domingo, 4 de agosto de 2019

Encruzilhada


Como pensador eu habito uma encruzilhada, perpetuamente encarando dois caminhos, duas vias. De um lado a História e a Filosofia, empreendimentos pautados pela racionalidade ocidental, de outro a obra de Jung que convida sempre a ouvir a voz romântica do irracional com seus abismos e florestas selvagens. Jung sempre nos convidou uma tarefa racionalmente impossível, a de sustentar em nosso peito os opostos sem contradição, a dar igual espaço a racionalidade consciente e ao caos do inconsciente, porque ambos têm o direito a existir e da junção de ambas as fontes, das águas claras e das águas turvas é que brota a vida. Assim como todos ou, ao menos, uma grande quantidade de pessoas sensíveis, me sinto profundamente afetado pela onda de barbárie e irracionalidade demoníaca, associada a uma racionalidade perversa e mecânica que procura a tudo e a todos arrasar e destruir, converter nossos corações em algo feito de engrenagens de metal. Não é possível passar incólume por esse tempo de profunda escuridão, tampouco é possível compreendê-lo apenas pelo viés da consciência, muito menos tratá-lo como uma pura aparição do caos inconsciente a luz do dia, como se os monstros de nossos pesadelos subitamente deixassem as sombras e passassem a se mostrar em plena luz com todo o seu horror. É preciso entender o que se passa por um olhar de quem se encontra em uma encruzilhada.

Jung, certa feita afirmou que nenhum de nós pode enunciar a Verdade, com letra maiúscula, mas ao ser travessado por um problema contemporâneo, se pudermos identificar como ele nos afeta, podemos enunciar uma verdade, mas uma que reverbera. Estamos numa encruzilhada, e é preciso reconhecer essa posição, pois estamos navegando entre Sila e Caribidis, em meio as Simplégades, estamos coletivamente em nosso estreito de Bósforo, ou, para usar uma metáfora ainda mais antiga, mas que muito me apetece, caminhamos ao lado de Gilgamesh em nossas 12 léguas de escuridão. Falei a princípio em pessoas sensíveis, pois é preciso reconhecer que muitos de nós não percebem a escuridão a nossa volta e, diferente de nós, dão boas vindas e se regozijam nas trevas. Seja por sempre terem vivido na escuridão, na noite primordial do inconsciente, por viverem sob a influência de conteúdos nefastos do inconsciente desde sempre, estarem à vontade no caos. Outros, talvez, por viverem vidas insípidas e estagnadas, sentem-se finalmente vivos diante da destruição e da loucura. Alguns, talvez, apenas caminhem como leminges seguindo a multidão em direção ao abismo, muitos estão simplesmente enganados, mas uma boa parte é apenas perversa.

Para entender os tempos em que nos encontramos, uma das categorias racionais possíveis, como bem me recordou meu filho Ícaro de apenas 14 anos, se encontra no sétimo capítulo da obra máxima de Maquiavel. Nesse capítulo, ele discorre sobre principados novos conquistados com as armas dos outros ou pela sorte. Principados conseguidos devido à fortuna são fáceis de conseguir, mas difíceis de manter, pois a fortuna, ou a concessão do poder por outrem são duas coisas instáveis. “Eles também não têm a sabedoria necessária para manter a posição, pois, ao menos que sejam homens de grande valor e habilidade, não é razoável esperar que deveriam saber como comandar, tendo sempre vivido fora do governo; além disso, eles não podem manter o poder, pois não têm forças que possam manter fieis e amigáveis”. Maquiavel parece descrever o nosso atual presidente, e seus aliados que já o abandonaram e o acusaram de ser aquilo que ele sempre demonstrou ser, um tolo grosseirão, como: João Doria, Lobão, MBL, Alexandre Frota, Raquel Sherazade, Reinaldo Azevedo et caterva. Bolsonaro não deitou os alicerces de seu governo, e precisaria ter a habilidade para fazê-lo agora, sob grande risco, mas não possui habilidade ou sabedoria para tanto. Concordo com Zizek que a comparação com a década de trinta não nos leva muito longe, mas nesse ponto se faz necessária, pois assim como os nazistas, seu discurso não é simples propaganda, mas um delírio real. Assim como o manco Joseph Goebbels de fato nutria ódio irracional contar o meu povo, os judeus, e nisso era ombreado por quase todos no círculo íntimo de Hitler, que de fato, acreditavam nas mais estapafúrdias teorias conspiratórias, Bolsonaro e sua família realmente acreditam em suas rocambolescas teorias conspiratórias.

Felizmente o nosso Goebbels tupiniquim, Carluxo, não tem sequer uma fração do gênio maligno do original. O primeiro fez uso extremamente inovador do rádio e do cinema, praticamente inventou o que hoje chamamos de fake news. A novidade do nosso caso, que extrapola a comparação com a década de trinta, é o uso inovador e quase diabólico das redes sociais para disseminar mentiras, e a absoluta falta de qualquer controle republicano sobre isso, além da incapacidade dos políticos mais tradicionais de compreender e agir, nem que fosse para tentar barrar essa estratégia. Sua única resposta, a torto e a direita, foi a estupefação e incredulidade, este escritor incluso. No capítulo dezenove, Maquiavel alerta sobre a necessidade de evitar ser desprezado ou odiado, “[...] ele deve evitar ser ladrão e usurpador dos bens e das mulheres dos súditos, pois isso o tornará odiado [...] Ser considerado volúvel, leviano, efeminado, miserável e irresoluto o tornam desprezível [...] ele deve procurar mostrar, em suas ações, grandeza, coragem, gravidade e fortaleza [...] pois aquele que conspira contra o príncipe sempre espera agradar com a remoção dele, mas, quando o conspirador só pode avançar ofendendo o povo, ele não terá coragem de seguir adiante”.  A todos os que estudaram História e Ciência Política, fica evidente que Bolsonaro faz justamente o oposto do que é preconizado por Maquiavel, e ainda assim vem se sustentando no poder, e aqui encontramos os limites das categorias racionais.

Bolsonaro certamente não possui uma estratégia, ele é um tonto e um boçal, mas há algo aqui a ser percebido, se não como estratégia consciente, como algo de inconsciente que reverbera sem ser percebido em todos nós, desde seus opositores a seus mais aguerridos apoiadores, o ódio e o desprezo não são empecilhos, mas ferramentas de seu governo. Zimmer traduziu um texto da tradição hindu em que dois irmãos ofenderam Shiva, e pediram uma penitência. O grande deus lhe deu duas opções: passar 20 encarnações como seus mais fieis devotos ou apenas 10 como seus piores e mais virulentos inimigos, pois quem odeia dedica mais tempo e atenção ao objeto de ódio do que quem ama e admira. Nosso ódio e desprezo é o alimento que tem engordado o poder macabro do presidente, nossos ataques a ele são tão descoordenados quanto seus atos, dedicamos nossa libido ao aspecto odioso, desprezível e irracional de seu governo como a tresloucada Damares, o desprezível Weintraub, seus filhos que sempre surpreendem pela infantilidade e grosseria. Estamos hipnotizados pelo ódio, e esquecemos da racionalidade perversa que está nos bastidores e que destrói tudo o que toca, arrasando a Amazônia, matando índios, aprovando venenos variados para a nossa comida e queimando sem pudor as garantias constitucionais. Estamos todos dançando ao som da música insana que Bolsonaro rege. A mesma que ele mesmo dança há décadas sem nem mesmo saber.

O que eu sinto diante dos ataques mais óbvios aos nossos preciosos marcos civilizatórios é ódio e raiva, misturados a um nojo indizível. Eu não sei como lidar com esse horror que faz do meu peito pesado, e que sinto nas minhas entranhas como se uma bílis corrosiva estivesse aos poucos em devorando por dentro. Nós estamos sendo atacados de dentro pra fora e nem percebemos, há um mal indizível em nós que reage ao mal que grassa lá fora e nos consome por dentro, e nos paralisa. Diante dessa maré de insanidade, de alguma maneira, precisamos lidar com esse ódio em nós, para estarmos inteiros e impor o nosso ritmo e a nossa razão as ações que devemos e podemos tomar. Estamos paralisado, pois o ataque de Bolsonaro desperta o pior em nós, e coloca em xeque a imagem de superioridade moral que a esquerda sempre nutriu acerca de si mesma. Se eu pudesse, certamente mataria Bolsonaro com requintes de crueldade, mas é justamente isso o que me consume, pois me torna não mais do que um espelho para o horror que ele representa. Temos de aprender a lidar com o poço de piche de irracionalidade que é esse desgoverno, para podermos enfrentar a racionalidade perversa que ameaça a todos nós, pois assim como os nazistas usaram da razão técnica europeia para massacrar meu povo com extrema eficiência, tudo aquilo pelo qual lutamos duramente vem sendo destruído sistematicamente sem que haja qualquer reação organizada. Depois de tantos anos discutindo coisas tão bobas quantos adereços de cabelo, ou palavras adequadas ou indequadas, o verdadeiro horror nos paralisou. Há um cano de fuzil apontado para as nossas cabeças, e não o vemos por estarmos nos afogando em ódio. O ódio é uma taça de veneno que eu bebo esperando que o outro morra, a cada dia que eu bebo um pouco mais dessa taça, nossos inimigos se fortalecem, e urge que os derrotemos.

sábado, 20 de abril de 2019

Coaching, Psicologia e tudo o mais...



O eleitor sergipano William Menezes utilizou a plataforma digital do senado E-Cidadania, para propor uma ideia acerca de uma lei que criminaliza o coach, com o intuito de coibir o charlatanismo praticado por esses profissionais, em resumo suas justificativas são: eles não possuem um diploma válido, seu trabalho é um desrespeito ao cientificamente orientado de outros profissionais, e a utilização de propaganda enganosa. Seus argumentos são convincentes, e creio que poucas pessoas diriam que são equivocados, eu, porém, creio que merecem uma análise mais cautelosa, assim como a referida proposta.

Pra começo de conversa, minha posição pública em relação ao coaching sempre foi crítica, nunca me furtei de tecer considerações duras com relação a essa prática e as suas evidentes fragilidades tanto práticas quanto teóricas, porém, no que concerne a uma lei proibindo a sua prática, eu tenho que levantar sérios questionamentos antes de pensar em concordar com essa ideia, então me permitam fazer o papel de advogado do diabo aqui.

Primeiro uma discussão de princípios, em que pese que minha visão do coaching não difere muito da de William, apesar de eu também ser bastante crítico quanto a Psicologia... O primeiro ponto é que o proibicionismo não é exatamente um método dos mais eficazes para se impedir uma prática como essa, a rigor, a atuação do estado no sentido de proibir ou coibir determinadas práticas me soa tanto pouco prática quanto problemática. Apesar de não ser um pensador liberal, e acreditar na importância de marcos regulatórios de cunho estatal, eu partilho da crença liberal de que o estado não deve intervir nos costumes, mas creio nisso por motivos diversos. Jung, em um livro importante, porém pouco lido, Presente e Futuro, advoga que a substituição da razão de estado pela razão individual resulta apenas em coletivismo, na impossibilidade da diferenciação moral individual, o que resulta em estagnação coletiva, pois é da diferenciação do individuo que vem o progresso coletivo. No caso de uma lei que simplesmente proíba o coaching, eu me pergunto se não estaríamos justamente substituindo a razão individual pela coletiva. No que concerne ao charlatanismo e propaganda enganosa, não sou exatamente um expert, mas acredito que já existem leis que são suficientes para coibir tais práticas. Obviamente o projeto ainda é embrionário, mas perguntas práticas devem ser feitas: quem fiscalizaria? Quais as penas? Que tipificação legal teria de ser criada para que essa prática seja um crime?

Jung certa feita asseverou que o efeito psicológico não é exclusivo da Psicologia, e há algo que parece que os psicólogos ainda não se deram conta, a de que a psicologia é apenas mais um discurso sobre a alma humana, e não creio que seja sequer um discurso privilegiado. A psiquiatria constitui também um discurso sobre a alma, bem como a literatura, a poesia, o cinema, a filosofia, o teatro, a psicanálise e mesmo religiões como o budismo ou o hinduísmo possuem sofisticadas reflexões sobre a alma, só para citar alguns exemplos. Desses todos que eu citei, apenas a Psiquiatria é um discurso científico, e nem de longe é o mais potente e fecundo deles, de longe, creio que o mais poderoso dos discursos sobre a alma venha da arte. Não que eu acredite que o coaching possua algo como um discurso sobre a alma humana, senão uma colcha de retalhos de elementos disparatados tomados de empréstimo de diversos campos, em especial das psicologias de viés mais ortopédico. Ainda assim, em termos de princípios, uma lei como essa toma como justificativa um noção vaga de ciência e cientificidade que me parece almejar um estatuto de “verdade” que a ciência já abandonou desde Popper.

No que concerne ao diploma, talvez julguem que o meu olhar seja enviesado pelo fato de ser professor universitário, de um curso de Psicologia ainda por cima, e, não fosse isso suficiente, ter fundado e lecionar e coordenar uma pós-graduação em Psicologia Junguiana. Com essas credenciais obviamente sou a favor do diploma. Como bom junguiano minha resposta é um sim e um não simultâneo. Foucault estava correto ao afirmar que o diploma serve apenas para constituir uma espécie de valor mercantil do saber, ele prossegue afirmando com precisão cirúrgica que todos que adquirem um diploma sabem que ele nada lhes serve, não tem conteúdo, é vazio. O diploma me garante apenas que alguém possui um diploma, qualquer um que tenha passado pelos bancos de uma universidade sabe muito bem que é perfeitamente possível sair de uma universidade sem nem mesmo um mínimo de conhecimentos acerca de sua área, especialmente nos cursos de Psicologia. Como na piada dos professores de engenharia que convidados a andar de avião, quando foram avisados que a nave fora projetada e construída por seus alunos fugiram em disparada, menos um, que nem se moveu e disse “conhecendo os meus alunos, essa porcaria nem levanta voo”. Mas estou sendo cínico, não sou exatamente a favor do diploma, mas sou a favor daquilo que as pessoas subentendem no diploma e que ele não garante: um rigoroso treinamento para se tornar terapeuta. Coachs não são terapeutas, nem se dizem terapeutas, mas se comportam cinicamente como se fossem, aliás, todo o discurso deles é pautado pelo cinismo, é quase perverso em sentido lacaniano, pois se colocam na posição de gozo do outro, são capazes de, sem pestanejar, lhe prometer o céu a lua e as estrelas – perdoem-me o uso da Psicanálise, ela se presta melhor do que a ciência de Jung a enxovalhar.

Antes de proibir o coaching, também teríamos de nos perguntar, como tantas pessoas gastam tanto dinheiro com gente que possui um discurso tão claramente perverso, e que em geral adquirem seu treinamento em cursos de fim de semana e livros tontos de autoajuda? Creio ser evidente que nossa sociedade padece de enormes problemas, alguns deles estruturais em virtude de nosso sistema político e econômico, problemas estes que não têm solução de curto prazo, alguns até parecem insolúveis. O coaching surge, junto de diversos outros discursos pautados pelo individualismo burguês, propor saídas fáceis e individuais, que são obviamente impossíveis, mas que estão em linha com as narrativas mais corriqueiras no capitalismo que sempre exigem pressa, sucesso e felicidade agora e com base apenas em si mesmo. Como Jung assevera, o individualismo não passa de uma acrobacia da vontade, e como o velho Freud já sabia, não somos senhores em nossa própria casa, logo esse otimismo é bobo e, em si enganoso. Além desses elementos, vivemos um momento de profundo reacionarismo e anti-intelectualismo, momento esse que vem se construindo na última década e parece ter atingido seu auge, e poucas respostas são mais anti-intelectuais do que o coaching. Não é de espantar, igualmente, que aquilo que os coachings digam, soe tão similar à doutrina neo-pentecostal da prosperidade, mas embalada em papel de presente laico.

Outro aspecto da ascensão do coaching, que não mudará em nada com sua proibição, é o do fracasso da Psicologia em se firmar como uma via possível do debate público. Não temos grandes intelectuais psicólogos, como temos grandes intelectuais psicanalistas, isso se dá porque no geral os psicólogos se rendem epistemologicamente de maneira muito fácil e rápida a qualquer outro saber que eles possam macaquear de maneira imprecisa e fácil, seja a Filosofia, as Ciências Sociais, as Neurociências, a Psiquiatria, a Administração etc. O local mais improvável de se encontrar um discurso propriamente psicológico é justamente um curso de Psicologia. Proponho um exame simples e fácil, procurem a ementa de psicopatologia de algum curso de Psicologia, e verão que não há ali um debate psicológico, mas sim estritamente psiquiátrico e, no geral, sem sequer pensar nas críticas que mesmo os psiquiatras se fazem. Como diziam os medievais “a natureza possui um horror vacui”, esse vácuo deixado pela psicologia é preenchido por toda sorte de coisas, desde discussões muito estranhas sobre “física quântica” até o coaching.

Do que tenho visto até agora, esse projeto me parece ter chamado a atenção de algumas pessoas mais lúcidas que percebem que o coach pode ser pouco mais do que um pensamento mágico que custa caríssimo – em que pese que eu acredito que devam existir pessoas sérias nesse meio em número não negligenciável, que se prejudicam do charlatanismo e certamente também são contra esse estado de coisas – e de psicólogos que veem nele uma oportunidade de revanchismo. Tenho sempre muitas reservas contra qualquer coisa que me soe como reserva de mercado e corporativismo, e a mim me parece que, no fundo algo que pesa para os psicólogos no que concerne a essa proposta tem a ver com essas duas coisas. Pouca coisa de realmente importante mudaria com essa proibição, e como Jung asseverava, as pessoas esquecem que existe uma inteligência para o mal, como o coaching pode ser qualquer coisa, seria complicado cerceá-lo, ainda por cima, como não há qualquer rigor, basta mudar de nome e voilà! Penso que seria mais útil e produtivo tentar pensar nas falhas da psicologia, da psiquiatria e discutir com seriedade as grandes questões do nosso tempo que a prática do coaching tenta responder com pensamento positivo: o individualismo, a falta de empatia, o significado de sucesso, o materialismo, a pressa, o ocaso das grandes saídas espirituais, as agruras do capitalismo etc. A lista é longa, e urge que criemos alternativas reais ao coaching, ou que ao menos, em nosso desespero existencial, sejamos um pouco mais exigentes, que ao menos as pessoas que vendem “sucesso” sejam realmente bem sucedidas e não gente que fracassou em outra profissão qualquer e virou coach, que possuam de fato algum expertise, com ou sem diploma, e que possam comprovar esse conhecimento ao invés de acreditarmos em qualquer promessa perversa, será pedir demais que pessoas desamparadas pensem duas vezes antes de agarrar a primeira mão que surge para lhes arrebatar das águas em que se afogam? Talvez seja, talvez seja demasiado, mas não vejo saídas simples para problemas complexos, afinal não sou coach.

domingo, 7 de abril de 2019

Sérgio Moro



O ministro Sérgio Moro é um fenômeno peculiar a ser analisado, especialmente sua ascensão e queda, que acompanha o surgimento e ocaso do “governo” que ele desavergonhadamente ajudou a eleger.
Visto em retrospecto, quando ele sai da seara jurídica, onde de fato ele tinha super-poderes, devido a uma incapacidade do judiciário seguir suas próprias regras e se auto-regular, em virtude de suas ligações intestinas com os poderes políticos e econômicos, bem como com suas ligações íntimas com a religião, especialmente as neo-pentecostais ou com o catolicismo mais tacanho, justo em sua atuação política, seus limites tornam-se auto-evidentes.
Moro é politicamente incapaz, tacanho, sem a menor compreensão de como funcionam os meandros de nossa república, ele é um perfeito representante de sua classe social, o funcionalismo público de classe média alta: um sujeito incapaz de fazer uma leitura precisa da sociedade onde vive, que desconhece a história da nossa nação, sem qualquer traquejo político, e que se julga o parâmetro real da sociedade em termos de ideias e comportamentos. Ele é alguém para quem seus privilégios se convertem em uma venda, que o impedem de aceitar, admitir ou compreender a diversidade e desigualdade de nossa nação. É sempre bom lembrar, somos uma nação marcada pela violência, exclusão, pela mancha indelével de nossos 300 anos de escravidão, e pelo nosso lamentável racismo estrutural. Moro é uma amálgama de tudo isso. Basicamente ele é um medíocre com delírios de grandeza.  Ele é um homem médio, e Jung definia psicologicamente o homem médio como alguém que tem apenas uma coisa na cabeça. Talvez Moro entenda de direito, se ele realmente entender terá sido profundamente desonesto e venal como juiz, mas talvez nem disso ele realmente entenda.
Moro é medíocre, mas assim como muitos iguais a ele, se aproveitou da nossa pretensa meritocracia, pois passar no concurso para juiz federal exige uma dedicação exclusiva, vários anos estudando em cursinhos especializados em dar dicas certeiras sobre os tipos de prova e que mais cai, que é algo possível apenas em que pode se dar ao luxo de passar de 3 a 5 anos sem trabalhar e estudando não para ser juiz, reparem, mas para passar no concurso, coisas distintas. Moro é o resultado de um acúmulo de privilégios e profundas desigualdades sociais, e foi preparado para ter autoridade e não a sabedoria para exercê-la. Além de tudo, ele tinha uma certeza quase paranoica de sua própria grandeza, ele almejava não simplesmente acabar com a corrupção, mas fundar uma nova república, estava quase numa missão divina, embriagado pela própria vaidade e orgulho. Essa mesma miopia parece ser um traço comum em seus pares, uma cegueira que os faz observar o mundo como um construto subjetivo, porém desconhecido, suas ações e discurso mostram que ele lidava com suas fantasias sobre o Brasil e sobre si-mesmo, e não com a maneira como as coisas se comportam, mas a realidade objetiva está aí para nos cobrar um preço inelutável.
Como ministro de um governo pífio e pusilânime ele deparou com a complexidade kafkiana de nosso presidencialismo de coalisão, onde sua vontade não impera soberana, teve de lidar com o humor mercurial das massas, que já não o vê como herói salvador da pátria, e com o humor perverso dos brasileiros que rapidamente ao notar suas óbvias falhas as transformou em piada. Moro não passa de um exemplo do “senso comum ilustrado”, ele é um tolo diplomado, algo que grassa em um país tão desigual como o nosso, um técnico sem qualquer visão de mundo para além dos preconceitos tacanhos de sua classe, mas com delírios de grandeza. Moro esperava ser obedecido, mas acabou sendo apenas escarnecido. Ao se tornar ministro ele uniu a sua pusilanimidade ao ridículo desse governo, ele é apenas mais um piada de mal gosto. Mas Moro é legião, milhares de jovens de classe média alta, racistas, tacanhos, burros e limitados estão viajando para fazer concursos, e sendo adestrados como cães para passar em algum deles e depois desfrutar de sua ignorância numa posição de poder e prestígio, que apenas confirma seus preconceitos afetivos e quimeras. Moro só mostra o resultado nefasto da nossa proverbial desigualdade, um tolo togado, sem o menor traquejo político, sem erudição, nem mesmo erudição jurídica, sem a menor compreensão sociológica da nossa realidade, e inflado pela sua persona de Juiz. Moro se identifica com o cargo que ocupa, mas sabe ele que sua personalidade tacanha e ignóbil foi apenas engolida pelo manto de autoridade de juiz, que não depende de sua personalidade, mas da sociedade que o cerca. Jung chamava essa condição de neurose de identificação com  a persona, ele não é uma pessoa tridimensional, mas um juiz apenas, em geral que se identifica com sua posição social o faz justamente por ser pusilânime e isso o leva a crer que o poder e a majestade da toga não sejam da sociedade, coletivos, mas uma aquisição individual, ele é poderoso e majestoso.
Seu cargo de ministro desvelou para todos a pequenez de sua alma, e são esses homens pequenos e ridículos que nos governa, são esses micróbios morais e intelectuais que passam nos concursos para juiz, devido aos privilégios atávicos e horrendos que os 300 anos de escravidão nos legaram, quase como uma maldição a pairar sobre nossas cabeças, o sangue dos escravos que está até hoje em nossas mãos nos amaldiçoa a sermos para sempre atrasados e provincianos, pois até hoje matamos a criatividade e o talento daqueles que não têm a cor ou o sotaque correto, precisamos urgentemente entender que Moro é a cara do Brasil que não queremos: uma nação escravocrata, desigual, violenta, machista e elitista. A permanência dessa maldição interessa a muito poucos, é preciso lembrar Deleuze ao dizer que a minoria somos todos e a maioria não é ninguém, mas apenas um forma vazia que vez ou outra é preenchida por alguém: homem, macho e cidadão. Moro por algum tempo foi essa maioria, mas só se pode ser maioria ao se abdicar de si mesmo, e isso tem um preço elevado que ele agora paga com sua própria carne.

sábado, 30 de março de 2019

O Futuro do governo Bolsonaro


Hoj em dia, tenho muito receio de fazer análises e previsões acerca do governo Bolsonaro, porque errei em quase todas as que fiz, eu e todos os demais analistas políticos. Todos nós subestimamos o poder das redes sociais e de fake news absurdas, do anti-petismo, dos movimentos neo-pentecostais pautados por um irracionalismo surreal, e, principalmente, o subestimamos o espírito reacionário de uma parte considerável de nossa gente. Para piorar super-estimamnos o poder da mídia tradicional, a influência econômica nas campanhas (sempre tão caras) e, pior de tudo, super-estimamos a realidade... Mesmo diante de todos esses erros, cometemos ainda outros equívocos acerca da atuação de Bolsonaro no poder, nós acreditávamos que ele seria um novo Hitler, que seria fascista e autoritário, que teríamos uma segunda republica de Weimar, mas o que vemos é simplesmente um novo Jânio Quadros, ainda mais patético, nós subestimamos grosseiramente a incompetência de Jair e seu clã.
O destino do governo Bolsonaro parece incerto, mas me arrisco a novas previsões, ao menos compreendo que os velhos modelos nos servem pouco para entender o que se passa. A primeira coisa a se compreender é que Bolsonaro não é um governante autoritário. Ele é um grosseirão, que gosta de exaltar a ditadura e vocaliza os mais horrendos preconceitos atávicos de nossa avelhantada república escravocrata, mas fora isso, ele sequer consegue controlar os filhos, não é capaz de unir seus aliados, seu governo não possui nem o menor traço de coesão e coerência, ao invés disso, seus aliados vivem uma constante guerra por território e prestígio o que denota justamente uma ausência de comando. Algo básico, quando não há uma hierarquia clara, ela vai se estabelecer por conflito, e é isso o que vemos. Alguém realmente autoritário já teria sido, bem, autoritário, e colocado ordem na casa. Pelo contrário, Bolsonaro é fraco, vacilante, incapaz, para além de incompetente, ele é incapaz, diria até que preguiçoso. Talvez as três palavras que melhor o definam sejam burro, incapaz e preguiçoso.
Para piorar ainda mais, ele não faz nem ideia do que significa ser presidente, e herdou uma presidência fraturada, ferida de morte pelo impeachment, e com sua eficácia simbólica duramente abalada, quase destruída. Nós achávamos que ele seria um Trump, que iria usar a tática do Fire Housing para nos confundir e passar as reformas, mas creio que ele nem sabe o que significa tática. Jair permanece o mesmo, como parlamentar ele foi ineficaz, como candidato suas “qualidades”, de ser tão estúpido que dizia coisas indizíveis bem ao gosto do espírito escravocrata e assassino do nosso povo, o elegeram, mas agora essas qualidades o destroem. Quem esperava uma metanóia, que de súbito ele se tornasse um presidente, esperava por um milagre, que, obviamente, não aconteceu.
O mercado, o verdadeiro deus do Messias de araque que se sente na cadeira da presidência, está insatisfeito. Guedes, o Chicago boy, é um incompetente e um lunático. Moro é o que sempre foi, um homem de elite, acostumado aos seus privilégios de nascença, que super-estimou suas próprias qualidades e agora deve estar percebendo que não passa de um amador, sem a menor pista, o menor laivo de compreensão de como a nossa complexa república funciona, e junto do governo que ele descaradamente ajudou a eleger, seu mito e sua imagem desmoronam. Em três meses sobram escândalos e constrangimentos, há uma paralisia causada pela incompetência generalizada de todos os membros importantes do governo. Caçar comunistas inexistentes pode ser bom para dar votos, mas não serve de nada quando se está no poder, Olavo pode xingar e berrar o quanto quiser, mas não se governa sem um mínimo de habilidade.
Ciro Gomes acredita que Jair será de fato um Jânio Quadros, que diante da impossibilidade de governar irá renunciar. Os militares não parecem tão interessados em um golpe, e Jair é um fraco, não tem culhões pra isso. Um impeachment parece improvável, pois o PSDB ao destruir Dilma se consumiu no processo, e, ao contrário dos Bolsonaro, os nossos parlamentares são raposas velhas e aprendem com os erros. A cada dia um aliado se afasta, a lista já está longa: Feliciano, Pondé, Lobão, Frota, Rodrigo Maia... O fato é que um governo tão comprometido com os rentistas e o “mercado”, é melhor mesmo que não funcione, ao mesmo tempo, aqueles que mais precisam do governo, os mais pobres, ficarão à míngua por quatro longos anos. De qualquer sorte, o mais provável é que aconteça algo muito improvável, só o tempo dirá.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Jean Willys e os canalhas que comemoram sua partida


Há canalhas de todo o tipo e espécie, mas existe um lugar especial no inferno para aqueles que estão celebrando a partida de Jean Willys e seu infortúnio. Nunca excluí ninguém por pensar diferente de mim, preciso que a minha visão de mundo seja questionada, porém isso às vezes tem um preço. Deparei com uma postagem, de um sujeitinho pusilânime que compartilhou a notícia da renúncia do deputado do Psol com a legenda “coloque aqui sua risada opressora”. É indescritível a raiva, misturada à tristeza e o embrulho no estômago de nojo que isso me causou, minha primeira reação foi a de ter ganas de torcer o pescoço do sujeitinho, mas simplesmente ceder a nossa sanguinolência atávica apenas me faria pior do que ele, não, é preciso refletir, pois ele é legião.
O “homem de bem” é em geral um legalista, que deseja leias draconianas, pena de morte, e nutre um desejo perverso pela destruição do outro, desejo sintetizado na frase “bandido bom é bandido morto”, ele anseia com todo o ardor o retorno da Lex Taliones, todavia, celebra o infortúnio de Jean. O que ele está a celebrar? Em primeiro lugar ele comemora o resultado de muitos crimes: calúnia, difamação, injúria e ameaça, esta última com pena de detenção de um a seis meses ou multa. Jean é vítima há anos de uma enxurrada de calúnias e ataques de ódio apenas pelo fato de defender as suas ideias. Ele é o único homossexual assumido no congresso. É evidente que ele não é o único gay do congresso, há gays à esquerda e a direita entre nossos congressistas, mas eles preferem permanecer no armário, justamente para não passar pelo que Jean sofre, quem pode culpá-los? O espírito do “homem de bem”, jamais abandonou o período colonial, por essa época a lei era decidida por uma assembleia de homens de bem, todos brancos e senhores de engenho, que decidiam assuntos de vida e morte. Por mais de trezentos anos a tortura foi algo normal e cotidiano, negros escravos eram cruelmente torturados e assassinados ao bel prazer desses gentishomens. O homem de bem atual sente em seu íntimo uma saudade inconfessável dessa realidade, pois se fossem realmente legalistas, compreenderiam que o império da lei implica isonomia, igualdade e que mesmo seus oponentes estão amparados pela lei, ela é cega.
O “homem de bem” também não é um democrata, pois se tivesse um pingo de republicanismo saberia que é um golpe duríssimo a nossa democracia um representante eleito do povo não se sentir seguro para debater suas ideias. Jean tem toda razão em termer, Marielle foi morta, brutalmente assassinada, Freixo escapou por muito pouco, e a família do nosso presidente tem ligações intestinas com os milicianos que provavelmente estão implicados nesses crimes. Se não somos capazes de garantir a integridade de um representante eleito do povo, imagine uma pessoa comum? A própria liberdade de expressão sofre um duro golpe, mas o “homem de bem” não quer direitos, a liberdade de expressão conquistada pelas revoluções burguesas soa para ele como um exagero, o direito a voz e a integridade física deve ser um privilégio de uns poucos, e esses poucos devem deter o poder de calar e matar os demais: negros, judeus, gays, esquerdistas... A lista é longa.
O “homem de bem” é uma abominação moral, pois Jean é um homem de carne e sangue, que sofre diariamente calúnias e ameaças por defender um grupo que sofre há décadas sob o jugo desses senhores de engenho redivivos, nem posso começar a imaginar os danos psicológicos que uma dieta diária de ameaças causaram e causam a ele, é preciso ter uma perversidade monstruosa para não lamentar que um outro homem, como eu, que pensa, sente e sofre, seja submetido a tal tortura. Meu primeiro ímpeto, como já lhes disse, foi esganar o sujeitinho, mas não é isso que caracteriza o que nos torna humanos, essa violência está inscrita nos genes de todos os primatas, o que nos faz humanos é a nossa “loucura”, como disse Zizek, a literatura, a arte, poesia, filosofia. A capacidade que temos de amar, de imaginar, de ponderar e enxergar para além de nossa mesquinharia patética e de sentir que o infortúnio de Jean é um mal que nos assola a todos. Jean, você lutou uma luta desigual, sangrou todos os dias, fez mais do que qualquer um de nós faria, vá em paz, e viva, viva bem, essa é a nossa vingança, essa é a nossa resposta: a vida. Viva Jean!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

É possível um ateu ser Junguiano?


Recentemente me fizeram uma pergunta bastante inusitada, porém muito interessante, em resumo, “é possível um ateu ser Junguiano?”. A resposta esse questionamento suscita alguns outros, no que concerne a perspectiva da ciência de Jung. Dentre esses questionamentos suscitados podemos pensar de imediato em qual seria o significado de religião para Jung? Ou o que ele entendo por ateísmo? Se levarmos a pergunta ainda mais longe, o que faz com que alguém seja um analista Junguiano? E de maneira negativa, o que faz alguém não ser? Eu não fui tão longe na resposta a essa interrogação, mas pretendo aprofundar aqui a minha resposta. De imediato a resposta a indagação é um sim e um não, obviamente explicarei os dois.
Sim, é possível ser Ateu e Junguiano, assim como é possível ser teísta e Junguiano, as duas coisas possuem vantagens e problemas. Jung era fundamentalmente um empirista, como ele afirmou em carta de 1947 a Erminie Huntress Lantero “não há uma única coisa na minha psicologia que não seja fundamentada por experiências reais”, ainda nessa mesma missiva afirma que toda a sua Psicologia deriva de sua experiência imediata com pessoas vivas, logo não se trata da formulação de experiências místicas ou de elucubrações filosóficas, mas do ponto de vista de um médico que tinha de tratar de seus pacientes que estavam sofrendo. O fato de ele ser um empirista e um pragmático, não significa que não existam influências filosóficas em seu trabalho, em especial Kant e James fundamentam diversas questões extracientíficas que aparecem na obra. Em especial, Kant leva Jung a sustentar uma postura de agnosticismo, que me parece ser fundamental para que ele elabore a noção empírica de realidade psíquica.
De acordo com Kant, Deus enquanto um ens metafísico realmente existente não pode ser objeto da experiência, logo não se pode constituir sobre ele qualquer conhecimento válido, sendo assim, na seara científica, não se pode afirmar nada sobre Deus. Isso significa que tanto a firmação sobre a existência de Deus quanto sobre sua inexistência são metafísicas, logo ambas impossíveis em termos empíricos ou mesmo racionais. Consequentemente, em termos estritamente psicológicos, ou seja, científicos, para Jung não cabe a ciência opinar sobre essa ou qualquer outra questão teológica ou metafísica, resta simplesmente não saber.
No que concerne a Psicologia enquanto um saber científico e racionalmente conduzido, todavia, existe a percepção empírica de que para ser real uma ideia basta existir. Jung afirma, de maneira tipicamente pragmática, que real é tudo aquilo que age, que atua. Nessa ótica, a ideia de existência de deus é psicologicamente real, bem como, a ideia da sua inexistência também o é. Numa perspectiva de uma ética clínica, as duas posições são perfeitamente válidas e reais, desde que atuem na vida das pessoas que as professam, que não sejam meras opiniões ou uma simples uma mascarada. Mas não se trata simplesmente dessa percepção tão singela, pois Jung com frequência fala em Deus em seus livros, e sempre, eu devo frisar, SEMPRE, deixa claro não ser teólogo e nem tampouco filósofo, mas sim um cientista. Ao falar em Deus, Jung está se referindo a um fato psíquico empiricamente verificável, tanto na experiência do homem moderno, quanto na antropologia, história das religiões e psicologia dos estados mórbidos da alma. Quando ele usa a palavra Deus, em termos psicológicos, ele está se referindo a Imago Dei, um fenômeno intuitivo, que significa aquilo que é mais importante, a maior quantidade de libido, uma imagem psíquica da totalidade, que pode ou não corresponder ao um ens metafísico realmente existente. Essa experiência, da imago dei, é imediata e sentida como supremamente real, vem carregada, em geral, de um afeto avassalador de espanto e terror, podendo ser tanto salvífica quanto destrutiva.
Logo, psicologicamente, Deus é real. Certa feita, ao ser questionando por um teólogo se ele afirmava que deus é psicológico, o que ofendia a sensibilidade desse teólogo, Jung resumiu assim esse insólito debate: para o teólogo psicológico não passava de algo menor, para Jung era justamente o mais importante, logo nem de longe dizer que deus é psicológico o diminui. Infelizmente, a maioria de nós, especialmente os psicólogos, tem uma sensibilidade similar à desse teólogo e não a de Jung.
Nesse sentido, da existência real no psiquismo de uma imago dei, para Jung, em termos pragmáticos, o ateísmo é impossível, pois a natureza possui um horror vacui, quando eu abandono conscientemente a ideia de um deus, um ser supremamente importante, ela vai ser substituída, com sérios prejuízos a vida e a adaptação, por algum ideia inconsciente de um supremo valor, que doravante sem que o saibamos, será o nosso deus. Nesse ponto, Jung concorda com o apóstolo Paulo,
O fim dessas pessoas é a perdição; o deus deles é o estômago; e o orgulho que eles ostentam fundamenta-se no que é vergonhoso; eles se preocupam apenas com o que é terreno. (Filipenses 3:19)
Qual o significado de religião para Jung? A conscienciosa consideração do numinoso, ou seja, daqueles efeitos dinâmicos não causados pela vontade, que é mais vítima deles do que seu criador, pois o numinoso é uma condição do sujeito. Temos igualmente de nos recordar, que para Jung toda mitologia é a essência da alma projetada, ou seja, toda ela é uma projeção do inconsciente coletivo, e como ele afirmou em seu Símbolos da Transformação, serve para nos ensinar os limites de nossa personalidade empírica, que além de nós existem os Deuses e que devemos respeitá-los, temê-los e adorá-los, mas jamais nos confundir com eles. Em outras palavras, não nos identificarmos com o efeito numinoso da manifestação viva dos arquétipos, sob pena de sermos possuídos por esse efeito e perdermos a nós mesmos.
A posição de Jung me parece suficientemente esclarecida, mas pergunta ainda não foi respondida. Resta nos lembrarmos que Jung afirmava que a Psicologia não pode se converter em uma cosmovisão, pois do contrário não passaria de um método sugestivo e ortopédico, todavia, é fundamental que o médico possua uma cosmovisão, uma filosofia de vida em sentido antigo. É necessário que o médico seja capaz de justificar intelectual e moralmente seus atos, e escolhas e que possua um posicionamento claro diante do mundo, do tempo em que vivemos e das grandes questões políticas. Lembre-se, estimado leitor, que Aristóteles chamava originalmente a metafísica de filosofia primeira. Ao se pensar seriamente sobre o que é o cosmos e como devemos viver nele, é de fundamental importância imaginar as consequências de existirem ou não deuses, ou um deus, como queira. Para Aristóteles, por exemplo, Deus era um primeiro motor imóvel sem o qual a noção de causalidade que dava racionalidade ao mundo não seria possível, para Sartre, por exemplo, se existir um deus no sentido de um demiurgo criador do homem, há um sentido a priori para a vida humana, uma essência humana. Sem deus, para Sartre, é mais ou menos como temia Dostoevsky, o homem tudo pode. Pensar na existência de um demiurgo é ponderar igualmente em um sentido para a existência. Ter uma cosmovisão significa, como asseverou Jung, ponderar seriamente sobre a vida e a morte, e tais ponderações levam quase que forçosamente a certas questões metafísicas.
Um analista Junguiano pode ser ateu desde que ele seja capaz de justificar o seu ateísmo de acordo com sua cosmovisão, que não se trate de uma reação sintomática ou de uma compensação, mas sim de algo que genuinamente corresponda as suas inclinações, que esteja em acordo não apenas com a sua equação pessoal, mas com a integridade da sua personalidade. Também é preciso que ele ou ela compreenda que é possível pensar e sentir de uma maneira diversa, e que sua experiência corresponde a uma verdade e não “A Verdade”. O pior erro que um analista pode cometer é supor o seu próprio psiquismo nos outros. O mesmo vale para um analista que seja Judeu e creia em Hashem, ou um cristão, ou para um analista que acredite nos orixás ou em qualquer outra divindade. Urge igualmente lembrar do que von Franz nos ensina, a diferença entre o pastor  e o médico, é que o pastor acredita que deus se limitou a escrever as escrituras, o médico, por seu turno, sabe que deus pode se manifestar criativamente na alma das pessoas. Não fosse isso o bastante, devemos ter sempre em mente, que nunca saberemos o que deus quer das pessoas, não podemos jamais, sejamos ateus ou crentes, nos converter em messias ou demônios do poder.
É igualmente indispensável lembrar a jocosa afirmação de Campbell de que no fundo crentes e ateus estão enganados. Alguém é religioso por acreditar de maneira denotativa nas imagens da Torá, de que de fato houve um jardim primordial onde uma cobra falava, já um outro é ateu por não conseguir acreditar que houve um jardim e um casal primordial em que a mulher foi feita da costela desse primeiro homem. Ambos perdem de vista o valor de metáfora do mito, e com isso seu engano os afasta da realidade psicológica que essas imagens traduzem para nós acerca de nós mesmos. Ao compreendermos os mitos de maneira conotativa, ou seja, metafórica, essas imagens estranhas que até então eram opacas se tornam transparentes ao transcendente e nos revelam a riqueza até então inaudita de nossa vida interior. Para alguém que deseje ser um analista, importa mais em sua lida com a alma o valor de metáfora da religião. Mito é a religião do outro e religião não passa de uma incompreensão popular da mitologia.
Seja crente ou ateu um analista não deve se converter num proselitista, jamais deve corrigir uma inclinação do paciente que não se corrija a si mesma e deve ter sempre um temor reverente diante dos abismos de desconhecido que o outro ser humano diante dele representa.
Todas essas indagações e possibilidades de respostas me levam a matutar igualmente, de uma maneira mais ampla, no que torna alguém um Junguiano. Há, ao menos, duas maneira de responder a isso, uma positiva e outra negativa. Ambas as vias podem levar ao descaminho de me transformar num demônio de poder, capaz de decidir, como um juiz paternalista quem é ou não é um Junguiano, e nisto eu não desejo me tornar. Mas também não posso me esquivar de cogitar, tanto no campo do intelecto quanto no do valor, pelo significado daquilo a qual dedico a minha vida, do contrário estaria contrariando as recomendações que eu mesmo faço aqui.
Ser psicólogo te torna um junguiano? Não, de forma alguma, na realidade nenhum diploma te torna um junguiano, nem o de medicina que Jung possuía, nem o de filologia de M. L. von Franz. Foucault estava coberto de razão ao dizer que o diploma serve apenas para constituir um valor mercantil do saber, fazendo os que não o possuem se julgarem incapazes ou sem o direito ao saber, o que têm um diploma sabem que ele não serve para nada, não tem conteúdo e é vazio, somente os que não o tem vêm nele um sentido pleno. Não bastasse tudo isso, com raras e honrosas exceções, os cursos de psicologia e medicina nada ensinam sobre Jung ou sobre os saberes que realmente importavam para que fosse possível compreendê-lo. A formação em Zurique também não exige qualquer diploma específico, então isso significa que o diploma do Instituto C. G. Jung me torna um junguiano? Não, ele é só mais um diploma como os outros, por sinal, um que M. L. von Franz em seu tempo detestava e repudiou.
Fazer análise com um analista junguiano me torna um? Não necessariamente, e mesmo uma análise que realmente o levou a um alto grau de autoconhecimento não é garantia suficiente de que você tenha se tornado um junguiano, mas, por certo é uma condição indispensável, até porque, outra condição para ser um analista é não ter uma neurose ativa, ou seja, certo grau de saúde psíquica.
Conhecer a obra, as ideias e o método de Jung me tornam um junguiano? Não, assim como a análise, isso não é suficiente, sendo, porém uma condição indispensável, apesar de existirem idiotas em número suficiente que pensam o oposto, que podem ser junguianos sem ler, e nem compreender Jung. Pior, há alguns que se julgam capazes de julgar a obra ou ainda de a ela fazer reparos, ou mesmo que Jung foi superado, esses deveriam estar em camisas de força e não tagarelando soltos por aí.
Ser reconhecido pelos meus pares como um Junguiano me torna um analista junguiano? Não, eu particularmente não me fio nas massas ou opiniões coletivas e ligo muito pouco para elas, como dizia Jung “cem cabeças brilhantes juntas formam uma só cabeça de bagre”. Houve um tempo aqui na minha cidade natal, que para a minha eterna vergonha, um sujeitinho desprezível que mal havia saído dos cueiros em termos de competência teórica no que concerne a obra de Jung foi alçado à condição de “líder” do “movimento junguiano”, e reconhecido amplamente como possuidor de um saber e autoridade que não tinha e nem tem. Lamentavelmente ninguém parecia ter lido, ou ao menos compreendido O Eu e o Inconsciente, onde Jung falava justamente sobre esse fenômeno e de como justamente os mais pusilânimes são aqueles com maior sofreguidão respondem ao anseio das massas por prestigiar, devido a sua fraqueza e inferioridade têm uma avidez por prestígio. Eu via aquilo com espanto, era como se o líder de um movimento de pintores não soubesse pintar, um colega psicanalista, muito mordaz, dizia que o tal movimento era “perverso pseudomessiânico”, seu sarcasmo era muito acertado e apropriado.
Ter profundidade de personalidade, desenvolvido as funções que necessitavam de desenvolvimento e lutado arduamente para descobrir a minha verdade interior me torna um Junguiano? Não, isso é indispensável, conditio sine qua non, porém também não é suficiente. Sem isso é melhor nem começar, mas apenas isso, não basta.
Identificar-me como Junguiano perante os meus pares faz de mim um Junguiano? Não, já conheci uma pessoa que se autointitulava junguiana sem jamais ter lido um livro sequer do Jung e sem ter feito nem um mísero minuto de análise. Eu posso me identificar ou me intitular como eu bem entender, posso até mesmo afirmar ser Cristo, ou um Kriptoniano, isso importa bem pouco na maioria dos casos, visto a grande maioria das pessoas ser profundamente inconsciente de muitas coisas, e afirmar coisas absurdas ou que em nada condizem com suas inclinações, ou mesmo, serem simplesmente mentirosas e descaradas.
Então, meu caríssimo amigo Heráclito, o que diabos me faz ser, ou não ser um Junguiano? Não desista ainda, estimado leitor, compreenda que se trata de uma seara das mais espinhosas e que aprendi a argumentar com os textos de Jung e essa circoambulação é necessária.
O que te faz não ser um Junguiano? Bom, pra começo de conversa se você manda os seus pacientes desenharem madalas, ao invés de junguiano você não passa de um bocó que leu a obra de Jung com uma desatenção verdadeiramente condenável.  Caso você se julgue um místico ou messias de qualquer espécie e não um analista/cientista temos um sério problema. Se você não considera que existem forças inconscientes que agem de maneira poderosa sobre a consciência com uma autonomia quase diabólica, e, que o inconsciente é o problema fundamental da psicologia contemporânea, fica muito difícil pro seu lado. Mesmo levando isso em consideração, se você encara o inconsciente como uma espécie de poço dos desejos, ou o vê unilateralmente como algo bonzinho ou apenas como a fonte de sintomas neuróticos de toda espécie, certamente está no caminho errado. Minimamente, você precisa compreender 5 coisas simples: uma afirmação psicológica só é verdadeira se e somente si eu também puder afirmar o seu oposto, toda afirmação psicológica é relativa, mas relativa a um sujeito individual, os conceitos não explicam os fatos que eles denotam, toda observação genuinamente científica deve estar isenta de pressupostos teóricos ou filosóficos e o único critério de validez de uma hipótese em psicologia junguiana é o seu valor heurístico, isto é explicativo. Mas isso é apenas o mínimo.
Mas finalmente, o que o torna um Junguiano? Bem, fundamentalmente é preciso que você seja você mesmo. Isso pode soar um enorme clichê, ou um simples slogan tolo, porém, se você, estimado leitor, ainda não escapou das garras da primitiva identidade com seus pais, sua família, sua cidade ou mesmo sua nação, usando a expressão de James Joyce, se sua alma ainda não nasceu e alçou voo, não é possível sequer cogitar ser um junguiano, entretanto novamente temos uma condição indispensável, porém insuficiente em si mesma. É preciso viver a aventura do seu tempo, ser um homem moderno em sentido psicológico, estar atento aos grandes dilemas e problemas sociais e políticos, estar ciente das grandes questões imorredouras, daquilo que é grave e constante no sofrimento humano, possuir uma aguçada sensibilidade artística e uma vontade de estar vivo e de viver a vida em sua plenitude, mesmo em seus tropeços e horrores. É preciso uma grande dose de compaixão e uma dose ainda maior de coragem, toda coragem é pouca, se você tiver todas as demais qualidades e lhe faltar coragem desista, eu falo sério, desista. É necessário grande inteligência e erudição, e uma humildade ainda maior, pois o médico e o paciente estão em pé de igualdade, ambos estão no escuro.
É isso então? Não, não apenas, pelo menos. No fundo, a única resposta que posso lhes oferecer sou eu mesmo, a minha vida e a minha experiência, não como exemplo, jamais como exemplo, pois qualquer tipo de imitação leva a uma vida inautêntica. O que quero dizer, é que de tudo o que escrevi aqui, a única coisa que posso lhes assegurar com certeza, com cada uma das fibras do meu ser, é que eu sou um junguiano, e que isso significa antes e acima de tudo que eu sou eu.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Palestra no curso de capacitação do livro cidade da gente em Juazeiro

Vou começar contando uma história que todos vocês já devem saber, justamente por todos vocês já saberem. Conta-se que o Padre Cícero resolveu vir morar em Juazeiro depois de ter tido uma visão de Cristo e dos doze apóstolos lhe dizendo que cuidasse do povo daqui e assim o fez. Assim como essa história, envolvendo o famoso patriarca de Juazeiro, há muitas outras que povoam o imaginário não apenas de Juazeiro, mas de todo o Ceará, como o encontro entre o padim e Lampião, ou a sedição de Juazeiro, que derrotou as forças do governo federal e depôs Franco Rabelo.
As histórias que nós compartilhamos, essas de que todos se lembram, são justamente aquelas que nos fazem sentir como uma parte viva da história. Para além da minha família imediata, eu também faço parte do lugar onde eu vivo, sou o resultado do que se passou por aqui antes de eu nascer, em certa medida, eu não sou simplesmente eu, mas sou parte de algo bem maior, a minha memória se expande para além daquilo de que me recordo da minha infância e dos meus pais, há uma memória coletiva que me permite dizer que sou de Fortaleza ou de Juazeiro, que me traz uma identidade com o lugar onde nasci ou vivo. Floro Bartolomeu era Baiano, mas constituiu aqui sua história, aqui deitou raízes e aqui em Juazeiro ele deixou sua marca ao lado do padre Cícero Romão Batista. Quando alguém diz que é de Juazeiro, sabemos que se trata da terra de Floro Bartolomeu e do Padre Cícero.
Todos nós em algum momento temos de nós perguntar “quem somos?”, e essa questão vem sempre seguida e só pode ser respondida se soubermos de onde viemos, quais são as nossas origens, onde estão as nossas raízes, de que solo viemos e como esse chão nos influencia. Tanto é que, desde muito tempo se fala na diferença entre o sertanejo e o homem que cresceu na beira da praia, o sertanejo, como disse Euclides da Cunha, é antes de tudo um forte, moldado pelo clima árido e hostil do sertão, não lhe resta alternativa a não ser a força para sobreviver em meio à aridez de sua terra. Muita gente se contenta em saber da história de seus pais e avós, na busca por essa resposta, mas isso não basta, pois não sou constituído apenas pela minha família, sou também a minha vizinhança, o meu bairro, meus amigos, não é à toa que falo “fortaleza é a minha cidade”, pois o lugar onde vivo e onde nasci é tão meu quanto eu sou dele. Mas que laços me unem aos locais e as pessoas que me são próximas? O que nos une, são as histórias que partilhamos, e o fato de sabermos que essa terra, possui uma história, que assim como o sertão com sua aridez e hostilidade, também molda o caráter daqueles que aqui habitam.
Os personagens famosos dos locais muitas vezes traduzem o caráter, a alma de um povo, nessa terra tão dura e tão severa com seus filhos, as histórias da grosseria de um Lunga, por exemplo, são engraçadas, pois esse personagem traduz um pouco daquilo que é a alma do sertanejo, sua simplicidade e o caráter direto, teimoso e sem arrudeios. É preciso ser teimoso e duro para ter sobrevivido as secas do sertão do nosso Ceará, mas ao mesmo tempo, somos famosos no Brasil inteiro pela gaiatice, e um personagem como seu Lunga sintetiza dois elementos da nossa identidade.
Ao pensarmos nas nossas histórias, elas nos dizem o que significa ser Cearense. Quando estamos fora do nosso estado, se não perdemos as nossas raízes, nos somos ao mesmo tempo um indivíduo, alguém que pode até não gostar de certos aspectos da nossa cultura ou do nosso jeito, mas que não pode negar que possui as qualidades e defeitos dos filhos dessa terra. Antes da terra nos comer, muito antes de nossos ossos serem roídos por ela, a nossa alma já assimilou, comeu a terra e fez dela uma parte de quem nós somos. E para saber quem somos, precisamos conhecer essa memória que não é só minha, mas de todos, e por ser de todos define as minhas raízes, me dá uma solidez que minha personalidade jamais teria se eu não soubesse muito bem de onde vim, que veio antes de mim. Mesmo que eu resolva dizer que não sou nada disso, só posso fazê-lo ao saber o que é tudo isso, do contrário não se pode nem mesmo negar essa influência.
Há uma importância enorme em se pensar a história dos lugares, nosso país é muito grande, e cada um desses locais possui uma realidade social, estudar a história do Brasil não basta, pensar Juazeiro apenas a partir da história do Brasil causa grandes distorções, Juazeiro é parte do Brasil, mas estamos diante de um paradoxo, pois assim como a parte, Juazeiro, não explica o todo, o Brasil, o todo não explica a parte. Voltando a pergunta inicial de quem somos, certamente uma parte disso é explicada pela tradição da nossa família, mas também somos um pouco do que ela não é, há algo de novo na nossa vida, e só posso saber o que é esse novo ao descobrir aquilo que sempre esteve aí.
Existem fenômenos que são próprios de Juazeiro, é claro que essas realidades de Juazeiro compõem o quadro mais amplo do Ceará e do Brasil, mas precisamos entender as especificidades do local, ou corremos o risco de acreditar que tudo o que vem acontecendo aqui é modelado ou ditado de fora, e isso não é verdade. O esforço de compreender a realidade social de um lugar, de entender como ela se constituiu, como foi moldada pela história, pelos acontecimentos grandes e pequenos, pelos muitos personagens que por aqui passaram, permite também perceber que a realidade em que vivemos não é simplesmente algo dado e natural, mas que passou por um processo longo de construção. Ao entender como se constituiu historicamente Juazeiro, que grandes forças atuaram aqui, posso igualmente imaginar uma outra Juazeiro, pois a história não nos aprisiona, mas nos liberta. A história não é um destino inexorável, mas algo do qual todos nós, saibamos ou não, somos atores, e ao nos darmos conta de nosso papel, podemos igualmente tomar em nossas mãos o nosso destino e o do lugar em que vivemos.
Aquilo de bom e belo em juazeiro é fruto de uma história, de uma construção histórica e social, mas igualmente, nossa pobreza e desigualdade, nossos preconceitos, não caíram simplesmente do céu, eles também foram construídos historicamente e, quando percebo isso, e me percebo como um ator dessa história, posso ser um agente transformador. A pergunta “quem eu sou? E de onde eu vim?”, nos leva igualmente a pensar “quem eu quero ser?” e “para onde eu vou”. A nossa memória, as histórias que contamos juntos se referem ao passado, mas também nos permitem imaginar um futuro. Sem o conhecimento da história, não nos damos conta das enormes mudanças que já aconteceram a nossa volta, e muitas pessoas acreditam que a maneira como as coisas são é a forma como sempre foram e devem ser. Outros, por desconhecimento romantizam o passado, com um saudosismo que vê no passado quase o idílio da infância, sem se dar conta que nossos pais e avós tiveram de superar inúmeros desafios para que chegássemos aqui, e essa visão romântica do passado nos nega o futuro.
O livro que vocês agora terão a oportunidade de utilizar foi feito com grande espírito crítico e deve ser o começo, o ponto de partida das discussões em sala de aula. Nenhum livro, por melhor que seja, e esse é sem dúvida um ótimo livro, deve ser sacralizado e tomado como a palavra final sobre um determinado assunto, mas sim como uma oportunidade para começar um debate, um ponto de partida seguro para se discutir um tema, mas o que ele lhe traz não é o conhecimento pronto e acabado, o conhecimento vai se constituir em sala, com os alunos. O livro é uma ferramenta poderosa, mas uma das ferramentas que possibilita essa construção, ele é de grande valia, pois há um material de apoio para tratar do tema da história e geografia local, um material em que o aluno pode se apoiar e retornar a ele, e até mesmo se afeiçoar a ele. O material que foi produzido, certamente o foi com muito carinho e não deve ser difícil se afeiçoar a ele. Mas em se tratando da história do lugar, o livro é um apoio fundamental, mas deve ser um apoio e não o começo e fim desse trabalho. Os alunos devem entender que o debate crítico, como o que foi realizado pelos autores é fundamental, e que aprender sobre história e geografia significa também pesquisar sobre esses temas, e não simplesmente receber o conhecimento de bandeja. Quando eu estava na universidade, uma das minhas professoras, Simone de Sousa, nos sugeriu que pedíssemos aos alunos que pesquisassem quem eram as pessoas que davam nomes as ruas próximas as suas casas, muitas delas personagens da história do local. Em outra oportunidade, sugeriu que pedíssemos aos alunos que trouxessem para a sala objetos que contassem um pouco da história da sua família, que fossem o aspecto tangível da memória compartilhada.
Há muitas maneiras de ensinar a história de um lugar, sendo que uma das mais diretas é ir ao local. Depois de ler sobre um lugar, de entender tudo o que se passou ali, esse lugar que antes parecia tão comum, se torna estranho e maravilhoso, ao mesmo tempo em que se torna, em alguma medida, muito mais familiar do que antes. Espero que com esse livro em mãos, Juazeiro se torna ao mesmo tempo, para seus alunos, um lugar mais familiar e mais estranho e maravilhoso.