós mesmos, nossos desejos egoístas, isso precisa ser destruído. Na alquimia o processo alquímico que culminava no ouro, ou no lapis, a pedra filosofal, era composto por: fermentação, amalgamação, desintegração e putrefação, só assim ocorre a união. É preciso ter em mente que no casamento você não está se sacrificando à outra pessoa, você está se sacrificando ao relacionamento, que deve ser algo maior do que ambos. Essa união verdadeira depende da compaixão, sem isso não pode haver um matrimônio. Compaixão é “a participação imediata no sofrimento de outrem, a ponto de nos esquecermos de nós mesmos e de nossa própria segurança para fazermos o que é necessário”. Essa é a questão central do casamento “posso me abrir à compaixão?”.

Ao nos casarmos assumimos a tarefa de com o outro e pelo outro olharmos para nós mesmos, vencer empedernidos preconceitos, e caminhar para lançar luz às trevas que habitam em nós e que estão sempre a espreita. Assumimos o lugar que outrora foi de nossos pais, nos tornamos agora papai e mamãe e devemos viver isso em sua plenitude, conseguindo cortar os laços de dependência infantil. E assumimos o risco e a responsabilidade de amar alguém como a nós mesmos, a sofrer com o outro como se sua dor ferisse a nossa própria carne, estamos diante da aventura de nos modificarmos, como os reagentes que se unem e se modificam ao se tocarem. Há algo de mágico e sublime no casamento que nossa sociedade parece não mais enxergar, mas ainda está lá, para aqueles que tiverem os corações e mentes abertos.

Eu demorei mais tempo do que normalmente levaria para escrever esse pequeno mimo ao meu casal de amigos, mas havia algo preso em mim que precisava estar livre para que essas palavras realmente fizessem sentido. Falar do casamento é, sem sombra de dúvida, falar do amor, e por mais que se fale sobre o amor jamais se poderá dizer tudo, pois nada é mais universal na vida humana. Quando pensamos, o fazemos com a cabeça, e algumas pessoas dizem que amamos com o coração, pois eu digo que elas estão todas erradas. Quando somos tomados pelo amor, nós o sentimos em nossa cabeça povoando nossos pensamentos e imaginação, o sentimos em nosso coração, que parece estar tão cheio de algo estranho e sublime que enviar sangue aos órgãos não passa de um detalhe. O amor se manifesta no estômago, ao anteciparmos com um frio na barriga o momento em que vamos ver novamente a pessoa amada, nos olhos quando eles brilham de um jeito que nunca brilharam antes, na pele que parece antecipar o toque de quem se ama, o amor demanda o homem todo! Todo o corpo e toda a alma são capturados por esse sentimento que possui o estranho condão de nos fazer sentir vivos, mais vivos e mais ávidos por vida. Enquanto caminhamos por ruas cinzentas, olhando rostos sem face que passam por nós como espectros, com um buraco no peito e uma cabeça cheia de ideias, movidos unicamente pela fome, pela inércia, ou por algum juízo tolo, não sabemos o que é realmente estar vivos, não até termos nos apaixonados. Nesse momento, o sentido genuíno da vida e do mundo ao nosso redor se manifesta com uma força tão arrebatadora que mesmo o mais brilhante dos céticos, o mais loquaz dos cínicos, o mais empedernido pessimista não poderia nos dissuadir de que o mundo é um lugar maravilhoso, e que a vida vale a pena. Pensar sobre o amor é uma tolice, assim como falar sobre ele sem se deixar tomar pelo enlevo divino que é essa emoção, a mais poderosa que o ser humano pode almejar sentir. Que lamentável passar pela vida sem ter se apaixonado! E que felicidade é perceber que duas almas se uniram irmanadas por esse sentimento, duas almas que almejam mudar o mundo e sem saber já o fizeram ao se apaixonar, ao aumentar o amor que existe nesse nosso mundinho já o tornaram muito melhor. Felicidades meus amigos, obrigado por terem se apaixonado, e sigam vivendo e sentindo da maneira mais intensa possível, nós talvez só vivamos uma vez, e viver sem amor é insuportável.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Sobre a Secretaria de Cultura no segundo Governo de Cid Ferreira Gomes


A cultura nunca foi um tema de grande relevância nos governos dos Ferreiras Gomes, mas, nesse segundo mandato de Cid, tornou-se um tema irrelevante para o governo. No primeiro mandato de Cid, o secretário Alto Filho foi alvo de críticas, mas sua gestão, vista hoje com o necessário distanciamento, foi coerente, com metas e prioridades claras. Alto privilegiou o livro e a leitura, e trouxe para a secretaria muitas inovações nessa área. Alto enfrentou a falta de dinheiro e o descaso do governador, mas o fez com muito mais brio do que o atual secretário.

A indicação do nome de Pinheiro foi vista com bons olhos pela classe artística a princípio, mas o encanto durou pouco. Pinheiro foi vice-governador no primeiro mandato de Cid, sob os auspícios de Luiziane Lins, mas foi um vice-governador de atuação apagada e discreta e que logo se afastou de Luiziane. Os motivos desse afastamento são vários, mas alguns podem ser elencados como de interesse para a compreensão do que está acontecendo hodiernamente na cultura. Pinheiro não estava disposto a fazer a política do PT ou de Luiziane Lins como vice-governador, não bastasse isso, foi um dos petistas que mais rápida e docilmente aderiu ao projeto cidista. Seu silêncio, timidez e subserviência eram bem vistos por Cid, e mal vistos pelo resto do PT. Pinheiro é um militante histórico, que foi um importante intelectual de esquerda, e que fazia a leitura equivocada de que a aliança entre PT e os Ferreiras Gomes havia trazido o PSB e os Gomes para o campo de centro esquerda, uma quimera como se vê hoje. Pinheiro nunca foi um homem carismático ou um agitador, mas acumulou durante seus anos no PT e como sindicalista e professor um admirável capital moral e intelectual que ele transformou em fumaça com sua atuação nos últimos anos.

Como secretário de cultura, presente de grego que lhe foi dado pelo amigo Cid Gomes pelos seus serviços prestados como vice, ele demonstrou as mesmas qualidades de antes: timidez e subserviência. Sua gestão têm se caracterizado desde o início pela indecisão e a descontinuidade. Pinheiro nunca teve músculos eleitorais, e por mais que sua figura pacata e silenciosa tenha lhe trazido alguma simpatia, nunca lhe trouxe votos. Mesmo na primeira vez em que se elegeu como deputado há dois anos, sua votação foi pífia e contestada de maneira desonesta na justiça. Isso foi o bastante para tirá-lo do comando da secretaria e gerar um clima de incerteza e descaso ainda maior. Ocupado em tentar reaver sua vaga de deputado, na justiça ou por quaisquer meios que lhe fossem possíveis, deixou a Secult de lado. Pinheiro não teve autonomia para escolher seu secretário executivo nem sua adjunta, nem teve o traquejo político ou a diplomacia de trazê-los para o seu lado. Ao contrário, seu grupo político fez questão de hostilizá-los o que gerou um desgoverno sem par na secretaria.

Ao assumir, Pinheiro tentou ser leal ao amigo Alto filho e adotou o discurso da continuidade, apenas para em seguida começar a desfazer todo e qualquer avanço obtido por Alto e a afastar todos os membros de sua equipe. Na gestão de Pinheiro não é possível ver qualquer continuidade com relação a de Alto Filho, e tudo o que ele conseguiu a duras penas foi destruído em pouco tempo. O afastamento da equipe de Alto Filho teve um preço caro, pois técnicos competentes foram afastados e em seu lugar pessoas inexperientes ou francamente incompetentes foram trazidas para a secretaria. Essas pessoas passaram a ocupar cargos técnicos sem o devido conhecimento técnico, por razões de conveniência política, o que gerou um sucateamento técnico da Secult. Tantos e tais são os fatos que a incompetência da equipe de Pinheiro é fato consumado e não opinião ou especulação.

Quando as coisas pareciam estar ao menos tranquilas, Cid em malfadada jogada política para tentar submeter o PT aos seus desmandos ordena que Pinheiro se desincompatibilize da secretaria, no que é prontamente atendido. Antônio Carlos assume o seu lugar apenas para renunciar dias depois e, mais uma vez, vemos a Secult ser lançada a incerteza. A insatisfação dos artistas vem crescendo e suas manifestações têm se tornado mais eloquentes, e com justiça. Pinheiro não é diretamente responsável por todas as mazelas da Secult, Cid tem uma enorme parcela de culpa em virtude de seu centralismo e do descaso com que trata a pasta, mas Pinheiro nesse tempo todo tem aquiescido docilmente a tudo o que Cid ordena, como o fez quando vice.

É tamanho o descontentamento que poucos se recordam das promessas de Cid para a cultura, menos ainda dos planos de Pinheiro. Ele prometia um sistema estadual de arquivos públicos, mas esse projeto jaz no esquecimento, não há dinheiro, não há vontade nem competência para fazer tal coisa. Mais uma vez fora da Secult, talvez em definitivo em virtude de inúmeros fatores, entre eles a profunda insatisfação dos artistas, Pinheiro continua demonstrado falta de tato político, e um afastamento cada vez maior do PT. A saída de Pinheiro e o fim de sua desastrada administração dificilmente irá mudar alguma coisa, talvez minimamente, o funcionamento ordinário da secretaria volte a ser mais tranquilo. Os artistas, creio eu, terão de esperar por um novo governo estadual, uma nova mentalidade e um novo projeto de estado, para ver alguma mudança. Cultura não dá voto, pragmaticamente falando, essa é a verdade nua e crua que orienta os Gomes.