sexta-feira, 5 de julho de 2013

Thor, do mito aos quadrinhos e cinema e de volta ao mito.

Em breve será lançada nos cinemas a segunda adaptação dos quadrinhos do personagem Thor, da Marvel Comics, isso após o estrondoso sucesso de The Avengers, em que o personagem é um dos protagonistas. A primeira aparição de Thor nos quadrinhos se deu em agosto de 1962 (na “silver age of comics”) na revista Journey Into Mystery (vol. 1) #83, na história intitulada "The Stone Men from Saturn!". O personagem foi adaptado para os quadrinhos pelos legendários Stan Lee (argumentista), Larry Lieber (roteirista), Jack Kirby (desenhista) e Joe Sinnott. Em sua primeira aparição nos quadrinhos Thor já surge munido de seu poderoso martelo, Mjolnir, antes da aparição de qualquer outro elemento Asgardiano. Sua aparência difere da descrição tradicional das lendas nórdicas e teutônicas, por ser mostrado loiro e sem barba, ao invés de ruivo e barbado, dirigindo um carro puxado por dois carneiros que são responsáveis pelo barulho do trovão. Os traços de aproximação e distanciamento do mito de Thor nos quadrinhos variam de acordo com o roteirista, sendo incorporados ou abandonados periodicamente, assim como o aspecto mágico associado ao personagem, que vem ser firmando e ganhou força ao ser magistralmente explorado no universo paralelo The Ultimates, que tem sido a principal inspiração para os filmes mais recentes da Marvel.

Mesmo com a inspiração no mito, o Thor da Marvel Comics adquire contornos próprios, uma cronologia de histórias e sua “galeria de vilões” como são comuns aos heróis mascarados dos quadrinhos estadunidenses, mas sempre em um movimento cíclico de aproximação e afastamento do mito nórdico, seja em seus elementos narrativos, seja em sua estética visual (o desenhista responsável pelo visual do Thor de Straczynski usa como fecho do cinto do deus do trovão a runa Uruz que representa força bruta e boa saúde). Nos quadrinhos Thor é punido por seu pai Odin por sua arrogância e lançado a Midgard (o reino mortal) na pele do médico aleijado Donald Blake, sua bengala, ao ser batida contra o solo se transformava em Mjolnir e o fazia recobrar seu status divino e poderes sobrenaturais para defender o reino mortal contra qualquer ameaça. Esse aspecto aparece e desaparece nos quadrinhos, tendo sido resgatado por J. M. Straczynski. No filme de 2011, dirigido por Kenneth Branagh e estrelado por Chris Hemsworth no papel de Thor, Blake é mencionado apenas de passagem como uma referência críptica aos quadrinhos somente perceptível aos fãs do personagem. O aspecto da arrogância de Thor, que está presente nos primórdios do personagem nas páginas dos quadrinhos, também é explorado no filme, por mais que se resolva rapidamente, esse aspecto em particular me parece ser o elo de ligação mais importante entre o mito e suas adaptações tanto para os quadrinhos quanto para o cinema.

A. QE. Keary, em seu Tales of the Norse Warriors Gods, narra a história da viagem de Thor a Jötunheim, a terra dos gigantes, (How Thor Went to Jötunheim), nessa viagem, em diversos momentos, mesmo com sua imensa força, por meio de artifícios mágicos ele é obrigado a se tornar mais humilde, apesar de realizar feitos inacreditáveis. Junto de seus servos Thialfi e sua irmã Roska, bem como Loki, Thor atravessou um longo e difícil caminho até o final de Manheim cruzando o oceano, até chegar à terra cheia de névoas e rochas, de Jötunheim em uma floresta eles pararam para descansar e encontraram um enorme salão vazio e no interior desse salão cinco quartos onde se alojaram. Após o jantar foram dormir apenas para serem acordados por um barulho infernal, Thor se mantém de vigília mesmo após seus camaradas terem ido dormir e após algum tempo descobriu que a origem do barulho era um colossal gigante que ressonava, a ponto de sua inspiração mover em sua direção o topo dos pinheiros, tão imenso era o gigante que o salão que abrigou confortavelmente Thor e seus companheiros não passava de sua luva caída ao solo. Ao ver o gigante Thor resolve desafiá-lo, pois era esse o objetivo de sua jornada provar seu valor se batendo contra os gigantes. O gigante ao despertar reconhece Asa Thor, e o observa do alto com seus “grandes olhos enevoados, como lagos azuis nas montanhas”, e ridiculariza seu tamanho e o desafia a atacá-lo, nesse instante Thor não consegue fixar seus olhos no monstro, que se apresentara como Skrymir, pois sua aparência parecia mudar constantemente. Mesmo assim ergueu seu martelo encantado e o arremessou contra o gigante num golpe formidável, este retrucou “Há! Há! Uma folha me tocou?”. Thor agarrou novamente Mjölnir que sempre retornava a suas mãos não importando para quão longe fosse arremessado (elemento incorporado aos quadrinhos e fundamental para o personagem, tanto que esse aspecto, fiel ao mito se manteve sempre constante e jamais foi alterado), e o lançou novamente com ainda mais força, dessa vez o gigante caçoou “Eu penso, que uma bolota deve ter caído na minha cabeça”. Da terceira vez Thor arremessou seu malho com uma força inaudita, como nunca antes lançara o poderoso Mjölnir contra qualquer outro adversário, fazendo uso de cada iota de sua força descomunal. Dessa vez o gigante gargalhou alto fazendo pouco do Aesir e disse “com certeza há um pássaro naquela árvore, que deixou cair uma pena em minha face!”. Então ele se virou, jogou sua bagagem imensa as costas, agarrou sua luva caída e sem prestar mais atenção ao deus do trovão se dirigiu para fora da floresta, após caminhar um pouco ele se virou, seu rosto parecia menos humano e mais a forma pedregosa do topo de uma montanha sobre um precipício, e disse “Ving-Thor, deixe-me lhe dar um conselho antes que eu me vá. Quando você chegar a Utgard, não se vanglorie. Você pode me considerar um homem alto, mas os há ainda mais altos para se ver, e você é apenas um diminuto passarinho, retorne para onde veio e se satisfaça em ter aprendido algo sobre si mesmo em sua jornada a Jötunheim”. Ultrajado o Aesir gritou de volta “passarinho ou não, isso eu jamais farei! Encontraremos-nos novamente e algo mais aprenderemos, para que possamos ensinar um ou outro!”. O gigante se virou e não retrucou, continuando seu cominho sem prestar mais atenção em Thor e seus companheiros de viagem.

É importante notar que o mito é em si mesmo a sua melhor interpretação, pois o seu significado está contido na totalidade dos temas que ligam o fio da narrativa e possui um significado simbólico essencial, expresso numa série de figuras e eventos simbólicos e que, como assevera Von Franz, cada Deus, corresponde, no plano do mito, a um estilo de comportamento instintivo específico. Nesse ponto do mito está expresso nas palavras do gigante Skrymir o significado simbólico da jornada de Thor a terra agreste e selvagem dos gigantes, trata-se de uma jornada de autoconhecimento. Nesse sentido, no filme de Kenneth Branagh, de uma maneira bem mais capenga, a jornada ao reino dos homens (Manheim) é igualmente uma jornada de autoconhecimento. Toda a jornada de Thor a Jötunheim exemplifica de maneira psicologicamente extremamente precisa, e com grande plasticidade, o significado essencial de autoconhecimento. Jung, ao tratar desse tema assim o definiu.

Normalmente confundimos "autoconhecimento" com o conhecimento da personalidade consciente do eu. Aquele que tem alguma consciência do eu acredita, obviamente, conhecer a si mesmo. O eu, no entanto, só conhece os seus próprios conteúdos, desconhecendo o inconsciente e seus respectivos conteúdos. O homem mede seu autoconhecimento através daquilo que o meio social sabe normalmente a seu respeito e não a partir do fato psíquico real que, na maior parte das vezes, lhe é desconhecido (...) O que comumente chamamos de "autoconhecimento" é, portanto, um conhecimento muito restrito na maior parte das vezes, dependente de fatores sociais - daquilo que acontece na psique humana. Por isso, ele muitas vezes tropeça no preconceito de que tal fato não acontece "conosco", "com a nossa família", ou em nosso meio mais ou menos imediato. Por outro lado, a pessoa se defronta com pretensões ilusórias sobre suposta presença de qualidades que apenas servem para encobrir os verdadeiros fatos. (Jung, 2011, p.x).
O que está expresso nas figuras e eventos simbólicos do mito de Thor é justamente esse processo, penoso e moralmente custoso, visto normalmente ter que, nolens volens, significar abrir mão de ilusões acerca de nós mesmos e acerca dos outros, o que pode ter muitas vezes o sentido e o significado de knockout moral. Tais pretensões ilusórias sobre a suposta presença de qualidades, que encobrem os verdadeiros fatos, normalmente constituem o núcleo de nossa identidade, visto essa repousar sobre vasto campo de inconsciência, e ser essa inconsciência extremamente conservadora, treva densa e difícil de atravessar sem a ajuda dos deuses, e que não se modifica sem passar pelas chamas dos afetos. Thor é um herói, não um ser humano, mas uma figura divina e seria um equívoco tentar a força, tal qual leito de Procusto, identificá-lo com a personalidade empírica. Nunca é ocioso recordar que o mito é fundamentalmente uma manifestação da essência da alma (Seele), uma expressão dos processos psíquicos do inconsciente coletivo. E que o inconsciente (Unbewusst) possui uma relação compensatória/complementar com a consciência, e que nesse caso, o mito, enquanto expressão da alma, e oriundo de uma cultura particular (em termos psicológicos nossa consciência suprapessoal), possui para com essa cultura, tanto em seus aspectos determinados histórica e geograficamente, quanto para aquilo que, inevitavelmente, há de humano geral, uma relação igualmente compensatória/complementar. A consciência (Bewusstsein) é um processo momentâneo de adaptação, que tende a unilateralidade e a petrificação, nesse sentido, sua unilateralidade a afasta de suas bases instintivas, o que pode levar a um colapso adaptativo. O arquétipo é a imagem do instinto, todo arquétipo possui um contraponto correspondente instintivo (podemos também dizer que o arquétipo é o padrão do instinto), e o símbolo, organizado arquetipicamente operacionaliza na consciência a participação do inconsciente, permitindo uma vez mais a essa consciência adaptar-se as condições cambiantes da alma e do mundo. Em seu caráter simbólico é isso que faz a imagem do herói, como Thor em nosso caso. Ao mesmo tempo o símbolo do Herói, a personalidade mana, é gestado pelas matrizes criativas inconscientes (não raro de forma espontânea e sem a participação da consciência, daí o frequente tema do nascimento virginal), para promover a passagem anagógica da pura instintividade em direção a um estágio mais espiritualizado, elevando o puro instinto e sua energia à possibilidade da realização cultural. O inconsciente engendra o símbolo do herói e, portanto ele significa uma mudança de atitude, o herói, por mais que suas qualidades mudem com as eras, personifica as qualidades que as pessoas mais valorizam, ele se manifesta como um protesto humano contra a natureza, contra a direção unívoca do instinto. Segundo Von Franz, o herói constitui uma tentativa do inconsciente de gestar um modelo de complexo de eu que se comporta de maneira adequada, que permanece em harmonia com as exigências da psique, paradoxalmente, o herói é aquele que sempre se comporta segundo os seus instintos.

Jung assevera, em seu clássico “Símbolos da Transformação”, que o herói possui um significado teleológico como figura simbólica que reúne em si a energia psíquica em forma de admiração para conduzi-la a esferas mais elevadas por meio das pontes dos símbolos. O Herói é um tipo ideal de vida masculina, ele é, ao mesmo tempo, um drama inconsciente que só aparece na projeção.  “O herói é o ator da transformação de Deus no homem; corresponde àquilo que denominei de ‘personalidade mana’.” (Jung, 1999). O símbolo, tomado de modo denotativo, não pode ser considerado uma verdade concreta, mas é psicologicamente verdadeiro. Sabemos, por meio da existência de sonhos, visões, delírios, dos mitos, lendas, contos de fadas e da arte, que a alma cria símbolos cujo fundamento é o arquétipo, que são elementos estruturais, numinosos (o númeno é compreendido, entre outras coisas, como a energia específica própria do arquétipo), autônomos e possuidores de energia específica (númeno). Os símbolos funcionam como transformadores de energia e age de maneira convincente e, ao mesmo tempo, exprime o conteúdo da convicção, isso graças ao númeno do arquétipo, e a vivência do arquétipo é impressionante e comovente.

(...) Nenhum elemento do mito do herói é susceptível de uma só interpretação e – cum grano salis – todas as figuras podem ser trocadas. Certo e seguro é apenas o fato de que o mito existe e possui inegáveis analogias com outros mitos. (Jung, 1999, p.377).

Continuando a jornada pela sombria e enevoada terra de Jötunheim, Thor e seus três companheiros deixaram a floresta e após algum tempo, em uma árida planície se depararam com uma cidade murada imensa, certamente habitada por gigantes, com seus portões barrados, mas eram portões tão colossais que o Aesir e seus camaradas puderam facilmente passar pelas grades, como se não passassem de camundongos. Eles caminharam por um longo tempo sem ver viva alma, até que por fim avistaram um grande salão com as portas abertas e se resolveram a entrar. No interior do soturno salão eles encontraram uma longa mesa de banquetes e ao redor dessa mesa vários tronos de pedra, e nesses tronos se sentavam gigantes, cada um mais soturno, frio e pedregoso do que o outro, um deles se sentava num trono mais elevado e parecia ser o líder e a esse Thor dirigiu seus cumprimentos. Sem nem mesmo se levantar o líder dos gigantes falou de maneira despreocupada “Eu penso que se trata de um costume tolo importunar viajantes cansados com perguntas sobre a sua jornada. Eu sei sem precisar perguntar que você, homenzinho, é Asa Thor. Talvez, todavia, você talvez seja mais alto do que aparenta; e é a regra aqui que ninguém possa sentar-se a essa mesa até ele ter executado algum feito maravilhoso, deixe-nos ouvir no que você e seus seguidores são famosos, e de que maneira vocês escolhem se mostrar dignos de sentar-se na companhia de gigantes.”.

Cada um dos camaradas de Thor foi desafiado e humilhantemente derrotado, Thialfi numa corrida e Loki numa competição para ver quem comia mais, mas vamos nos concentrar nos desafios de Thor, nos quais ele foi igualmente batido, todas às vezes. Thor propôs a uma competição de bebida. O rei, que se chamava Utgard, ordenou a seus servos que trouxessem um cálice especial chamado de “taça da penalidade”. E desafiou o Aesir a esvaziá-lo de um único gole, segundo o rei era comum esvaziá-la com um único gole, alguns a esvaziavam com dois, apenas o mais insignificantes em três goles. Thor tentou esvaziá-lo de um único gole, mas não conseguiu mover o volume em seu interior nem um milímetro! Thor tentou novamente com todas as forças, mas o volume na taça diminui de maneira muito discreta. Na terceira vez, com toda a sua força e vontade, com uma energia descomunal e sem paralelo entre mortal ou Aesir, mas ao olhar a taça, percebeu que o líquido recuara apenas um pouco da borda.
Thor não se deu por derrotado e requisitou que os gigantes escolhessem um novo feito para que ele demonstrasse o seu valor. O rei dos gigantes sugeriu uma brincadeira apreciada pelas crianças da cidade, simplesmente erguer o seu gato do chão. Um grande gato cinzento adentrou o salão e Thor tentou erguê-lo, mas mesmo com toda a sua força ele pôde, no máximo, erguer um pouco uma das patas do animal. Asa Thor estava enfurecido, os gigantes não perdiam a oportunidade de escarnecê-lo a cada derrota, e o Aesir desafio qualquer um deles para uma luta corpo a corpo. Para enfrentar Thor, Utgard convocou a velha Elli. Quando ela surgiu, era decrépita, velha e sem dentes, e Thor sentiu por ela uma grande repugnância, mas não podia recuar. O poderoso guerreiro lutou com toda a sua força e bravura, por um longo tempo, mas foi tomado por uma sensação de vertigem e fraqueza e seu joelho tocou o solo, estava derrotado. Os testes tinham terminado e Thor e seus companheiros derrotados. Os gigantes os convidaram a sentar a mesa e Thor se comportou com elegância como um bom perdedor. Pela manhã, o rei dos gigantes o acompanhou até os portões (nesse momento o Aesir percebeu que ele era ninguém menos que Skrymir) e perguntou a Thor como ele se sentia a respeito de sua jornada a Jötunheim. Humildemente Thor se confessou desapontado e triste, pois doravante na terra dos gigantes ele seria tido como um guerreiro sem valor. Skrymir rejeitou essa afirmação, e disse que Thor jamais teria atravessado os portões de sua cidade se ele não soubesse de seu grande valor, por fim ele disse.

Todo esse tempo eu estive ludibriando você com meus encantamentos. Quando você me encontrou na floresta, e arremessou Mjölnir contra a minha cabeça, eu teria sido esmagado pelo peso dos seus golpes se não tivesse habilmente colocado uma montanha entre mim e você, onde seus ataques aterrissaram surgiram três profundas ravinas, que de agora em diante se tornarão vales verdejantes. Da mesma maneira eu o ludibriei sobre as provas em que vocês se engajaram noite passada. Loki comeu como se fosse a própria fome, mas Logi é fogo, que, com sua ávida língua, lambeu a comida e a destruiu. Thialfi é o mais rápido dos corredores mortais, mas o esguio rapaz, Hugi, era o meu pensamento, que velocidade pode se igualar a isso? O mesmo se deu em seus testes. Quando tomou tais profundos goles do chifre, você mal sabia que feito maravilhoso estava realizando. O outro lado do chifre alcançava o oceano, e quando você for até a costa verá o quanto as águas se afastaram, e quanto o mar se tornou menos profundo devido aos seus goles. (...) o que você tomou por um mero gato, era de fato a serpente de Midgard que envolve o mundo, quando você ergueu sua pata, nós trememos, e as fundações da terra e dos mares ficaram abaladasNão há motivo para ficar envergonhado por ter sido derrotado pela velha Eli, pois ela é a velhice, e não há nem nunca haverá alguém que ela não tenha o poder de derrubar. (KEARY, 2005, pp72 e 73, tradução minha).
Ao escutar tais palavras Thor tentou desafiar o gigante para um teste força, porém Skrymir e a cidade se desvaneceram, o Aesir então disse “que tolo eu tenho sido, por permitir que fosse logrado por um gigante da montanha!”, uma voz respondeu do alto “eu disse a você, você aprenderia a conhecer mais sobre si mesmo por meio de sua jornada a Jötunheim. Este é a grande utilidade das viagens”. Thor, ao se perceber um tolo, ao notar que mesmo com sua força descomunal e poder inigualável, poderia ser logrado e vencido realiza a mudança de atitude necessária, sua atitude unilateral baseada apenas no poder, no uso da força para subjugar a tudo e a todas, é compensada pela esperteza e poderes de encanto e ilusão do gigante Skrymir, que se tivesse escolhido testar sua força contra Thor teria certamente um destino funesto, atitude aqui compreendida como disposição da psique de agir ou reagir em certa direção. A derrocada de Thor foi uma derrota e um Knockout moral que lhe permitiram conhecer mais sobre si mesmo. Não é debalde, todavia, que Thor se bate contra gigantes em suas aventuras, como veremos adiante.
Tanto no filme quanto nos primórdios dos quadrinhos de Thor, sua falha de caráter, ao invés de ser uma identificação com o princípio do poder, toma a forma de uma neurose mais comum em nossos tempos. Apesar de um pouco arrogante, o principal problema de Thor residia em sua imaturidade. O aspecto compensatório ainda está presente, mas faz bem menos sentido e é bem mais capenga, talvez pelo fato de tratar-se, nos casos expostos, de um trabalho sobre um símbolo com significado apenas histórico e não um símbolo vivo. É importante salientar essa diferença, pois nada sob o céu pode resistir à velha Eli e ela tem o poder de derrubar até mesmo os símbolos, assim como derrubou Thor. Um símbolo é vivo quando representa o indizível de maneira insuperável. Enquanto ele é vivo está repleto de significado, mas uma vez que se encontra, por meio do trabalho cultural que ele engendra, a expressão que melhor formula aquilo que era apenas obscuramente pressentido, e só podia ser por ele representado, o símbolo está morto, ergo, terá meramente significado histórico. Ao nos referirmos a ele como símbolo, partimos da pressuposição tácita de que nos referimos ao que ele representou no passado, antes que dele brotasse uma expressão melhor.
Vejamos ainda, por meio de outras das histórias de Thor, que elementos de convergência existem entre o mito e os quadrinhos. Em outra história, Loki estivera se aventurando no reino do gigante Geirrod e foi por ele capturado e aprisionado, pois o gigante o reconheceu mesmo na forma de gavião em virtude dos olhos peculiares de Loki. Deixado em estado de inanição por três meses Loki foi coagido a trazer Thor até a fortaleza do gigante, mas sem estar portando seu martelo encantado (Mjölnir) e seu cinturão de força. Aqui vemos um elemento que na maior parte das histórias em quadrinhos de Thor se faz ausente, seu cinturão mágico. Loki ludibriou Thor como fora comandando por Geirrod, mas o deus do trovão foi salvo pelo alerta de uma boa giganta que lhe emprestou um cajado mágico, outro cinturão e luvas de ferro, com os quais pôde enfrentar o gigante e suas filhas. A primeira filha do gigante se postou no meio do rio Vimir e com seu corpanzil fez o rio transbordar e quase afogou Thor, mas este a abateu com uma grande rocha e escapou das águas ileso. Em seguida Thor penetrou no palácio e sentou-se em uma cadeira, de súbito ele sentiu a cadeira ser erguida até o teto, ele teria sido esmagado se não fora pelo cajado que usou para forçar a cadeira para baixo e com isso partiu as costas das outras duas filhas de Geirrod que a estavam empurrando para o alto. Geirrod atacou o Aesir jogando uma bola de ferro quente contra ele, mas graças às luvas de ferro Thor pôde agarrar a bola sem se queimar. O gigante se agachou por trás de uma pilastra, mas com sua força descomunal o deus do trovão arremessou bola que atravessou a pilastra e abateu o gigante[1].

Como vemos, a fonte do poder de Thor está em seus objetos miraculosos: seu malho mágico e cinto de força. Sobre esse tipo de objeto de poder existem inúmeros paralelos, como os raios de Zeus forjados por Hefestos, o elmo de Ares, as sandálias e elmo alados de Hermes, a lança de Wotan, suas runas mágicas que lhe permitem conhecer o futuro, a pele do leão de Neméia que Héracles vestia como uma armadura, a espada Kusanagi (草薙) de Yoshitsune (義経), o manto de penas e o leque dos Tengus (天狗), o martelo e tambor do duque do trovão o imortal Lei Gong (雷公), os tambores adornados do símbolo tomoe de Raijin (雷神) o deus do trovão japonês, o saco de vento de Fuujin (風神), os exemplos poderiam se estender indefinidamente. Pois bem, como vimos o martelo Mjölnir nos cinemas e quadrinhos é um aspecto importante do personagem, assim como o malho místico do mito, ele sempre retorna as mãos de Thor após ser arremessado, e, além disso, nos quadrinhos, boa parte dos poderes mágicos do deus trovejante derivam do martelo. O cinto de força normalmente está ausente, exceção feita ao Thor do universo Ultimate. Nesse arco de histórias, o leitor é conduzido pelo roteiro a se questionar se Thor é realmente um deus, ou se não passa de um lunático com delírios de grandeza, nessa série, todos os poderes de Thor derivam de seu malho e de uma veste que faz às vezes do cinto de força e lhe concede força e vigor sobre humanos, sem esses dois objetos ele fica desprovido de qualquer poder ou faculdade sobrenatural.

Ao martelo Mjölnir é acrescentada a faculdade de só poder ser erguido por Thor, ou por alguém digno do deus do Trovão. Da mesma maneira, algumas de suas faculdades miraculosas estão ausentes, como a capacidade demonstrada na história de sua jornada a Jötunheim de ressuscitar os mortos. Para os Aesir o malho encantado Mjölnir era seu maior tesouro, pois lhes defendia dos gigantes, nos templos dedicados a Thor ele estava sempre retratado com o martelo em punho e nos rituais de casamento ele era utilizado para consagrar a noiva. Além disso, o martelo era erguido para consagrar o bebê recém-nascido, há evidências que também era utilizado nos ritos fúnebres, pois no mito da morte de Balder ele foi utilizado para consagrar o barco funerário antes que lhe ateassem fogo. Um sinal de proteção semelhante ao sinal da cruz cristão era chamado de “sinal do martelo”, o mesmo que Thor utiliza para trazer de volta a vida seus dois bodes sacrificados para que se banqueteassem com eles, num claro paralelo a eucaristia cristã. No século X era uso corrente utilizar preso ao pescoço como amuleto o martelo de Thor, talvez em uma possível reação aos cristãos que utilizavam uma cruz pendurada ao pescoço. As representações norueguesas do martelo de Thor possuíam um anel de metal preso ao final do cabo, para facilitar o arremesso (característica preservada nos quadrinhos exatamente com a mesma finalidade, menos no martelo do Thor do universo Ultimate). Outra representação do martelo, e, por conseguinte de Thor, era a cruz suástica, ou cruz gamada. Bem antes de seu uso pelo nazismo na Alemanha, ela já era conhecida em várias partes do mundo desde a mais remota antiguidade (a utilização da suástica nazista se deve, em parte a um retorno a símbolos e práticas pagãs por parte dos nazistas), é provável que exista uma ligação entre a suástica e a roda do sol, conhecida desde a idade do bronze, ou pode ter surgido do uso do machado ou martelo para representar o trovão, que sempre se fazia acompanhar do raio, o fogo celeste. Thor era o deus que mandava o raio e a chuva, e é plausível que a suástica estivesse relacionada a ele. A suástica e o martelo podem ser vistos em pedras com inscrições rúnicas na Noruega e Suécia e algumas delas invocam Thor para proteger o lugar do funeral, a runa Thurisaz, segundo algumas fontes também representa o malho de Thor. Ao que indicam esses e outros indícios, o poder de Thor, simbolizado por seu martelo, se estendia por uma gama ampla de assuntos importantes para a comunidade, ele dizia respeito ao nascimento, casamento, juramentos e ritos fúnebres[2].

A famosa arma de Tor não era apenas símbolo do poder destrutivo da tempestade e do fogo do céu mas também uma proteção contra as forças do mal e da violência. Sem ela, Asgard não poderia mais ser protegida dos gigantes, e os homens contavam com ela também para lhes dar segurança e garantir a regra da lei. (Davidson, 2004, p.70).

Perceba-se que esse aspecto que, mutatis mutandis, pode ser chamado de propriamente “religioso”, está ausente dos filmes, é como se sua divindade não estivesse relacionada ao mundo mortal ou sua adoração, mesmo que pretérita. Nos quadrinhos a maior parte desses aspectos, importantes para formar um quadro mais completo de Thor estão totalmente ausentes. Sua adoração como divindade pelos mortais foi parcamente explorada nos quadrinhos. No malfadado universo 2099, os deuses nórdicos, bem como os heróis, sumiram, e surgiu um culto a Thor, e alguns personagens até mesmo usavam o pingente em forma de martelo para se distinguirem como devotos do deus. Na cronologia normal, quando os deuses passaram a habitar a terra e Thor adquiriu os poderes de Odin, alguns mortais passaram a venerar os deuses nórdicos, todavia, o melhor exemplo de exploração desse aspecto, mesmo que de maneira superficial se dá com o roteiro de The Ultimates, de autoria de Mark Millar, em que Thor passa a congregar ao seu redor um grupo de seguidores new age, que em muito recordava o atual neopaganismo, principalmente em sua versão estadunidense criada por Gerald B. Gardner, a Wicca, com sua crítica difusa ao modo de vida capitalista e tendências ecológicas. Nesse arco de histórias Thor figura entre seus seguidores mais como um “guru new age” do que como um Aesir, um deus do trovão e da tempestade, ligado a fertilidade e a proteção, com uma ritualística e iconografia bem estabelecida.

Thor não é apenas um deus de grandes acessos de fúria e de força descomunal, protetor de Asgard contra a ameaça dos gigantes, ele é igualmente filho da própria terra, e existe uma ligação entre o Aesir e a fertilidade e abundância da terra, pois ele comanda o raio e o trovão, a chuva, governa o ar, os ventos, e as estações do ano (esses poderes se preservam nos quadrinhos em sua maior parte, mas com exceção dos raios estão ausentes nos filmes), de acordo com Jung, com o significado da tempestade como fecundação da terra o relâmpago tem significado fálico. Segundo Ellis Davidson, os primeiros colonizadores islandeses que levaram consigo da Noruega as colunas de cadeiras do templo de Thor, mas igualmente a terra que existia entre essas colunas e consagravam a terra em que iriam construir suas casas e iniciar suas plantações a Thor, a quinta feira (Thursday, puresdaege, Donnerstag), o dia de Thor era guardado como um dia santo. Percebe-se com clareza, pelo mito, pelos poderes a ele relacionados, e pelos rituais e áreas da vida cotidiana a ele dedicadas que Thor, assim como as forças da natureza, que em certa medida personifica, era, ao mesmo tempo, destruidor e protetor. Assim como a chuva pode ser benéfica as plantações, uma tempestade pode causar inundações e catástrofe, o vento traz refrigério, mas um furacão é uma calamidade. Na era Viking, em virtude de seu poder de comandar os elementos e as tempestades (tão temidas pelos marinheiros) ele era o guia definitivo para aqueles que se aventuravam a singrar os mares, e era o deus invocado para proteger aqueles que faziam viagens marítimas. Sendo os Vikings grandes navegadores, pode-se deduzir a importância prática de Thor entre seus devotos. Assim como no estado do Ceará, terra seca e árida a maior parte do ano, o padroeiro das chuvas, são José, e venerado com grande ardor e devoção. Esses aspectos estão ausentes da moderna encarnação do deus do trovão, nos filmes isso surge de maneira ainda mais limitada do que nos quadrinhos, onde ele não passa de um bruto, um guerreiro muito forte com uma arma impressionante, e seu aspecto de protetor fica bastante diluído. Nos quadrinhos há uma ênfase constante em seu papel como campeão de Midgard, e protetor de Asgard, que parece um pouco mais condizente com seu papel originário, apesar de que a maior parte de sua simbólica original estar completamente ausente. Outro aspecto que nunca teve lugar nos quadrinhos diz respeito ao terrível clarão dos olhos incandescentes de Thor, mencionado com frequência na poesia, bem como sua voz potente e tonitruante, ou a ligação de Thor com os grandes carvalhos e seus bosques sagrados.

Thor, um Aesir irascível e tremendamente poderoso, propenso a grandes acessos de cólera, é sempre representado se batendo contra gigantes, algo que se preserva em suas histórias “solo” dos quadrinhos, mas com ênfase em apenas um tipo de gigante, os gigantes do gelo. Nas lendas ele de fato se batia contra vários gigantes do gelo como Hrungnir, Thryn, Hymir, Geirrod e seus descendentes, no Prose Edda, Snorri descreve Thor como o Asa que derrotou todos os gigantes e berserks. Todavia o principal adversário de Thor é a serpente que circunda a terra, Jömungandr, que foi explorada uma vez nos quadrinhos, quando seus ossos ficaram fracos como os de um velho e ele precisou se encerrar numa armadura, além de ter sido privado da possibilidade de morrer Thor encarou a serpente que se disfarçava do Dragão Fing Fang Foo, e ela não o reconheceu, pois Thor estava de barba e armadura, mas ao final ele a matou mesmo antes do Ragnarok. Nessa história é feita uma menção direta ao poema Voluspá que afirma que ambos morrerão em um embate no fim dos dias durante o Ragnarok. Ao que parece em versões mais antigas dessa história, Thor derrota a serpente, como acontece nos quadrinhos, um de seus títulos era “orms einbani”, “o único destruidor da serpente”. É bem conhecida à história em que Thor “pesca” a serpente, e ela era frequentemente retratada em seus templos.

Thor foi visitar o gigante Hymir, disfarçado como um garoto, e pediu para acompanhar o gigante em uma pescaria. O gigante mandou Thor pegar a isca e ele se apoderou do maior machado de Hymir e separou a cabeça do cabo para usar como anzol. Thor remou o barco com tanta velocidade que Hymir ficou estupefato e ambos chegaram num piscar de olhos ao local da pescaria, mas Thor continuou remando, a despeito dos alertas de Hymir, pois este temia perturbar a serpente de Midgard, quando Thor lançou as águas à cabeça do machado foi justamente Jömungandr quem mordeu a isca. Thor usou sua força descomunal para trazer a tona à cabeça da serpente, a tal ponto que seus calcanhares perfuraram o casco do barco e se fixaram no leito do oceano. Quando surgiu a cabeçorra do monstro Ving-Thor ergueu seu malho encantado para esmagar a cabeça da serpente o gigante Hymir foi mais rápido e cortou a linha, permitindo a serpente submergir novamente. Furioso Thor jogou o gigante para fora do barco e retornou sozinho de volta a praia[3].

Nesse conto, como no de sua ida a Utgard, aparecem tanto os gigantes quanto a famigerada serpente, filha de Loki. Como se pode perceber, Thor é um deus de grandes acessos de fúria e um tanto quanto impetuoso (como convém a um deus das tormentas), e bastante impulsivo (intempestivo), mas qual o significado psicológico dessas imagens? As palavras de Von Franz ajudam a esclarecer um pouco mais o que está representado em Thor de nosso drama anímico imorredouro, para que ao olharmos para o deus do trovão, possamos ver, como que em espelho, tudo aquilo que medra em nossos próprios corações.

Em nossa linguagem psicológica, os deuses da mitologia são arquétipos, e os arquétipos têm simultaneamente um aspecto psíquico, que tende a se traduzir em imagens, e um aspecto instintivo. (...) podemos ligar cada deus a um campo biológico instintivo, sendo o primeiro o aspecto psíquico do segundo. Inversamente podemos afirmar que a todo dinamismo instintual corresponde uma imagem, ou um conjunto de imagens e um comportamento específico. (...) Os deuses são, pois, representações de complexos gerais, e Ares-Marte é a imagem na cultura clássica, do instinto de agressividade e de autodefesa, tal como existem na natureza. (Von Franz, 2010, p.102).

Todo arquétipo é bipolar, e comporta ao menos duas interpretações opostas, mas complementares, Thor é tanto guardião e nutridor, deus celeste que controla as chuvas e estações e fecunda a terra, quanto furioso e feroz, que se encarrega de atacar e destruir berserks e gigantes, nesse sentido, menos espiritualizado e mais instintivo, ele, assim como Ares-Marte, é a imagem da cultura Viking do instinto de agressividade e autodefesa, bem como, representa de maneira plástica as possibilidades anagógicas desses instintos. Ao adorar Thor, e conhecer as suas histórias, os antigos Vikings traziam para sua consciência de maneira organizada na forma de imagem esse funcionamento instintivo (agressão/proteção), e Thor, assim como defendia Asgard dos gigantes, protegia psicologicamente seus adoradores dos afetos descontrolados.  Nos atuais filmes da Marvel esse papel parece ter sido ocupado pelo Hulk, baseado no mister Hyde, de Louis Stevenson. Ainda segundo Von Franz, os símbolos arquetípicos possuem uma enorme carga de energia, e liberam emoções avassaladoras, e o que podemos perceber dos arquétipos, que são fundamentalmente fatores desconhecidos, são a imagem e a emoção a eles associadas. Von Franz afiança, e isso é extremamente útil para se compreender do que falo aqui que “o arquétipo é um modo comum de experimentar as coisas de maneira psicológica”(2010/2). Arquétipos são categorias da fantasia, como podemos notar aqui com clareza.

Um afeto violento e intempestivo nos traz um sentimento de poder, o que faz com que muitas pessoas não consigam renunciar ou controlar seus acessos de cólera, e não suportariam se desfazerem deles, nesses momentos elas estão como que possuídas por um deus, capazes de atos que ordinariamente não poderiam. Não à toa, entre os guerreiros o Aesir a ser adorado era Wotan/Odin, deus aparentado com Dionísio, capaz de causar imensos afetos arrebatadores, êxtase e eram a eles que eram dedicados os temidos Berserks, os acessos formidáveis de cólera dos seguidores de Wotan os tornavam guerreiros formidáveis, incansáveis e completamente destemidos. Ao mesmo tempo sem o instinto de autodefesa, de autopreservação e alguma agressividade, a vida entra em estase e não pode mais fluir, estando barrada diante de qualquer obstáculo e muitas vezes, trata-se de uma questão de vida e morte. Em termos do simbolismo objetivo, daquilo que Jung denominou de interpretação “a nível do objeto”, podemos perceber que nos mitos e contos de fadas os gigantes normalmente representam esses afetos descontrolados. No primeiro mito de Thor que apresentei aqui, todavia, os gigantes das montanhas, ou gigantes de pedra, especialmente Skrymir, desempenham outra função, pois têm uma atitude compensatória em relação à impetuosidade de Thor, compensando sua atitude unilateral identificada unicamente com o princípio do poder, mesmo Hymir, na pescaria de Thor, possui uma atitude mais ponderada do que o deus trovejante, evitando o confronto desnecessário com Jömungandr, o que contrasta com a estupidez dos gigantes em outras histórias, o que mostra, ex posistis, que os arquétipos são bipolares.

Um comportamento mais descuidado, impensado e estúpido por parte de um gigante pode-se ver na história do gigante Hrungnir. O tal gigante possuía um aspecto bastante estranho, sua cabeça, bem como seu coração, eram feitos de pedra e lutava usando um enorme escudo de pedra e uma pedra de amolar. Além disso ele possuía um cavalo de crinas douradas muito rápido chamado Gullfaxi, a história principia com Odin (Wotan) vagando com seu magnífico corcel de 8 patas Sleipner e se aventurando pelas terras onde se localizava a fortaleza de Hrungnir, cheio de arrogância o senhor dos Aesir desafiou o gigante para uma corrida de cavalos e apostou a própria cabeça, tendo como certa a invencibilidade de seu corcel, o gigante imediatamente aceitou o desafio e iniciaram a corrida. Odin, em certo momento, pressentiu que o cavalo do gigante poderia realmente vencer Sleipner e valeu-se de um ardil para evitar a derrota, virou seu garanhão e se dirigiu a fortaleza dos deuses Asgard. Quando Odin atravessou os portões, o gigante por prudência desistiu da disputa e parou com sua montaria diante das muralhas da cidade, derrotado. Enfurecido com o estratagema de Odin, e deixando de lado toda a prudência, Hrungnir atravessou a ponte Bifrost e penetrou no reduto dos Asa gritando impropérios contra Odin e se queixando de sua trapaça.

Percebendo a injustiça de seu logro, Odin convidou o gigante para jantar com os deuses, durante esse jantar Hrungnir começou a soltar a língua em virtude dos efeitos do hidromel, e a jactar-se de que comandaria os gigantes no Ragnarok e arrasaria tudo aquilo, não satisfeito gabou-se olhando para Sif e Freya de que elas seriam os mais belos troféus conquistados pelos gigantes quando finalmente esmagassem os deuses. Thor que estava fora de Asgard chegou bem a tempo de presenciar essa cena e ergueu seu martelo encantado para exterminar o falastrão quando Odin o reteve, pois não poderiam quebrar a lei sagrada da hospitalidade e ferir ou injuriar um convidado. Odin então, esclarecendo ao gigante que sua conduta era inapropriada pediu que ele se retirasse e exigiu que ele respondesse por suas injúrias em um duelo contra Thor, o beberrão prontamente aceitou.

Quando o efeito do hidromel se dissipou Hrunginir se deu conta de sua insensatez em aceitar duelar com Thor, por isso levou consigo para o campo de batalha um gigante de barro, um autômato gigantesco para se bater com o segundo de Thor, seu servo Thialfi. Quando começou a luta Thialfi ludibriou Hrunginir sugerindo que Thor poderia atacá-lo por baixo da terra, assim ludibriado ele ficou em pé sobre seu imenso escudo de pedra abrindo mão de sua proteção. O gigante arremessou sua formidável pedra de amolar em Thor, e este ao mesmo tempo lançou seu malho encantado e as duas armas se chocaram em pleno ar. A pedra se partiu em mil pedaços, e Mjölnir prosseguiu em seu trajeto até se chocar contra a cabeça do gigante que morreu instantaneamente, ao mesmo tempo Thialfi com sua grande agilidade dava cabo do autômato de barro. Acontece que Thor foi atingido na cabeça por um dos estilhaços da pedra de amolar que se cravou em seu crânio e caiu desmaiado. Nenhum dos Aesir conseguiu remover o estilhaço e uma bruxa foi chamada para realizar o feito, mas em todas as versões da história ela falha e Thor permanece com o pedaço de rocha firmemente fixado em sua cabeça.

Como vemos, ao encarar o gigante com cabeça de pedra, Thor fica ele mesmo, com um fragmento de pedra em sua cabeça, de uma maneira violenta e indesejada, ele assimila algo do gigante que derrotou, o confronto não é isento de consequências. Afinal Thor é, ele mesmo, presa de muitas das paixões que assolam os gigantes que ele combate.

Nos quadrinhos mais elementos do mito são incorporados, em um movimento de aproximação e afastamento que depende muito do viés escolhido pelo roteirista encarregado de Thor. Alguns roteiristas até mesmo já esboçaram a tentativa de transformar Asgard e os deuses nórdicos em “aliens” cuja ciência é tão sofisticada que parece ser magia (há uma pitada disso nos filmes), mas influência dos roteiros de Mark Millar sobre os filmes parece ser decisiva, mesmo assim elementos cruciais algumas vezes são abandonados de maneira leviana. Como exemplo disso no primeiro filme de Thor, vemos a perda do olho de Odin ser retratada como mera cicatriz de batalha, ao invés de ser um elemento importante de seu mito. Nos filmes o aspecto de Thor que recebe mais ênfase é a sua imensa força e resistência (como atesta sua luta contra o homem de ferro) e seu poder sobre os raios, quase todo o restante dos aspectos relacionados ao mito são abandonados, mesmo Sif, que no mito é sua esposa e nos quadrinhos tem com ele uma relação, digamos, complicada, no primeiro filme não passa de uma guerreira coadjuvante. É certo que estamos diante de algo que não se trata meramente de quadrinhos ou filmes, mas como escreveu um dos editores do Batman, estamos diante do folclore da sociedade pós-industrial.





[1] Davidson, Ellis; Deuses e Mitos do Norte da Europa, 2004, São Paulo, Madras.
[2] Ibidem
[3] Davidson, Ellis; Deuses e Mitos do Norte da Europa, 2004, São Paulo, Madras.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O movimento de massa em Fortaleza

Tenho 34 anos, milito desde os 16, Cas, movimento estudantil, partido, mas não pretendo aqui falar do meu currículo como militante, apenas deixar claro que há quase vinte anos estou acordado. Hoje, finalmente me uni ao movimento de massa que tomou as ruas do país, como observador curioso, não apenas militante, mas cientista e empirista que deseja compreender o que se passa, logo, esse escrito se trata simultaneamente de um relato da manifestação de que tomei parte e de minha reflexão crítica sobre tudo o que tenho visto e vi in loco hoje. Trata-se do relato de um jovem “velho comunista”, já um pouco ranzinza e cínico, mas realista e pragmático.
Fui à manifestação com outros dois “velhos comunistas”, companheiros que admiro, um deles me viu pequeno e militou ao lado do meu pai, o outro foi aluno do meu pai no seminário da prainha e seu primeiro movimento político foi uma mobilização, ainda durante a ditadura, para que meu pai, comunista e ateu, não fosse demitido do quadro de professores. Ainda nos acompanhava um outro jovem camarada, o mais cético e incomodado de todos com o movimento que estávamos ali para presenciar, fora praticamente arrastado. Confesso que estava empolgado, levávamos vinagre e estávamos preparados para a polícia, como nos velhos tempos. No carro meus camaradas lembravam de como encaravam a polícia do Tasso, do saco de “bilas” usado para fazer os cavalos se desequilibrarem, das baladeiras usadas para atacar o choque e do modo como nos organizávamos. Quando eu mesmo marchei contra a reunião do BID no Dragão do Mar, nos tempos tenebrosos de FHC, tínhamos uma direção, um comando, sabíamos aonde íamos e por que. Tínhamos clareza de que nos contrapúnhamos a um projeto de nação neo-liberal e tínhamos o nosso projeto de nação, hoje vitorioso, éramos todos de algum movimento, ou de algum partido e éramos muitos! Não milhares, mas algumas centenas e normalmente éramos suplantados em número pela polícia, lembro vivamente de fugir pelos becos correndo da cavalaria, sem nenhuma bila para contra atacar, mas me perco em reminiscências, coisa de “velho comunista”...
Pois bem, chegamos a Praça Portugal ainda com a luz do dia, havia já milhares de pessoas e centenas de cartazes, apoiava-se tudo e nada, um deles dizia “fora Cid”, outro “abençoado o país que acredita no senhor”, muitos contra a PEC37, e alguns poéticos e imaginativos, outros pedindo a saída de Feliciano e, como sempre, muitas máscaras e sinais da cultura de massa americana. Máscaras de Guy Fawkes, do V for Vendetta, ao menos uma máscara de Darth Vader, duas máscaras de Storm Troper, uma máscara de Iron Man, uma máscara da banda Slipknot e a máscara dos “jogos mortais”, camisetas variadas, algumas do Bob Esponja, e na maioria esmagadora, jovens com menos de vinte anos. Toda essa cultura Pop não era vítima de nossa antropofagia, ao contrário me parecia que era a máscara que nos devorava, e a contradição que gritava eloquente aos meus olhos era muda a todos os demais. Mas havia ainda mais de midiático nesse movimento, sempre tivemos palavras de ordem, e mesmo com toda a “novidade” esse movimento organizado via Facebook também tinha as suas, uma delas “o gigante despertou” tirada diretamente de um comercial de Whisk que fazia referência a logomarca da bebida e ao fato de a economia estar de vento em popa no Brasil e as pessoas poderem comprar mais Scotch. O outro grito de guerra “vem pra rua” copiado de um comercial de carro, e outro repetido muitas e muitas vezes, mostrava que somos mesmo o país do futebol, pois esse vinha diretamente dos estádios “eeeu sou brasileeeiiiro com muito orguuulhooo com muito amoooorrr!”, mas me adianto.
Estávamos na praça, e logo encontramos muitos outros militantes por ali, até mesmo o vereador Ronivaldo Maia. Roni, quando eu fazia veterinária e ele História na UECE foi quem me levou de Kombi a uma de minhas primeiras reuniões de formação política feita no CA de veterinária em uma casa de praia em idos de... bom, faz muito tempo. Pois estávamos lá, observando com curiosidade, conversando, meu jovem companheiro, o mais jovem dos quatro apontava para os cartazes com protestos e em seguida movia seu olhar para um garoto bem pequeno vendendo água “ninguém está nem aí pro trabalho infantil”. Então aconteceu a primeira tensão, que quase acabou com o ímpeto da multidão ali reunida, outros militantes, mais afoitos, levantaram suas bandeiras, coisa corriqueira em meu tempo. Todo o restante da multidão começou o gritar “baixa a bandeira!”, “sem partido!” e “oportunista!”. Parece que nossa consciência carece realmente de um sentido de continuidade histórica, esses jovens não podiam recordar, ao que parece, que a geração dos meus pais lutou pelo pluripartidarismo, proibido pela ditadura e que essa foi uma enorme conquista... Depois de quase quarenta minutos, depois uns quarenta minutos, em que uns anarquistas gritavam “sem estado e sem partido!” ao mesmo tempo em que outros gritavam por educação e contra a corrupção (bandeiras ocas), os militantes se renderam e marcharam em direção a pontes vieira.
Pensei “ótimo, agora vamos ao palácio do governo!” era esse o intuito, mas qualquer vestígio de direção ou comando fora já dissolvido e a mesma massa que expulsou os militantes se moveu na mesma direção que eles, a direção oposta a do palácio do governo. Comecei a segui-los e a me angustiar, para onde diabos eu estava indo e por quê? Ninguém ao meu redor sabia e ninguém ligava. Estávamos apenas seguindo como imenso cardume sabe-se lá deus para onde, e minha angústia crescia. Enquanto eu me perguntava pelo sentido daquilo tudo, e, de maneira menos filosófica e mais pragmática, para onde estávamos indo e com que fim, as pessoas estavam tomadas por uma espécie de transe, de uma sensação de euforia por estar marchando, por estar com o pé na estrada, na rua segurando cartazes contraditórios e gritando palavras de ordem sem sentido. Nesse momento aquilo tudo não passava de uma errância, não muito diferente das que aconteciam na Alemanha na época de Hitler quando Wotan soprava o vento da loucura. Caminhávamos sem objetivo, não adiantava perguntar, ou se questionar, apenas andar. Alguém me disse que íamos à assembleia, ao que eu retruquei que já estava fechada e vazia, mas fomos mesmo assim. Meus camaradas, “velhos comunistas” como eu, compartilhavam de minha angústia, de não saber “para onde íamos” e nem o por que. Passamos pela rede globo e ela foi vaiada e as pessoas gritavam “imprensa o povo ainda pensa!”, menos para onde ir, ou “rede globo o povo não é bobo!”, depois passamos pela Record e novamente palavras de ordem. Por fim, chegamos a assembleia, lá encontrei o meu irmão mais novo, empolgado com aquilo tudo, sua empolgação cessou quando compartilhei minha angústia com a falta de sentido para aquilo tudo, mas isso foi breve, logo a chama se reacendeu e ele seguiu. Pensei que a coisa fosse se dispersar ali, mas havia um sujeito, da direção da juventude do PCdoB, Cidistas desde a última eleição e que estavam guiando o cardume para longe do palácio, e a mesma massa que gritava contra as bandeiras os seguia.
Nós, velhos comunistas, junto de um amigo meu, mais jovem, mas menos massificados, nos questionávamos, “para onde estamos indo?”. Logo descobrimos que o tal sujeitinho do PCdoB queria guiar a massa para a ETUFOR, beeem longe dali, com a anuência de alguns dos nossos camaradas petistas beeem mais jovens e tolos do que nós. Para o desespero desses camardas mais jovens, tomados pela quimera de que estavam na direção do movimento, que não era mais do que uma turba ordeira de umas 30 mil pessoas, corremos, nós 5 para a frente e, macacos velhos, sem bandeira e sem nada, quebramos o movimento e o fizemos sair da Pontes Vieira e subir a Barão de Studart em direção, agora sim, ao Palácio!
A “direção” ficou a ver navios e a massa nos seguiu e depois nos unimos ao coração dela e deixamos que seguisse seu curso, mais contentes agora, por estarmos rumando para um alvo de significado político e simbólico, não sem nos rirmos da ironia. Mais adiante eles voltaram e levantaram as bandeiras e novamente gritos de “sem liderança!” muitos deles, impaciente eu retruquei “sem partido, sem liderança, mas vocês estavam seguindo o cara do PCdoB em direção a ETUFOR! Com as bandeira ao menos vocês sabem quem é quem!”, com cara de bobo ele retrucou “mas eles querem tomar o movimento!”, deixei ele para trás e segui, com os pés doendo, jogando conversa fora com meus camaradas, fazendo piada dos cartazes (por um tempo, em protesto ao protesto, segurei um cartaz em branco que achei no chão, esse me pareceu ser a principal reivindicação do movimento), até que chegamos ao palácio, e nem sinal de polícia ou repressão, tudo muito ordeiro e politicamente correto. Quando chegamos lá foi bonito, mesmo para um “velho comunista” cínico e ranzinza como eu, as pessoas invadiram o mausoléu e entraram ma piscina, foi bonito mesmo.

Uma coisa eu compreendi, esse é realmente um movimento irracional, não apolítico, isso não existe, mas profundamente irracional, nossa psicologia diurna não pode explicá-lo. Mas algo me tocou, para além de minha angústia de ser mera recorrência estatística na massa, pois isso não me traz êxtase ou terror, apenas angústia, esses moleques parece que começam a gostar do Brasil. A mídia os ensinou que nada nesse país presta, que tudo aqui rescinde a corrupção e decadência, que todos os demais países são melhores, mas esse movimento irracional está pendendo a balança para o outro lado, vamos ver no que vai dar. Além disso, quando os moleques saem do transe da turba, eles ainda sentem algo que talvez, talvez, tenha valor, sentem que têm algum poder, que podem fazer algo. O problema é que em sua inocência creem estar inventando a roda. Na volta para casa, cansados e doloridos, meus camaradas me contavam como marcharam do centro ao Cambeba a pé, na década de oitenta e acamparam por nove dias por lá para enfrentar Tasso Jereissate, eram tempos bem difíceis. O gigante não despertou, mas as “crianças da pátria” sim, mas elas ainda estão um pouco sonâmbulas, vagando a esmo, mas o que eu desejo ver realmente é o momento em que estarão realmente despertas, talvez nossa luta tenha herdeiros, alguém a quem passaremos o bastão quando o cansaço for demais para uma caminhada tão longa.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Fortaleza Apavorada

Creio que é o momento de refletir sobre a reação da classe média de minha cidade contra a violência, uma vez mais, ao me dedicar a esse tipo de reflexão, que pode ser feita por diversos pontos de vista, seja da história, sociologia, antropologia, e que realmente necessita desses pontos de vista para ser compreendido, trago apenas a modesta compreensão que a psicologia pode dar, sem descurar da necessidade dos demais pontos de vista e ciente das limitações que a contribuição da psicologia tem a oferecer. Começo pensando no nome que foi escolhido para batizar esse movimento “Fortaleza apavorada”, a mim me parece um nome infeliz, mas profundamente revelador. O que move as pessoas que se unem a esse movimento e que se põem a marchar exigindo as devidas providências do governo é o medo, ou melhor, o pavor. Há uma diferença de grau que não pode ser descurada, não é o mero medo que os move a agir, me parece que já vivem com medo e a ele se acostumaram, bombardeados que são constantemente pela mídia com sua dose diária de medos os mais variados, bem como os medos cotidianos que assolam as pessoas um tantinho mais abastadas, medos não nos faltam, os temos em abundância, e todos eles, em si são reais. Real é tudo aquilo que age que atua, se penso ao entrar em meu quarto escuro que a minha gravata é uma cascavel que se insinuou em minha cama e por isso fujo apavorado, esse medo é real, por mais que a cascavel não passe de uma gravata. Não se pode duvidar desse sentimento que se tornou tão basilar em nossa sociedade, principalmente pelo motivo um tanto prosaico de que, quanto menor for a ligação dele com um fato objetivo, quanto mais ilusório e quimérico, mais potente ele parece se tornar. Uma parcela significativa da população de nossa luminosa e quente cidade vive a sua vida pacata guiada por slogans, desejos quiméricos e preconceitos afetivos, presa de atroz e invencível inconsciência, não é de se espantar que se unam movidos justamente pelo medo, ou melhor pavor. O pavor surge quando ao medo cotidiano de tudo em quanto, seja da comida que pode gerar colesterol ou prisão de ventre, seja do governo que gasta impunemente os impostos daquele que “produzem riqueza” com os pobres, ou mesmo o medo dos pobres, se une a causas menos quiméricas, quando a sensação subjetiva de insegurança – bastante real – se unem dados empíricos assustadores dignos de uma sangrenta guerra civil, mais de 13 assassinatos por dia, dessa mistura explosiva surge o pavor, mas esperem, falta algo.
É sabido que, salvo uma parcela pequena da população, só nos afeta psicologicamente aquilo que nos afeta diretamente, o resto, como disse certa feita Jung, não passa de mitologia jornalística. Pois bem, acontece que em nossa bela e ensolarada cidade vivemos em nossa consciência supraindividual, em nossa cultura, algo que no indivíduo poderia se chamar de “inconsciência artificial”, e nesse ponto devemos lembrar que ao falarmos da psicologia da massa, tudo o que for válido na psicologia individual também o é para  a massa e que, as inconsciências individuais são a porta de entrada do contágio psíquico que leva a condição piscopática que por uma invencível atração magnética cria a massa. A maioria de nós, eu participo tanto do julgamento como da condenação, acostumou-se a ignorar a maior parcela da cidade, os pobres que nos cercam, um oceano de faces anônimas que em número em muito superam as classes abastadas, como se vivêssemos numa bolha, ou em realidades separadas, eles lá e nós cá. A vida não vivida cobra-nos um peço elevado, e a ignorância atua como culpa. Pois dividimos a mesmíssima cidade e ela não pode e não será dilacerada em pedaços que viverão separados, mas procuramos esse estado esquizoide em que a mão direita não sabe nada da esquerda, mas agora à esquerda nos aponta uma arma. Aí então despertamos apavorados de nossa inconsciência e descobrimos que como que por encanto essa cidade cindida é uma só e que nós também somos vítimas de seus males, e que os muros altos não  nos defendem, eles jamais nos defenderam de nossos medos, e agora não nos protegem também da violência. Daí surge o pavor, da retirada das projeções positivas e negativas, do colapso de nossas quimeras, e o que fazemos? Refletimos criticamente? Procuramos assimilar conscientemente, mesmo que de maneira dolorosa? Não, criamos novos slogans e fechamos novamente os olhos, dessa feita, caminhamos cegos guiados por outros cegos, pois a massa é não mais do que isso, uma besta cega.

Pavor, o que o pavor nos traz? Mais inconsciência, pois quando a temperatura dos afetos atinge um ponto crítico perde-se toda a possibilidade de discussão racional e surgem os slogans e desejos quiméricos ocupando o lugar da razão, nesse ponto, quando estamos apavorados surge o desejo de sermos conduzidos, de abdicarmos de nossa decisão moral, de que a voz de nosso coração se torne cada vez mais fraca e se confunda com a voz da sociedade e seus inúmeros “tu deves”, nada de bom pode resultar disso. Pavor não nos leva a nada, compaixão seria melhor, pelos pobres que a classe média ou ignora ou despreza, ou mesmo pelas feras que ela cultiva em seu próprio ceio. Falta-nos compaixão e nos sobra terror, e qual animal ferido reagimos, mas que reação é essa? Está essa reação pautada na consciência moral? Ou somos prisioneiros de uma reação compensatória que nos arrasta como vaga e da qual não temos nenhum controle? Eu desconfio do pavor, afetos como esse sempre nos levam a ações das quais nos arrependemos, eu gostaria sinceramente que mais pessoas desconfiassem do pavor...

terça-feira, 4 de junho de 2013

Novamente a escrita

Há pouco tempo meu hábito de ler tudo o que me cai às mãos teve consequências daninhas ao meu espírito, pois li dois escritos ruins que me puseram a pensar na seriedade que é a arte e o ofício de escrever e seus descaminhos. Um era apenas um texto pueril e incoerente, mas tão mal alinhavado que me causou espécie, o outro, mais grave era um livro, com pretensões científicas das mais elevadas, quase estratosféricas, que respirava um ar tão rarefeito que se diria asfixiante, esse era praticamente ilegível, esquizoide, sem qualquer valor literário ou científico, não passa de lamentável testemunho da ruína que era o espírito do infeliz que o escreveu. O primeiro me incomodou, o segundo me causou pena, não compaixão, mas pena, e se tratava de um suposto tratado de psicologia, e era obviamente a escrita de um alienado e ambos me puseram a refletir e me abalaram. Finalmente, dias depois leio um texto curto de Mia Couto, e por fim me coloco a deitar a pena ao papel para expressar os sentimentos que esses três textos me evocaram, o terceiro, de profundo enlevo, delicada e melíflua sabedoria, além de penetrante e arguta sensatez.
Eu devo tudo a escrita, foi o testemunho vivo de homens de há muito mortos que alterou para sempre o curso da minha vida. Aos nove anos foi Monteiro Lobato, e não seria quem sou sem seus livros e a semente que plantou em meu espírito e que até hoje frutifica a cada vez que me ponho a escrever, sem ele meu mundo seria mais cinzento, frio, e bem menos mágico, Lobato me ensinou que vivemos num mundo mágico desde que saibamos olhar para ele com os olhos de menino. Depois foi Tolkien, na minha mocidade, seus livros me sequestraram a um mundo de heroísmo, sabedoria e magia, e ao retornar a esse nosso mundinho que, por vezes, pode parecer não ter nada disso, trouxe comigo muito do que é a essência desse mundo que é o testemunho vivo e eloquente da alma de um gênio. Ainda moço, pois ao escrever essas linhas já sou homem feito e caminhando a passos rápidos para o outono de minha existência, ao convalescer de um procedimento médico, Joseph Campbell me recordou das lições de Lobato, e uma vez mais o mundo tornou-se transparente ao transcendente, suas palavras me mudaram para sempre, de maneira indelével e a minha maneira de ver o mundo. Pouco depois Jung me ensinou que quando mudamos nossa maneira de ver o mundo, mudamos o mundo, e por meio do mestre suíço uma parte de meu destino se revelou a mim. Mesmo separados pelo tempo e pelo espaço, a magia da escrita permitiu que esses homens extraordinários agissem sobre mim moldando o meu destino e me fazendo escutar com maior acuidade ao som de meu próprio espírito, que se derrama qual tinta sobre as páginas que escrevo.
A escrita é uma maneira de se esconder por trás de palavras e ao mesmo tempo ser desvelado por elas, cada palavra é o testemunho daquilo que somos, podemos ser ou nunca seremos. Ao escrever cada um entra num jogo de luz e sombra em que sempre acaba-se mostrando mais do que escondendo, e o segredo mais íntimo de quem somos vai para o mundo, vencendo todas as barreiras que nos limitam como seres de carne, tempo e espaço não são nada para as palavras. Cada um de nós se converte em logos ao escrever, e junto da imaterialidade das letras vai nossa carne e sangue, quem somos e quem fomos, nosso demônios e nossos anjos, quer saibamos disso ou não. E a maioria não sabe, e se mete a escrever e a imortalizar asneiras, ou a revelar, como que movidos por uma perversa mão invisível, todo negrume e confusão de seus corações. Não sei o que pensar, as vezes creio que a máxima budista de “não veja o mal, não fale o mal, não ouça o mal” pode estar certa, ao vermos o mal nos tornamos o mal. Mas o que fazer? Como escolher o que vamos ler senão lendo? Como eu poderia apreciar a beleza da escrita de um Mia Couto sem saber que há um lamentável espírito inflado preso da maldade e arrogância que se pensa autor? Será que eu seria capaz de apreciar tanto um bom texto se apenas tivesse lido os melhores autores? Eu não sei, mas a minha fome pelas letras me faz ler e muitas vezes me causa indigestão ou engulhos, ao ler o texto de Mia couto o que eu saboreio é a suavidade de sua alma, assim como experimentei o gosto ocre e nauseabundo do espírito de um miserável alienado ao ler suas palavras pretensamente grandiloquentes e ocas.
Se existe alguma dúvida sobre a realidade da alma, a escrita já deveria de há muito tê-las dirimido, não à toa meu respeito religioso por ela, e minha devoção e sacerdócio as letras. Aqueles que desafiando todos os limites impostos a carne e que com a espantosa magia das palavras leem o que escrevo devoram um pedaço da minha alma, e me preocupa que a minha carne seja digna de tal refeição, é possível aperfeiçoar simplesmente a escrita sem aperfeiçoar o homem como um todo? Não creio, não se trata de mera gramática ou técnica, orações subordinadas e adjuntos adverbiais, diversos tipos de narradores e estilos, isso é o pano de fundo de algo mais sublime. Trata-se de ao escrever expor a tecitura de seu próprio destino aos olhos do outro, num ato de grande generosidade de mostrar a quem quer que deite os olhos ao papel aquilo que só se mostra aos mais próximos e mais amados. Não há como escapar disso aos que se aventuram a escrever, talvez mesmo os tolos e loucos devam nos dar testemunho de sua tolice e sandice, nem só de enlevo e beleza vive o homem, e os tolos e insensatos nunca o se sabem tolos e insensatos e, acreditando-se sempre mais sábios e sãos do que realmente são estarão sempre prontos a dividir com os incautos sua “sabedoria”. Resta-me, portanto, a indagação que devo sempre dirigir a mim mesmo a não ao meu próximo “serei eu mesmo louco ou tolo?”, e a dúvida é o germe da minha escrita...


sexta-feira, 17 de maio de 2013

De Anakin Skywalker a Darth Vader: o homem máquina e a terra devastada uma interpretação psicológica


Darth Vader é uma das figuras mais memoráveis do cinema. Quando de sua primeira aparição o vilão mascarado, vestido da cabeça aos pés numa espécie de armadura negra e capa, com sua voz poderosa como se saída de uma caverna e sua respiração artificial, contrastando com homogeneidade dos Stormtroopers todos em armaduras brancas idênticas, capturou de imediato a atenção e imaginação de toda uma geração. Tudo contribuía para reforçar o impacto daquela aparição medonha, apenas vagamente humana, e, como viríamos a saber depois, mais máquina que homem. Vader mostrava-se cruel e impiedoso, um instrumento do poderoso império galáctico, o mais fiel e temível servidor do imperador Palpatine, o cruel Lord Sith Darth Sidous. Sob a máscara negra se escondia uma história de glória e heroísmo, amor, poder e loucura. Da ascensão e queda do mais poderoso jedi de todos os tempos, o escolhido, herói das guerras clônicas, melhor piloto de caças da galáxia, e o algoz da ordem jedi. O mito de Vader foi tornando-se mais e mais complexo e repleto de nuances quando, após décadas do final da trilogia original, iniciada com o episódio IV, surgiram os filmes I, II e III, narrando à ascensão e queda do cavaleiro jedi que nasceu para trazer equilíbrio à força. A história da segunda trilogia é a narrativa da morte da democracia e o surgimento de um estado totalitário e tirânico, a obliteração da mais importante ordem religiosa da galáxia e, simultaneamente, da corrupção e queda do maior herói da galáxia o destemido, irascível e imbatível Anakin Skywalker.
O que me proponho a fazer aqui é analisar em termos psicológicos a figura de Darth Vader, e por meio dessa análise, compreender o que Vader representa, em termos anímicos, para a nossa sociedade, para cada um dos fãs que assistiram mesmerizados as proezas de Luke Skywalker e depois, descobriram a trágica história de seu pai, convertido em um arremedo de ser humano, um monstro aprisionado em uma armadura negra, pelo poder do lado negro da força. Compreender o poder de mito moderno que a saga de Anakin Skywalker possui e de onde essa história extrai a sua força comovedora são nossos objetivos. Que a força esteja conosco ao iniciarmos essa jornada pelos planetas dessa galáxia tão, tão distante, que nos levará das areias escaldantes de Tatooine até as ruas escuras da metrópole planetária Coruscant. Não faltarão ameaças em nosso caminho, de inescrupulosos caçadores de recompensa, passando por monstros comedores de carne humana até os temíveis e sombrios Sith, senhores dos segredos do lado negro da força.
A franquia Star Wars possui uma história sui generis, conhecida por muitos fãs, mas que precisa ser relembrada aqui para que melhor possamos atingir o nosso objetivo. Um fato dos mais importantes é que o roteirista e diretor George Lucas, o criador da franquia Star Wars, era leitor de Joseph Campbell, e escreveu o roteiro de seus seis filmes tomando por base os estudos de mitologia comparada de Campbell, sua noção de monomito e a estrutura da jornada do herói que ele abstrai da minuciosa e abrangente comparação de milhares de narrativas míticas das mais variadas tradições culturais. Lucas utilizou o esquema da jornada do herói como o molde para contar a sua história, e dar a ela, de maneira mais ou menos proposital, o caráter de mito. A tal ponto que a entrevista que tornou Campbell famoso com o grande público e que resultou na publicação do best seller “O Poder do Mito”, foi gravada no rancho Skywalker de propriedade de Lucas. Campbell até mesmo relata, de maneira jocosa, em um de seus seminários, que teve muita dificuldade para encontrar alguma editora que se dispusesse a publicar seu livro “O Herói de Mil Faces”, um dos editores, ao rejeitar o material perguntou a Joe Campbell “mas quem vai se ler isso”, ao relatar esse fato ele comenta em seguida de maneira irônica para a sua audiência que George Lucas leu seus livros e a partir deles escreveu o roteiro de Star Wars.
George Lucas foi um visionário em muitos sentidos, atualmente o uso do conhecimento desvelado pelos estudos de mitologia comparada de Campbell são corriqueiramente usados por roteiristas, mas creio que Lucas foi o pioneiro. Além disso, seu uso de efeitos especiais era algo tão inovador que nem mesmo os atores compreendiam bem o que estava acontecendo ali, o que irritava o diretor, conta-se que os atores mal puderam acreditar quando viram finalmente o resultado de seu trabalho acrescido dos efeitos da Industrial Light and Magic. Não apenas os atores não eram capazes de compreender ou acompanhar a visão de Lucas, os produtores não só não compreendiam, como eram completamente céticos quanto a possibilidade, mesmo que remota, do sucesso do filme. Quando ele foi exibido para os produtores e outras pessoas do meio, apenas Steven Spielberg deu um tapinha nas costas de Lucas e o elogiou, todos os demais vaticinaram o fracasso para a película. Curiosamente esse ceticismo e ignorância deixaram George Lucas bilionário, pois ele reteve os direitos sobre todos os personagens e os direitos de comercialização, e o estúdio ficou com a bilheteria. George Lucas praticamente reinventou o merchandinsig sobre filmes e transformou o universo Star Wars em uma poderosa franquia multimídia. Um dos mais recentes lances nesse enredo foi a venda dos direitos da franquia para a Disney e a promessa da realização de mais seis longa metragem.
Os jedis, a noção do poder da força e a filosofia associada à ordem jedi e suas práticas rapidamente se tornaram uma sensação, mas mais impressionante ainda é a longevidade da franquia, no mundo da Cultura Pop, feito de sucessos instantâneos e desaparecimentos repentinos, Star Wars persiste atraindo cada vez mais atenção e mais fãs. Reza a lenda que Francis Ford Coppola disse a Lucas que o aspecto religioso de Star Wars poderia lhe trazer grande poder, ele retrucou que não estava interessado nesse tipo de poder. Suas palavras, todavia foram proféticas, atualmente os “jedi” são considerados uma religião na Inglaterra, constando até mesmo em pesquisas demográficas realizadas pelo governo. De acordo com o jornal The Telegraph, no censo de 2013, 176.613 pessoas se declararam cavaleiros jedi, seguidores da religião jedi, o que a torna a mais popular das religiões da categoria “others” e no geral a sétima religião mais popular do Reino Unido. A religião jedi entrou para a pesquisa oficial do censo em 2001 após uma campanha nacional, e nesse ano 390.127 pessoas se identificaram como jedi, mesmo com esse número tendo caído pela metade, 0.31% das pessoas que afirmam ter alguma religião nessa pesquisa (http://www.telegraph.co.uk/news/religion/9737886/Jedi-religion-most-popular-alternative-faith.html).
Ao falar sobre os usos que George Lucas fez da obra de Campbell é preciso que se desfaça algumas confusões, pois a maneira como ele escreveu os roteiros baseados nas formulações de Campbell sobre os mitos e o estrondoso e duradouro sucesso que se seguiu pode suscitar a ideia, equivocada, que se pode por meios “artificiais” criar um símbolo, ou um mito, que se pode de maneira apenas consciente manejar essas imagens à vontade, e isso é falso. Para desfazer essa possível compreensão errônea, estimado leitor, façamos um rápido parêntesis para deixar claro em primeiro lugar o pensamento de Campbell no que diz respeito à estrutura dos mitos, e qual a compreensão da psicologia complexa sobre mito e símbolo.
Não é ocioso sublinhar que a jornada do herói como proposta por Campbell é fruto de um extensivo levantamento empírico e da comparação de milhares de narrativas míticas e a percepção de que existia um padrão (ele certamente não foi o único a perceber isso), seu trabalho foi influenciado também por autores como Jung, James Joyce, Spengler e Schopenhauer. Campbell descreve a jornada do herói em detalhes minuciosos em seu livro “The Hero with a Thousand Faces”, de maneira sucinta descreverei aqui as principais etapas discernidas por Campbell, bem como as considerações que ele mesmo fez sobre a então trilogia Star Wars. Segundo Campbell os temas que ele discerniu nos mitos podem igualmente aparecer de maneira espontânea na literatura, ou mesmo na elaboração do enredo da vida de uma pessoa. Para ele a história básica da jornada do herói consiste em abrir mão do lugar de onde você vive, entrar na esfera da aventura, chegar a algum tipo de percepção simbólica (recuperar o potencial não realizado em você) e, por fim, retornar à esfera da vida normal. O sentido dessa jornada é a reintrodução desse potencial no mundo, devolver esse tesouro do saber e reintegrá-lo à vida racional. Tudo começa saindo de onde se encontra, em muitos mitos existe um chamado à aventura, assim surge o motivo para se penetrar na esfera da aventura, que é sempre composta de poderes desconhecidos. Ao sair da esfera conhecida e se aproximar dos perigos e provações do grande desconhecido, ocorre à travessia do limiar, para Campbell a ideia da jornada do herói é penetrar num mundo onde as regras dualistas não se aplicam. A jornada do herói através do limiar é a jornada para superar os pares de opostos, na qual se vai além do bem e do mal. A travessia do limiar é repleta de perigos que são representados em temas que se repetem constantemente como enfrentar a contraparte sombria que pode tomar a forma de um dragão ou um inimigo maligno, o esquartejamento (como nas jornadas xamânicas), ser pregado numa cruz, ou engolido por uma baleia. Após atravessar o limiar o herói se encontra com auxiliares mágicos que serão prestativos, depois de receber auxílio mágico o herói é submentido a uma série de provas cada vez mais ameaçadores. Essas provas simbolizam a auto-realização, um processo de iniciação nos mistérios da vida. Ao todo são 4 os tipos de obstáculos que podem ser encontrados ao longo do caminho. O primeiro é o símbolo do encontro erótico com a deusa. O segundo tipo de provação é justamente o que nos interessa mais de perto para compreender a jornada de Darth Vader e Luke Skywalker, a reconciliação com o pai, essa provação é um rito de passagem masculino. O filho se encontra separado do pai e tem levado uma vida inadequada a sua herança verdadeira, para se encontrar o pai é preciso atravessar o abismo da mãe. Nesse tipo de história a mulher pode surgir tanto como guia quanto como sedutora que obstrui o caminho. Citando o próprio Campbell.
No filme de George Lucas O retorno de Jedi, Luke Skywalker arrisca a vida para redimir a vida do pai, Darth Vader – esse é o tema da reconciliação com o pai representado em grande escala: o filho salva o pai e o pai salva o filho. (Campbell, 2008, p.142).
A terceira possibilidade ao longo do caminho é a apoteose, em que o herói percebe que na realidade ele mesmo é aquilo que está buscando, como na história de Sidarta Gautama. O quarto tipo de realização é um pouco diferente, ao invés de uma progressão ampla há uma arremetida violenta e a posse da dádiva desejada, sendo o exemplo mais conhecido o roubo do fogo pelo titã Prometeu.  Finalmente, ocorre uma vez mais o cruzamento da linha divisória, o retorno através do limiar, a crise da descida é a mesma crise do retorno. Existem 3 reações possíveis quando se cruza o limiar de retorno trazendo sua dádiva para o mundo. A primeira é não haver acolhida alguma, a segunda é dizer “o que eles querem?”, ao invés de dar a comunidade o que ela precisa, a sua dádiva, e que a comunidade talvez nem saiba que precisa dela para se renovar, você dá a eles o que eles já possuem. A terceira possibilidade é encontrar algum aspecto que possa ser compreendido, essa é a atitude pedagógica. A primeira possibilidade é a recusa do retorno, a segunda é o retorno nos termos escolhidos pela sociedade, e a terceira é a atitude pedagógica. Em linhas gerais esse é o esquema percebido por Campbell e que é seguido por todos os mitos e lendas humanos, é interessante notar a similaridade do que Campbell chama, a partir de Joyce, de monomito, com aquilo que Jung denomina de arquétipo, não é a toa que posteriormente o trabalho de Jung teve uma influência tão grande sobre Campbell, esse fato é ainda mais oportuno em virtude da inacreditável incompreensão que paira sobre esse conceito.
O arquétipo é uma predisposição, atemporal, acausal para um comportamento humano típico. São caminhos virtuais herdados, a condição de todo o psiquismo humano. Aquilo que em mitologia comparada ou história das religiões se chama de “tema mítico” (a dupla filiação, o duplo nascimento, o nascimento virginal, a fuga mágica etc) é o que Jung chamou de arquétipo, mesmo o esquema abstraído por Campbell da jornada do herói a partir das similaridades entre as mais variadas histórias míticas é, na concepção da psicologia complexa, um arquétipo. Como o exemplo do estudo de Campbell demonstra, o arquétipo não é um dado fenomênico, nem mesmo é um dado psíquico, para Jung arquétipo e instinto são psicóides, sua existência é abstraída do fenômeno a partir da comparação das similaridades universalmente existentes entre mitos, contos de fadas, sonhos e aspectos psicopatológicos individuais. Certa feita Jung comparou o arquétipo a classificação botânica para rebater a crítica de que não se podia achar arquétipos nos fenômenos, pois não existe na natureza uma classificação botânica, mas isso não impede o especialista de perceber similaridades e criar categorias para agrupar os fenômenos.
A crítica contentou-se em afirmar que tais arquétipos não existem. E não existem mesmo assim como não existe na natureza um sistema botânico! Mas será que por isso vamos negar a existência de famílias de plantas naturais? Ou será que vamos contestar a ocorrência e continua repetição de certas semelhanças morfológicas e funcionais? Com as formas típicas do inconsciente, trata-se de algo em princípio muito semelhante. (Jung, 2003, p.184).
O inconsciente coletivo não tem sua origem em experiências pessoais, ele é inato, e não é de natureza individual, mas universal, e constitui um substrato comum de natureza psíquica suprapessoal. O próprio Jung reconhece que ele não foi o primeiro a notar essas similaridades universais e suprapessoais no fenômeno da cultura e no fenômeno individual, Adolf Bastian, por exemplo, chegou à mesma constatação e cunhou os termos Elementargedanke (ideias elementares) e Volkergedanke (ideias culturais), pois percebia em diversas culturas o mesmo padrão representado por imagens diferentes, mas funcionalmente idênticas. Ou seja, o grande mal coletivo pode, nas florestas europeias, ser representado por um lobo, e na polinésia por um tubarão, mas conotam a mesma vivência anímica apesar de denotativamente serem diversos.
Eu compreendo o inconsciente muito mais como uma psique impessoal comum a todos os seres humanos, apesar de ela expressar-se através de uma consciência pessoal. Embora todos respirem, a respiração não é um fenômeno a ser interpretado de modo pessoal. As imagens míticas pertencem à estrutura do inconsciente e constituem uma posse impessoal, que mais possui a maioria das pessoas do que é por eles possuída. (Jung, 2003, p.187).
Para Jung, o arquétipo é essencialmente um conteúdo inconsciente que se modifica por meio da conscientização e percepção, adquirindo nuanças que variam de acordo com a consciência individual no qual se manifestam. O termo manifestação é de suma importância, pois o psiquismo não é meramente um arbítrio, existindo para além da consciência e seus conteúdos, um psiquismo objetivo que “se manifesta” a consciência sem ter sido por ela produzido e não podendo ser por ela subjugado ou controlado, possuindo a característica de ser numinoso. Nesse sentido sobre o arquétipo se pode dizer, como se diz em relação a deus na teologia, que ele é essencialmente indizível, indisponível (não se pode dispor dele a bel-prazer) e não é manipulável.
Creio que é preciso, antes de adentramos mais em nosso tema, nas trevas do lado negro que a tudo obscurecem, esclarecer um pouco o uso da obra de Campbell por George Lucas, pois como já foi exposto acima, o arquétipo não é manipulável, e o símbolo, o fenômeno psíquico organizado arquetipicamente, não é, e nem pode ser, uma invenção consciente. É certo que o uso do esquema observado por Campbell, bem como a inspiração advinda de sua obra, foram fundamentais para o sucesso estrondoso de Star Wars, mas nem Lucas e nem ninguém pode, de maneira voluntariosa, criar um símbolo. Isso pode parecer contraditório em virtude do valor simbólico que evidentemente a saga intergaláctica possui, o que nos leva a mais um parêntese, a compreensão de símbolo. O que precisa ficar claro desde o início acerca do símbolo, seja ele individual ou social é que ele não procede exclusivamente da consciência ou do inconsciente, mas surge da colaboração igual de ambos e é sempre de natureza extremamente complexa, composto de dados de todas as funções psíquicas o que o torna altamente paradoxal, não sendo de natureza racional e nem irracional, falando de maneira eloquente a ambas. O ponto que desejo sublinhar aqui, é que o símbolo possui uma parte que é inacessível à razão, pois é composto de dados racionais e irracionais. Não é possível, a partir apenas da consciência (tornando o esquema de Campbell uma receita de bolo) criar um símbolo, isso é completamente impossível, não se pode gestar um símbolo a partir apenas das relações conhecidas, dessa forma lhe faltará o elemento indispensável de irracionalidade. Sem isso o símbolo não é capaz de operacionalizar a participação do inconsciente na consciência e não possuirá seu efeito gerador e promotor de vida. Mas o que é o símbolo? O símbolo é algo que representa o indizível de forma insuperável.
Aos futuros roteiristas que desejam se inspirar na obra de Campbell, isso certamente não será tempo perdido, mas a criação de uma obra de arte genuína depende, em larga medida, da graça divina. Depende de que as forças que habitam a sua alma, em virtude da atitude de sua consciência e de uma larga dose de inteligência, sensibilidade, imaginação e não pouca designação, se disponham a colaborar com seu empreendimento criativo. Alguém que jamais tenha lido Campbell, mas que possui essas qualidades, ou melhor, que seja possuído por elas, certamente produzirá algo de valor, principalmente se não for muito neurótico, por outro lado, mesmo alguém que tenha lido toda a obra de Campbell, se faltarem essas qualidades, principalmente aquelas que são deo concedente, criará apenas algo banal. A inspiração é um fenômeno eo ipso, ao qual o indivíduo criativo se curva, e não o contrário. Infelizmente, em nosso universo materialista e “humanista”, não estamos mais acostumados a nos curvarmos as forças misteriosas que habitam a nossa alma, ou a ouvir a voz do nosso coração, aqueles que conseguem, ao traduzir o que se passa em seu próprio inconsciente, traduzem igualmente o inconsciente da comunidade em que vivem, ou mesmo, são capazes de dizer sobre a alma de toda uma época, e, em casos mais raros, falar daquilo que é grave e constante no sofrimento humano.
Passemos ao fenômeno que vamos tratar e sua descrição. Vader surge pela primeira vez no episódio IV (que é o primeiro em termos cronológicos, não internos a série, mas na cronologia da estreia cinematográfica), já o vemos como o vilão terrível, inumano e com poderes sombrios, especialmente sua habilidade de sufocar as pessoas usando a força. Esse primeiro filme, bem como os que se seguiram são a história de Luke, da restauração da ordem jedi, da redenção de Vader (Anakin), e queda do império galáctico e de seu ditador Darth Sidious. Vai nos interessar mais de perto, todavia, os três primeiros episódios, bem como a série animada The Clone Wars, que narram à ascensão e queda de Anakin Skywalker, mestre jedi e general das guerras clones. Anakin é encontrado aos nove anos de idade no remoto planeta Tatoine pelo mestre jedi Qui-Gon Jin e seu aprendiz Obi-Wan Kenobi. Qui-Gon pôde sentir que a força era poderosa no garoto, e a mãe os informou que Anakin não tivera pai (o tema do nascimento virginal), e sua contagem de Midi-chlorian no sangue superava até mesmo a de Yoda (os micro-organismos midiclorians são seres simbiontes, similares as mitocôndrias e que são o lado material da força), usando de um estratagema e uma ajudinha da telecinese dos jedis ele conseguiu comprar o garoto, que era um escravo. Mesmo após a morte de Qui-Gon Jin Anakin foi treinado para ser um jedi por Obi-Wan. Ao ser resgatado da escravidão Anakin, então contando nove anos de idade, conheceu e se apaixonou por Padmé Amidala, rainha eleita do planeta Naboo, então com quinze anos de idade.
Talvez não seja ocioso fazer um parêntese para falar dos Midi-chlorian e sobre a força no universo de Star Wars, mas voltarei a esse tópico posteriormente. A primeira referência à força nos filmes é feita por Obi-Wan Kenobi a Luke e ele se refere a ela como um campo de energia criado por todas as coisas vivas, que circunda e penetra os seres vivos e mantém a galáxia coesa. Nos três primeiros filmes (episódios IV, V e VI) não é feita qualquer menção a uma base orgânica e material para a força na forma dos micro-organismos inteligentes, era algo mais similar à noção chinesa de Tao, existia apenas uma menção leve de que o talento com a força era algo genético (Luke e Leia, ambos filhos de Anakin possuíam talento para serem poderosos com a força). A força era algo mais espiritual ou “metafísico”, a partir do episódio I (confuso né?) iniciam-se as menções a um aspecto “palpável” da força na forma dos Midi-chlorian, existindo até mesmo um exame de sangue que permitia descobrir a contagem de Midi-chlorian por célula, que podia variar do nível humano médio de 2.500 Midi-chlorian por célula, até a maior contagem descoberta que foi a de Anakin (supostamente gerado pelos Midi-chlorian) de 20.000 Midi-chlorian por célula. A contagem de Midi-chlorian é diretamente proporcional ao poder com a força, quanto mais células simbióticas inteligentes, mais poderoso com a força. Vemos algo similar no recente filme de James Cameron “Avatar”, em que a hipótese de um organismo planetário, similar às crenças dos povos nativos das Américas também existia no planeta Pandora, mas como é dito expressamente por uma das personagens do filme, era real em pandora, pois podia ser medida e verificada como uma ligação eletroquímica entre os seres vivos do planeta. Passa-se em Star Wars de um conceito mais “espiritualizado”, claramente baseado em conceitos orientais (como noções budistas e taoistas), para um materialismo mais ao gosto ocidental. Jung, em conferência publicada pela primeira vez em 1931, intitulada “Entschleierung der Seele” (desvelando a alma), publicada nas obras completas com o título de “O problema fundamental da psicologia contemporânea”, título fortuito para o que estou discutindo aqui, assevera:
Enquanto a idade média, a Antiguidade clássica e mesmo a humanidade como inteira desde seus primórdios acreditavam na existência de uma alma substancial, a segunda metade do século XIX viu surgir uma psicologia “sem alma”. Sob a influência do materialismo científico, tudo o que não podia ser visto com os olhos ou apalpado com as mãos foi posto em dúvida, ou pior. Ridicularizado, porque suspeito de metafísica. Só era “científico” e, por conseguinte, aceito como verdadeiro, o que era reconhecidamente material ou podia ser deduzido a partir de causas acessíveis aos sentidos. (Jung, 1986, p.283).
O que Jung discutia em 1931, sobre a “onda irracional da preferência sentimental e universal pelo mundo físico”, vemos uma vez mais como um fenômeno da cultura essa “onda”, quando em 1999, 68 anos após essa conferência ter sido proferida por Jung, estreia o episódio I “A Ameaça Fantasma”, o conceito mais espiritualizado da força da trilogia original é substituído por uma derivação material, o que transforma a força, cum grano salis, em um epifenômeno de causas materiais. O que Jung afiança é que tanto o espírito quanto a matéria não são mais do que símbolos utilizados para expressar fatores desconhecidos. A metafísica do espírito ter sido suplantada pela metafísica da matéria é uma mera prestidigitação em termos unicamente intelectuais, todavia, psicologicamente falando, é uma revolução da visão de mundo (weltanschauung), pois todo o valor se fundamenta exclusivamente na pretensa realidade dos fatos, mas ambas as explicações (materialista ou espiritualista) são “igualmente lógicas, igualmente metafísicas, igualmente arbitrárias e igualmente simbólicas”. O que vemos com essa mudança de tom da primeira trilogia para a segunda é uma vez mais a “onda” de que falava Jung 68 anos atrás e que permanece cada vez mais atual. Retornando a história de Anakin.
Anos depois Anakin reencontrou Amidala ao ser indicado, junto de seu mestre Obi-Wan, para ser seu guarda costas, Padmé era agora uma senadora da republica, representante do planeta Naboo, e vinha sofrendo ameaças. Naboo foi a peça política chave para a ascensão de Palpatine ao poder. De início, quando Anakin ainda tinha apenas nove anos, Palpatine era o senador de Naboo e secretamente lord Sith Darth Sidious, graças aos desdobramentos políticos do bloqueio realizado pela federação de comércio ao seu planeta natal, Naboo, ele foi eleito Supremo Chanceler da república, o primeiro passo em direção ao seu objetivo de um império galáctico. Quando Anakin reencontrou Padmé estava sendo votado no senado a criação de um exército da república para auxiliar os jedis, pois estava surgindo uma ameaça separatista comandada pelo ex membro da ordem jedi o conde Dooku, na realidade o aprendiz de Sidious, Darth Tyranus. Ao investigar os ataques a Padmé Bem Kenobi é capturado pelos separatistas que estão produzindo um exército de droides e o mesmo Ben descobre que a república já conta com um exército secreto de clones. Anankin estava em Tatooine, junto de Padmé, pois tentara sem sucesso resgatar sua mãe que fora sequestrada pelo povo da areia. Num surto de fúria Anakin matou todos eles como vingança, o que começou seu processo de queda em direção ao lado negro. Quando tentou resgatar Bem Kenobi tanto Anakin quanto Padmé foram capturados e nesse momento a senadora declara seu amor ao jedi. Acontece a primeira batalha das guerras clônicas quando os jedis acuados pelos droids separatistas são ajudados pelos soldados e Anakin e Kenobi lutam contra Dooku, nessa batalha a arrogância de Anakin lhe custa sua mão.
Durantes os anos que se seguiram Anakin se tornou general do exército da república, um renomado herói das guerras clones e o maior piloto de caças da galáxia. Seu poder como jedi cresceu de maneira assombrosa, mas ele continuava atormentado por visões, dessa vez de Padmé morrendo. Mesmo tendo sido aconselhado por Yoda a se libertar desses sentimentos de apego, Anakin não consegue e Palpatine utiliza o medo e apego para seduzi-lo para o lado negro, com a promessa de poder sobre a vida e a morte para salvar Padmé. Mesmo dividido, Anakin acaba sendo seduzido pelo lado negro e suas próprias ações culminam com a morte de Padmé e a destruição impiedosa da ordem jedi. Em uma última luta com seu mestre Kenobi, mesmo com o poder do lado sombrio, Anakin perde um braço e uma perna e cai num poço de lava, ficando entre a vida e a morte. Palpatine recupera seu corpo arrasado usando próteses biônicas e uma armadura típica dos Sith e estava morto então o jedi Anakin e nascia o lorde sith Darth Vader.
Para Campbell o filme tem a ver com uma operação de princípios, o poder do mal em Star Wars não está identificado com qualquer uma de nossas nações, é um poder abstrato que representa um princípio. As máscaras e monstros de Star Wars representam a verdadeira monstruosidade do mundo moderno: a massificação. Darth Vader é a personificação dessa força monstruosa da modernidade, quando, ao final da trilogia original, sua mascara é removida (ele nem mesmo é capaz de sobreviver sem sua armadura) se vê um rosto informe, indiferenciado, diferente da máscara ameaçadora e monstruosa, tem-se um rosto digno de pena.
Darth Vader não desenvolveu a própria humanidade. É um robô. É um burocrata, vive não nos seus próprios termos, mas nos termos de um sistema imposto. Este é o perigo que hoje enfrentamos, como ameaça às nossas vidas. O sistema vai conseguir achatá-lo e negar a sua própria humanidade, ou você conseguirá utilizar se dele para atingir propósitos humanos? Como se relacionar com o sistema de modo a não o ficar servindo compulsivamente? Não adianta tentar mudá-lo em função das suas concepções ou das minhas. O momento histórico subjacente a ele é grandioso demais para que algo realmente significativo resulte desse tipo de ação. O que é preciso é aprender a viver no tempo que nos coube viver, como verdadeiros seres humanos. Isso é o que vale, e pode ser feito. (Campbell, 1990, p.158, grifo meu).
Para Campbell, não viver em seus próprios termos é a terra devastada, esse tema mítico é a imagem central das novelas do Graal, quando o rei está incompleto a terra sofre, pois ele é o coração da terra. A terra devastada é o oposto da bem aventurança (bliss), que Campbell define como aquela sensação profunda de estar presente, de fazer o que você deve decididamente fazer para ser você mesmo. Na saga do Graal, os cavaleiros estavam sentados esperando por uma aventura quando o Graal surgiu para eles, mas coberto por um véu, Gawain propôs o voto de que todos saíssem em busca do Graal para vê-lo em todo o seu esplendor, desvelado. Ao se aproximarem da floresta escura, onde estavam prestes a adentrar a esfera da aventura, resolveram que cada um deveria seguir sozinho e “cada qual entrou na floresta, onde fosse mais escuro e não houvesse caminho nem trilha”. Cada ser humano é um fenômeno único e irrepetível, e o desafio é encontrar o próprio caminho da bem aventurança, se seguir o caminho de outrem não realizará seu potencial. Vader vive segundo os ditames de um sistema opressivo, não como um ser singular, mas como mera engrenagem de um sistema desumano, de uma cruel e totalitária ditadura que esmaga o indivíduo, onde a vida resseca, o que é simbolizado pelo estado de Anakin por detrás da máscara (em outro de meus textos tratei de maneira mais pormenorizada o problema das máscaras e remeto o leitor a ele). Seguir a sua bem aventurança consiste em viver a partir de seu próprio centro, o ponto imóvel, mas para tanto é preciso matar o dragão, nesse dragão há muitas escamas e em cada uma delas está escrito “Tu Deves”, esse é o significado mais elevado da jornada do herói, seguir o que lhe é sublime, viver a aventura individual. O herói ao matar o dragão se torna “quasi modu genitus”, ao seguir a sua bem aventurança ele é capaz de se livrar do ontem. Anakin tropeça e fracassa ao não ser capaz de desapegar-se, de viver com divina compostura, ele vive assombrado pela mãe que deixou em Tatooine, e repete o mesmo padrão com Padmé, e isso o destrói, com isso ele estagna, sua vida resseca e ele vive o inferno, pois o inferno é a vida a ressecar.
Jung define individuo no sentido de um “individuum” psicológico, ou seja, um todo, uma unidade indivisível. É fácil, ao se falar em indivíduo, ou aventura individual, confundir essas palavras com o individualismo que grassa em nossa sociedade, e que é bem representado na saga Star Wars pelo imperador Palatine, Darth Sidious, e de maneira mais ampla pelo “lado negro” (Dark Side). Há aqui uma diferença importante, em termos psicológicos, entre individuo, e o processo que gera um indivíduo, chamado por Jung de “individuação”, e o individualismo. Este, o individualismo, é uma atitude inadequada e impertinente, que se revela oca e inconsistente. Campbell, ao falar da jornada do herói enfatiza sempre e de novo o mesmo ponto “o privilégio de uma existência é ser quem você é”. A máscara de Vader esconde quem ele é, e sua personalidade definha e murcha sob a máscara do “homem máquina”, em termos psicológicos é disso que estamos falando aqui, Vader representa “a recusa ao chamado”, ele corporifica a tragédia daqueles em que a voz interior foi substituída pela voz do grupo social, e passam a ser regidos pelas necessidades da coletividade. A voz de seu coração, de seu espírito, tornou-se confusa e imprecisa, mais e mais inconsciente e Vader é um exemplo de alguém que se viu privado de sua própria totalidade e foi diluído na totalidade do grupo, na grande massa indeterminada e inconsciente.
Vader igualmente representa o destino daqueles que ousaram se aventurar a se afastar da massa gregária e se lançaram ao desafio de ser ele mesmo e falhou, mas ao invés de encontrar a morte física, sua morte foi ainda pior. Na realidade, na morte ele encontrou redenção quando ao se rebelar contra a “razão de estado” personificada por Darth Sidious ele se sacrificou para salvar seu filho Luke, nesse momento sua escolha, sua decisão moral se opôs a necessidade coletiva, as necessidades do império galáctico, e como Sócrates na morte ele reafirmou ser quem ele era de maneira radical. A personalidade, segundo Jung, é justamente aquilo que se opõe ao homem normal que é padronizado e promovido pela massificação. A personalidade é uma totalidade dotada de decisão, resistência e força e para existir necessita de determinação, inteireza e maturidade. O que vemos com tristeza em nosso tempo é que mais e mais pessoas estão inconscientes de sua condição de adultos, ou, o que é ainda pior, vivem uma “inconsciência artificial”, pois buscam conscientemente esquivar-se dela. A estrutura de Star Wars é o de uma peça em 3 atos: o chamado à aventura, o caminho das provações e a provação final, com a reconciliação com o pai e o retorno através do limiar. Luke, em O Império Contra Ataca, confronta-se em Dagobah com uma figura que ele acredita ser Vader, mas ao matar essa figura com seu sabre de luz, vê por trás da máscara do homem mecânico o seu próprio rosto. Vader é uma possibilidade humana, e uma nada distante de nós em nosso atual contexto social e cultural, nosso rosto também está por trás da máscara do homem máquina, e Yoda foi claro com Luke, se ele não pudesse enfrentar seu Pai, Darth Vader, seu treinamento jamais estaria completo.
Como aquele que sucumbiu ao individualismo e a massa gregária, Vader também é uma personificação do homem normal estatístico, pois a massa se apega a tudo o que é coletivo: temores, convicções, leis, métodos. Em virtude de seu apego Vader abdicou de ser quem ele realmente era, abdicou da aventura de ser um jedi, e no fim, seu apego foi a causa eficiente de sua tragédia e da morte da mulher que amava. Ele deixou sua senda individual e passou a trilhar a senda traçada para ele por Palpatine, mas todo e qualquer outro caminho, que não seja a senda na floresta escura onde não existem pegadas a seguir são convenções de natureza, moral, social, política, filosófica e religiosa. A personalidade, segundo Jung, é o melhor desenvolvimento possível de um indivíduo determinado, e isso requer o homem como um todo. Personalidade é a obra a que se chega pela máxima coragem de viver e apenas pela nossa ação é que se torna manifesto quem somos de verdade. O homem normal é algo bidimensional e de uma profunda irrealidade, a noção de normal e normalidade se baseia na recorrência estatística e num valor médio abstrato, o que temos por meio do método estatístico é um termo médio ideal que dificilmente corresponde à realidade empírica, a realidade absoluta se caracteriza pela irregularidade.
Uma formação em princípio científica baseia-se, essencialmente, em verdades científicas e em conhecimentos abstratos que transmitem uma cosmovisão irreal, embora racional, em que o indivíduo, como fenômeno marginal, não desempenha nenhum papel. Mas o indivíduo, como um dado irracional, é o verdadeiro portador da realidade, é o homem concreto em oposição ao homem ideal ou “normal” irreal, ao qual se referem as teses científicas. (Jung, 2011, p.16).
De acordo com Campbell, a história de Star Wars tem a ver com os poderes da vida, conforme sejam plenamente realizados ou cerceados pela ação do homem. O poder do império galáctico de Darth Sidious se baseia na intenção de conquistar e comandar, um Sith é basicamente um individualista e um arrivista, alguém seduzido pelo poder, que busca um desenvolvimento que no fundo é um artificialismo e uma contrafação, por isso sua vida seca. O uso dos poderes do lado negro devasta o corpo, após a luta com Mace Windu o corpo e o rosto de Palpatine ficaram completamente deformados e ele não pôde mais se esconder a olhos vistos. O que Palpatine cria está bem representado por seu exército de clones, não pode existir maior grau de massificação do que um exército onde todos são idênticos, não apenas com as mesmas roupas, mas geneticamente idênticos, ele cria um sistema político que não tem lugar para o indivíduo e para a diversidade que daí advém. Todo sistema político autoritário se baseia na ignorância, inconsciência, em preconceitos afetivos e fantasias de desejos impulsivos. Nesse ambiente seus cidadãos são privados de sua capacidade de reflexão crítica e ela é substituída por slogans e desejos quiméricos, numa espécie de possessão coletiva. Nosso grau de liberdade empírica é proporcional a nosso grau de consciência, e em um governo autoritário o que grassa e é incentivado é esse estado inconsciente primordial em que as epidemias psíquicas e movimentos de massa podem se espalhar de maneira incendiária.
Como é possível surgir uma monstruosidade como o império galáctico de Palpatine? Quando o indivíduo se massifica se tornando obsoleto, e o exemplo mais vívido disso em Star Wars é Vader, Anakin perde até mesmo a sua face, substituída por uma máscara. Quando o fator individual é reprimido, e o indivíduo passa a não ser mais do que mera recorrência estatística, mera unidade anônima e sem face, surge à massa e a culminância desse processo macabro é o conceito abstrato de Estado enquanto princípio de realidade política. O que acontece então, de maneira inelutável, é que a responsabilidade moral, que é indispensável para o desenvolvimento da personalidade, seja suplantada e substituída pela razão de estado, que é imposta de fora para dentro do homem. Nesse caso a decisão moral é retirada do indivíduo, visto agora como unidade social, e todas as decisões importantes passam a ser tomadas pelo estado para satisfazer a massa. Em uma situação como essa, poderíamos nos perguntar se os líderes e ditadores, como Palpatine são eles as personalidades que realmente decidem e que se escondem por trás da razão de estado, todavia, como o filme nos mostra de maneira extremamente plástica, os dirigentes do império galáctico, Darth Sidious e Darth Vader, são escravos de suas próprias ficções, incapazes de não se identificar com a doutrina de estado. A necessidade de um líder surge do desejo compensatório da massa, caracterizada pela sua caótica falta de identidade, e o líder que surge nesse ambiente, como é o caso de Sidious, é uma vítima de uma consciência do eu inflada. Darth Sidious deseja nada menos que dominar toda a galáxia e a imortalidade, além do poder de obliterar mundos representado pela estrela da morte.
O oposto do império galáctico e da arrogância dos Sith é a maneira como os jedi procuram um relacionamento individual com a força, como algo que lhes fala de sua intimidade, a voz de seu coração e que lhe traz justamente o contraponto a massificação. Luke, ao ser guiado por Bem Kenobi e Yoda para ser capaz de adquirir um relacionamento individual com essa voz interior, torna-se o contraponto a massificação que transformou seu pai em um robô. É sumamente interessante que o lado negro seja energizado pelo medo e a raiva, e que esses sentimentos sejam utilizados pelo imperador para seduzir Luke para o lado sombrio, só podemos agir com liberdade e decisão moral quando agimos com consciência, de outra forma não passamos de joguetes indefesos do automatismo do inconsciente e ao pensar na relação do lado negro com esses afetos negativos me veem a mente imediatamente as palavras de Jung em seu curto e decisivo ensaio “Presente e Futuro”.
Uma argumentação racional é apenas possível e profícua quando as emoções provocadas por alguma situação não ultrapassam determinado ponto crítico. Pois quando a temperatura afetiva se eleva para além desse nível, a razão perde sua possibilidade efetiva surgindo em seu lugar slogans e desejos quiméricos, isto é, uma espécie de possessão coletiva que, progressivamente, conduz a uma epidemia psíquica (Jung, 2011, p.12).
O desenvolvimento que parece existir nos Sith não passa de individualismo, pois o desenvolvimento da personalidade não obedece a nenhum desejo e a nenhuma ordem, mas apenas a necessidade, e o que vemos no caso de Palpatine não passa de uma usurpação contrária a natureza, um desejo egoísta por poder e uma consciência do eu inflada e prisioneira de suas próprias ficções. A terra devastada é o “lugar” onde você não pode ser você mesmo, ou fazer aquilo que decididamente precisa fazer para ser você mesmo, ao contrário, você só pode fazer aquilo que outros ordenam, Vader se encontra subjugado a uma razão de estado que substituiu completamente seu juízo individual, ele não passa de uma função de uma sociedade, do império galáctico, que se torna dessa maneira, no lugar do indivíduo, o único portador real da vida, mesmo não passando de uma ideia hipostasiada. Com todo o seu poder e terror, Vader não passa de um homem máquina que vive o inferno de testemunhar a sua vida a ressecar.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Facebook e os Babacas


É interessante notar como em muitos casos as pessoas ativamente procuram evitar que em suas páginas nas redes sociais existam babacas, ou mesmo, para utilizar um termo mais ameno, pessoas de opinião ou gostos diversos. Basta uma discordância, ou mesmo uma fotografia que fira um pouco suas sensibilidades, uma suposta indireta, para a pessoa ser imediatamente enviada para o limbo, para a Sibéria virtual. Acaba-se cercado de gente que pensa igual, gosta das mesmas coisas, ou que simplesmente apenas observa a vida dos outros de maneira silenciosa, sem a existência de um contraditório.
Eu de minha parte, considero que é de suma importância ter um número considerável de babacas em minha página das redes sociais, assim eu não mergulho na ilusão narcisista de que o mundo é feito a minha imagem e semelhança. De que todas as pessoas defendem os direitos dos animais e são a favor do casamento gay. Não, na verdade, a maioria das pessoas é preconceituosa e detesta bichos, para dizer o mínimo. É importante perceber com clareza que se vive numa sociedade bastante heterogênea, seja isso bom ou mau, não importa é simplesmente assim que é. Quando se seleciona de maneira cuidadosa, quase cirúrgica, com quem você compartilha seus conteúdos virtuais, tudo vira um monólogo de assentimentos vazios ou “likes” hipócritas. Não amigos, eu advogo em favor dos babacas, daquelas pessoas que me irritam, que colocam coisas ofensivas, que discordam daquilo que eu considero sacrossanto, de fazem troça de meus valores mais basilares, esses são mais preciosos do que aqueles que parecem gostar exatamente das mesmas coisas que eu gosto.
Como tenho de lidar com um monte de gente babaca, eu tenho meus valores e ideais sempre testados, questionados, preciso constantemente revê-los, reavaliá-los, ponderá-los e não simplesmente acreditar que eu estou certo e pronto, numa fé cega baseada em ignorância e preconceito. Ao me deparar com a contraditória, mesmo as mais virulentas, sou posto a pensar, a contemplar meus valores e ideias e a traduzi-los em minha própria experiência de vida, e caso não consiga, tenho que ter a coragem de demoli-los e sobre seus escombros erigir algo mais sólido.
Sou um intelectual de esquerda, militante do partido dos trabalhadores, mas em minha página das redes sociais tenho diversas pessoas de direita, algumas até de extrema direita e não poucas que odeiam o meu partido. Elas me lembram constantemente que é obrigação de todo revolucionário fazer uma crítica permanente as suas ideias e da sua práxis, ao me irritar com seus excessos direitosos ou neoliberais eu me defronto com a tarefa urgente de pensar nos acertos e desacertos (que existem e não são poucos) da consecução prática de minha visão de mundo, cumprindo assim, de maneira cotidiana o meu ofício de intelectual público. Sem eles, sem os tais “babacas” e a irritação que me causam, e que me mobiliza, eu refletiria bem menos, pensaria bem menos.
Existem igualmente aqueles que não são babacas, mas que possuem opiniões que divergem das minhas e são capazes de argumentar e defender suas ideias, e isso é ainda mais instigante. A esses eu devo muito, o que intimida a maioria e leva a discussão a um lamentável excesso de sentimentalidade e afeto justamente para não ter que argumentar, é o que me anima a discutir, a possibilidade de contraditório! Pólemos pater pan, como diria ao velho Heráclito, sem isso estaríamos perdidos num solipsismo auto-erótico absolutamente infértil. Talvez as redes sociais não sejam o lugar ideal para se fazer os mais importantes debates, mas elas se tornaram nosso novo ágora, o local onde nos encontramos a todos, para onde convergimos e nos vemos, mesmo que apenas entre bits e bites. E lá estamos todos e porque não trocarmos ideias? Nos defrontarmos com a babaquice? Sem isso a vida é monótona. A diferença, mesmo a que nos ofende é simplesmente fundamental, sem a tolice como poderíamos reconhecer o brilhantismo e a inteligência?
O babaca, o verdadeiro babaca, ao primeiro sinal de desconforto, de uma leve diferença, do mais sutil sinal de contraditório, ele o exclui ou o ignora. Alguns poderiam dizer, erroneamente a meu ver, que o babaca só gosta de espelho. Isso é falso, o espelho nos mostra de maneira objetiva e sem rodeios quem somos, gordos ou magros, bonitos ou feios. E nessa vida, o único espelho que temos é o outro e o espelho mais preciso e genuíno é o do outro que nos irrita, e do qual desgostamos. É esse que nos mostra quem verdadeiramente somos, pois “Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho?” como está escrito em Mateus. Tudo aquilo que nos irrita e que nos desgosta tem a ver com a possibilidade de genuína compreensão de nós mesmos, do que realmente somos e não apenas do que acreditamos ser, pois há muito de nós mesmos que nos é estranho. Essa estranheza que nos diz respeito e essa inferioridade que nos irrita a vemos com clareza no próximo e essa clareza é diretamente proporcional as trevas que as encobrem e nós. O babaca odeia o espelho, pois ele se regozija na ignorância, mas devemos amar os babacas, pois eles são nossos mestres acerca de nós mesmos e não devemos evitá-los e nos esquivar, mas ao contrário devemos procurar conhecê-los.
Eu já fui excluído das redes sociais de muita gente, tenho o péssimo hábito de não ficar calado diante do que eu acho errado ou equivocado, e excluí de meu convívio virtual apenas uns poucos – um deles foi um fulano que postou a foto dos excrementos de sua cadela com a desculpa que se parecia com uma lapiseira, tudo tem limite – não sei se todos os que me excluíram são babacas, talvez não (um ou dois sem sombra de dúvida), mas estamos diante de uma possibilidade inaudita de comunicação e conhecimento nunca antes experimentada pelo gênero humano. Qualquer um de nós pode andar com a biblioteca de Alexandria no bolso, ou falar instantaneamente com o mundo inteiro, é uma janela que se abre para vermos mais longe, para além de nossos preconceitos e pusilanimidades, temos todas as ferramentas, precisamos apenas da disposição.